sábado, 11 de abril de 2015

Alegoria da Peregrinação

Estou no alto do monte. 
A luz fria transpassa o ar. 
O mundo jaz, lá embaixo, aquecido e esquecido. 
É o topo da vertical carreira.
Daqui miro, parecendo tão perto, outro monte. É uma montanha.
No mesmo nível, faz concorrência milimétrica a este que os meus pés sustenta. Está, porém, mais próximo do horizonte. Será vã a busca por este além que a cada passo dado outro se afasta?
Não está perto. Permanece distante. A miragem nunca foi apanágio da areia afogueada.
Apenas as bases se tocam, feito pirâmides siamesas.
Iludem-me os olhos quando cerebralmente sussurram: “Vê como está achegado o outro cume!”
Rondando pelo cimo, vejo surgirem, em precisa diagonal, os picos escondidos contra o eixo de minha incerta perspectiva. Os ângulos se manifestam.
Há neve. Um rijo e alvo tapete cobre toda rocha e encobre toda pedra.
Olho outra vez para a montanha ao lado: há menos gelo, um pouco menos que aqui. Quase nada, mas lá ou ali se contam menos alguns flocos.
Lei seqüencial esta que vai incandescendo pelas longitudes e latitudes: matrioscas térmicas, vão os montes-montanhas perdendo a branca frialdade conforme se distende a potência das minhas retinas.
A luneta me deixou enxergar adiante, onde a água goteja e pinga das vítreas estalactites. Goteja, pinga e lava o granito da cordilheira.
Degelo. Algo gera de si o derretimento. Algo mina, desde o âmago, o frio.
Onde está o lenho prometeico que armou tochas contra as potestades de Niflheim?
O zero absoluto, laminado metal, quer retalhar o pó líquido que percorre as minhas veias ainda não dormentes e nelas injetar o mercúrio de Heráclito. No coração, o acinzentado azul do lado de fora combate o vívido carmesim do lado de dentro. Peleja, oh termômetro! Peleja contra a razão dilacerante destes falsos cristais.
Bússola? Quadrante? Fúteis auxílios.
É adiante o caminho do sol.
O pulo de Golias, dos nefilins ou dos filhos de Brobdingnag por-me-ia já no monte próximo?
Não voarei porquê não vôo. Não têm asas os homens. Somos ajuntáveis como os pintainhos...
Descerei, então. À escada, à escada do meu equilíbrio.
Para mais próximo do sol chegar -- que é para frente -- é preciso dele se afastar para baixo, é preciso ir às sombras do próprio monte que no alto nos faz crer que a descida são trevas e que apenas avistar a fonte do calor é por ele ser agasalhado. Oh, cruel ilusão e mentira!
Estou a caminho.
Estou no caminho.
Desço. Estou descendo.
Descer e subir para outra vez descer e subir e, assim, nas finais subidas e descidas, chegar ao longo planalto e, mais um pouco de caminho, à vasta planície, à 
fértil planície ensolarada dos quatro rios fundamentais.

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