segunda-feira, 20 de abril de 2015

Incerta variabilidade


Por que, Senhor, é variável o homem 
como a chama da vela da nau de Colombo?
Por que, inda assim, firme e acesa permaneceu
quando as vagas do Novo Mundo tempestade rugiam? 
Tu que criaste Pangea e com o míssil luciferino 
a partiste em seis humanos números, dize: 
Por que, Senhor, é variável o homem?

O castelo do jeca. A toca do caipira. O lar do matuto.

[ Pindorama ]

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A lira sem cordas

Se o mundo gritar, silencia.
Emudece quando o barulho dominar.
Jamais disputarás alturas de som,
elevando o volume do teu Handel
quando o bárbaro urrar no morro
higienopolitano e batucar na laje
dourada do centro paulistano. 
A Suburra é democrática:
é o pandemônio do CEP,
é a confusão da Geografia 
nobiliárquica. Delenda est Gotha! 
Tudo é pântano agora. Auê-ê-ê-ô-ô-ô
Foi-se embora até o ingênuo lá-lá-lá.
Policarpo que guarde a quaresma
e deixe ao canto o violão do povo: 
Das wohltemperierte Klavier o aguarda.
Só se toca, musica e canta 
o fácil que é belo 
quando se venera na partitura 
o belo que é difícil. 
Popular que não seja pop
almejará "seu" Zé-ninguém
se deres àquela boa alma
a Composição que vem do Além.

sábado, 11 de abril de 2015

Alegoria da Peregrinação

Estou no alto do monte. 
A luz fria transpassa o ar. 
O mundo jaz, lá embaixo, aquecido e esquecido. 
É o topo da vertical carreira.
Daqui miro, parecendo tão perto, outro monte. É uma montanha.
No mesmo nível, faz concorrência milimétrica a este que os meus pés sustenta. Está, porém, mais próximo do horizonte. Será vã a busca por este além que a cada passo dado outro se afasta?
Não está perto. Permanece distante. A miragem nunca foi apanágio da areia afogueada.
Apenas as bases se tocam, feito pirâmides siamesas.
Iludem-me os olhos quando cerebralmente sussurram: “Vê como está achegado o outro cume!”
Rondando pelo cimo, vejo surgirem, em precisa diagonal, os picos escondidos contra o eixo de minha incerta perspectiva. Os ângulos se manifestam.
Há neve. Um rijo e alvo tapete cobre toda rocha e encobre toda pedra.
Olho outra vez para a montanha ao lado: há menos gelo, um pouco menos que aqui. Quase nada, mas lá ou ali se contam menos alguns flocos.
Lei seqüencial esta que vai incandescendo pelas longitudes e latitudes: matrioscas térmicas, vão os montes-montanhas perdendo a branca frialdade conforme se distende a potência das minhas retinas.
A luneta me deixou enxergar adiante, onde a água goteja e pinga das vítreas estalactites. Goteja, pinga e lava o granito da cordilheira.
Degelo. Algo gera de si o derretimento. Algo mina, desde o âmago, o frio.
Onde está o lenho prometeico que armou tochas contra as potestades de Niflheim?
O zero absoluto, laminado metal, quer retalhar o pó líquido que percorre as minhas veias ainda não dormentes e nelas injetar o mercúrio de Heráclito. No coração, o acinzentado azul do lado de fora combate o vívido carmesim do lado de dentro. Peleja, oh termômetro! Peleja contra a razão dilacerante destes falsos cristais.
Bússola? Quadrante? Fúteis auxílios.
É adiante o caminho do sol.
O pulo de Golias, dos nefilins ou dos filhos de Brobdingnag por-me-ia já no monte próximo?
Não voarei porquê não vôo. Não têm asas os homens. Somos ajuntáveis como os pintainhos...
Descerei, então. À escada, à escada do meu equilíbrio.
Para mais próximo do sol chegar -- que é para frente -- é preciso dele se afastar para baixo, é preciso ir às sombras do próprio monte que no alto nos faz crer que a descida são trevas e que apenas avistar a fonte do calor é por ele ser agasalhado. Oh, cruel ilusão e mentira!
Estou a caminho.
Estou no caminho.
Desço. Estou descendo.
Descer e subir para outra vez descer e subir e, assim, nas finais subidas e descidas, chegar ao longo planalto e, mais um pouco de caminho, à vasta planície, à 
fértil planície ensolarada dos quatro rios fundamentais.

Os campos verdes

Quero outra vez os campos verdes,
os vastos campos verdes do meu avô. 
Os campos verdes que iam no monte
se aprofundar, projetando-se ao além
das cercas, do mata-burro, do pasto.
Os campos verdes do café eu quero.
Os campos dos mugidos do gado
leiteiro, do assovio do vaqueiro,
do canto do pássaro despreocupado,
do almoço no fogão à lenha cozido,
do meu sono cedinho desfeito
pelo pisar do trabalho no sereno.
Os campos verdes sossegavam
a minha alma desnudando-se ao sol
pela manhã e à lua no meio da noite.
Ali as sombras eram filhas da paz.
Ali os urubus não tinham sólido pouso.
Os campos verdes -- nossa Canaã...
Outra vez os campos verdes quero.

El que soy

A torre dos godos,
dominada por heras e musgos:
eis o que eu sou. 
A runa descreveu o ideal
que a ruína do real apagou. 

domingo, 5 de abril de 2015

Páscoa

Mais fácil é que o não ser venha a ser
Ou que o ser que um dia foi volte a ser?
O átomo é pólen de qual cósmica flor? 
Semeia energia o nada ocasional? 
Surgir é mais difícil que ressurgir:
Aquele que fez pode refazer,
Aquele que viveu pode reviver.
Khristós Anésti! Alithós Anésti!