sábado, 30 de maio de 2015

Esponjas de sol - V

86. O revolucionário (cujo alvo é um idealizado e inédito futuro) quer desumanizar o homem pelas vias da progressiva e evolutiva superação de sua própria humanidade: eis aí o aculturado "homos superior" marxista, o filosofal "übermensch" nietzschiano e o biológico "beyond-human" dos eugenistas de todas as eras. O reacionário (cujo alvo é um idealizado e supostamente conhecido passado), por sua vez, quer desumanizar o homem pelas vias da regressiva e imobilizadora retroação de sua própria humanidade: eis aí a ideal "razza di Roma" fascista, o religioso "germano primordial" dos neo-pagãos e o integralizado "tempus perfectus" dos medievalistas fanáticos.

87. Deus é louvado toda vez que, injustiçados, nós brandamente nos calamos. Pacificar é saber, diante da afronta, dar moralmente a outra face e continuar em silêncio para promover o grande Silêncio -- que é Paz.

88. Os homens já não querem se casar. Infelizmente, compraram a miserável idéia do "Charlie Harper way of life" que, ao cabo dos dias, os transformará em solteirões infantilóides depressivamente largados nalgum asilo interiorano. O quê mais me incomoda nisso não é o preço que estes tolos -- verdadeiros "machinhos galináceos" -- hão de pagar, afinal, eles merecem ver sua débil ação diante da vida tornar-se dolorosa reação minadora de qualquer prazer existencial mais elevado. O quê mais seriamente me incomoda é, todo santo dia, dar de cara com mulheres tremendamente bonitas, inteligentes e de espírito virtuoso querendo amar, namorar, casar e constituir família amargando o desgosto de não serem devidamente correspondidas pelas hordas de imbecis que tem produzido a pós-modernidade. Constatar que não há um homem bom para cada boa mulher que existe nessa terra é de cortar o coração.

89. Evidência e sinal de extrema decadência civilizacional: as pessoas já não carregam lenços consigo. Espirram com violência nas mãos e ao ar comum, libertando energicamente seus sebosos fluídos amarelo-pardacentos como quem alforria das entranhas a própria alma. Usam as mangas e os colarinhos, maculando não só o eventual asseio do branco clorificado (pespegado pelas mãos zelosas de uma também eventual companheira "limpinha"), mas sujando sobretudo a própria idéia de beleza-pela-higiene. Às cavernas, cidadãos!

90. Shakespeare à brasileira: Ser ou parecer ser, eis a questão.

91. Sempre que tenho dúvidas morais sobre a idoneidade de algum destes líderes religiosos televisivos, eu penso nos apóstolos e no próprio Cristo agindo como eles agem. Sendo impossível imaginar o Senhor expulsando demônios enquanto pede aos pais de família telespectadores doações de R$ 900 que empenham o aluguel e o "pão nosso" dos próprios filhos, sendo impossível pensar no manso e humilde Jesus de Nazaré espancando verbalmente quem quer que seja em debates transmitidos pela Rede Globo, sendo impossível conjecturar no Príncipe da Paz vendendo milagres e orando por copos de água clorificada, patrocinando marchas histericamente gritadoras ao lado dos neo-caifazes congressistas e exigindo sacrifícios mais aptos à sanguinária sede de Moloch que ao Agnus Dei que silenciosamente caminhou até o Calvário, concluo: Silas Malafaia, Edir Macedo, R.R. Soares, Marco Feliciano, Valdemiro Santigo, Rene Terra Nova, Estevam Hernandes e todo e qualquer apóstolo da apostasia não são pregadores do Evangelho. São discípulos de Judas!

92. Uma biblioteca é uma tentativa de reconstrução da "totalidade de consciência" que o homem perdeu no Éden.

93. A mesma classe de pessoas que ferina e risonhamente critica os erros gramaticais dos indivíduos menos letrados também sente-se altamente incomodada (e algo "violada") quando dialoga com gente de falar vernacularmente correto.

94. O homem emocional crerá e descrerá em Deus através da Emoção -- motivado tanto por ardores cerebrais derivados do frenesi de algum culto neo-pentecostal quanto pela morte precoce de algum querido familiar (de Sigmund Freud a Joãozinho das Dores). O homem racional crerá e descrerá em Deus através da Razão -- argumentando tanto à partir do Design Inteligente que emoldura a complexidade irredutível do globo ocular quanto pelo palavrório cientificista da mais nova teoria de Stephen Hawking (de Alvin Plantinga a Heráclito Toddynho). A Fé, portanto, é dom de Deus.

95. Quem defende qualquer verdade fazendo dela uma esca[la]da de ambições pessoais é mentiroso. Quando instrumentalizado, todo ardoroso discurso favorável à uma idéia é, antes de tudo, um discordo contrário ao defensor da idéia.

96. A Ciência é tão infértil à alegria humana que um punhado de mal-salgadas batatas fritas é capaz de consolar-nos depois de um dia de agruras enquanto todos os seus postulados, teorias e hipóteses mal servem à química artificial do Bom Ar quando os tubérculos cobram seu odoroso preço digestivo. Quem é capaz de ser efetivamente consolado ao meditar na Teoria da Relatividade, no Heliocentrismo ou no Evolucionismo Darwinista? Qual "eureka!" aquietou os impetuosos pensamentos de um suicida ou arrefeceu as dores de uma mãe que perdeu o filho único para as drogas? Qualquer simplório sermão do Cura de Ars afasta o auto-homicídio e uma única audição do Stabat Mater de Pergolesi basta para aliviar o espírito da madre sofredora. O brilho das estrelas consola. Saber que as estrelas já se extinguiram quando nelas nós pomos os olhos não consola.

97. Decisão: Interessa a defesa jurídica da Verdade, não a defesa da verdade jurídica.

98. Recorda -- lembra com o coração: Deus é pessoa.

99. Razão e emoção são, em nós, uma só coisa: nós unificantemente pensamos aquilo que sentimos, sentimos aquilo que pensamos, pensamos naquilo que sentimos e sentimos naquilo que pensamos. O coração tem a rígida impassibilidade daquilo que é abstrato e o cérebro tem a passionalidade sanguínea daquilo que é concreto. Nós encontramos o real porquê o sentimos e desencontramos o irreal porquê o pensamos. Tudo depende das doses e medidas do nível de consciência agindo e reagindo em nós.

100. O homem tem fome de significado. O filósofo é um antropófago. O sofista, um autofágico.

101. O salomônico "Nada há de novo debaixo do sol" quer simplesmente dizer que tudo por aqui, na terra, é um ciclo de combinações e recombinações.

102. Uma idéia transforma-se em ideologia assim que alguém grita em nome dela.

103. As mediocridades presentes vivem das glórias passadas. A fagulha sempre comporá odes à fogueira ancestral. O lorde de apartamento sonha com a torre normanda do primeiro cavaleiro que levou seu nome heráldico. O bancário recorda o tempo em que o avô do banqueiro, seu patrão, trabalhava para o Visconde dos Quiabos, seu avô, como escriturário na há muito empenhorada fazenda de Campinas. O odor de naftalina precede (como o enxofre ao diabo) a toda ilusória pomposidade daqueles que apontam ufanisticamente para o pretérito e, por ele, tentam dar significado à porcaria contemporânea.

104. Poucas coisas são tão ilusoriamente imbecis quanto a pornografia. O pornógrafo consome descomunal energia folheando revistas e assistindo a vídeos de mulheres fotografadas e filmadas em cenas artificialmente simuladas a milhares de quilômetros de distância [das mãos e da revista, das mãos e da telinha] e que mal sabem da existência dele, afinal, a alma singular se dissolve na pluralidade de views. A pornografia põe o indivíduo em contato direto com a própria carne-pessoal, com o próprio eu-baixo. Não há, portanto, um relacionamento homem-mulher (sequer em um nível ideo-mental), mas um elo tremendamente psíquico do eu-de-superfície com o eu-abscôndito. Quando mais próximo da Playboy e do Redtube, mais distante está o homem de uma mulher de carne-e-osso. Papel e pixels não são capazes de unir macho e fêmea em "uma só carne".

105. O verdadeiro escritor terá, algum dia, ódio da escrita. Acordará bradando aos céus contra as letras e seus significados, contra os fenícios e os vedas, contra tudo aquilo que na terra contribuiu um dia para o advento do reino da palavra. Terá ódio, ferido e mortal e penetrante, quando se perceber servo da produção literária. Então, amará a destruição: porá fogo nos papéis, nos roteiros, nos versos não consumados, nas idéias não lapidadas; excluirá arquivos, deletará aquilo que a inspiração e o suor lhe trouxeram na áurea bandeja da criação -- que delineia formas superiores e obriga o artista a sustentá-las com seu conteúdo inferior.

106. Jesus nasceu pobre e... nobre: altivo operário carpinteiro e humilde Príncipe da Casa de Davi. "Sinal de contradição" para capitalistas e socialistas.

107. A "propriedade privada" é a materialização jurídica dos pronomes possessivos. É o profundo natural superficialmente positivado pela lei. Uma luta anti-propriedade é, portanto, antes de mais nada, uma luta anti-linguística e, finalmente, uma luta anti-humana.

108. O mundo humano começou com uma só lei: "Não comerás". Comemos, pois. Vieram, então, dez leis -- as duas tábuas dos Mandamentos -- com toda a anexa legislação mosaica. Conforme o Mal embotou a mente e o coração dos povos, codificaram-se mais e mais leis. As regras abundaram e, hoje, abundam positivadas a tal ponto que para cada comportamento humano há um protocolo de severos preceitos jurídicos. Conclusão: o pecado é um acumulador de regras. Quanto mais vil é o homem, mais ele acumula normas nas prateleiras da Lei.

109. Sumiram da face da terra os homens bons -- aqueles nos quais a virtude é organicamente distribuída pelo caráter. Em compensação, hordas de "gente do bem" (os perigosíssimos "bonzinhos" e tutti quanti) se alastram sobre a grande placa de petri da Humanidade.

110. As grandes depressões sempre acometem o homem que afasta-se fisicamente da Criação, logo, do Mundo-Significado. Na medida em que não empenha diretamente sua potência tangível e ânimo mental no contato com a corporeidade das coisas (seja através do trabalho rotineiro ou de qualquer atividade que faça o indivíduo sentir a materialidade que o circunda), dele se distancia o "sentido sinalizador" do Ser. Suspende-se, então, a declaração do "por que?" que advém à pessoa quando ela se relaciona com aquilo que o Mundo contém. Desviando-se do Mundo, o homem introjeta-se e, incapaz de estabelecer comunicação entre o seu significado particular e o Significado, ele definha em melancolia, tristeza e abatimento de vacuidade.

111. "Senhor, ensina-me a ser." Tal é a oração do sábio.

112. No Céu não se fala latim, grego ou aramaico. No Céu o vernáculo é objetivamente o próprio Verbo fluindo através daquilo que Ele criou. Portanto, o "nome da coisa" é a própria coisa conhecida e auto-revelada em seu âmago e essência. Linguagem sem o signo das palavras, sem o som gerado nas gargantas pelo ar dos pulmões. Diálogo entre seres plenos sobre a coisa que "é" e como ela "é" mostrando-se externa e integralmente "sendo". No Céu não há nuances -- não há gramática, ortografia, semântica, etc. No Céu não há pastorinhos do Lácio, pescadores trácios e carpinteiros de Nazaré encabulados diante de virgílios, homeros e josefos.

113. Raramente os cientistas são capazes de enxergar as belezas da Criação. E como não as enxergam, maravilhando-se, correntemente não as tomam como parâmetro para as suas "contas". Não é à toa que nenhum dos proto-cientistas que tentaram provar que a terra é "redonda" jamais percebeu que o dégradé de cores das auroras e ocasos celestes denuncia a graduação côncava da terra. Enxergaram a linha de perspectiva do barco sumindo no horizonte sem enxergar a luz se esvaindo parabólicamente no horizonte.

114. Nós pensamos com a voz. Todo pensamento (pensa aí e percebe!) nasce com o timbre do nosso personalíssimo som vocal. O que isso prova? Que a Palavra em nós tudo absorve e dispersa numa profunda unidade individual de funcionalidades -- fala e pensamento, sobretudo.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O alienado

Bronco como branco pomo
no campo, no canto sem encanto.
Pranto abafado pelo redomo 
-- o mundo, imundo e profundo.

Balanço zonzo pelo ranço,
pelo murro no gongo mudo.
Tonto, enganado no conto
do atordoado pensamento.

Ladainha da nutricionista

Regula a gula
com a régua
da regra:
mede
o que come.
É remédio 
o prazer, oh homem,
o comer
sem tédio e fome.
Formosura da ceia
é gordura na veia!

Advento do momento

Uma quadrada casa branca
encima de um redondo e verde monte. 
Um amarelo jardim sem cerca
na horizontal linha azul do mar. 
A quieta vida dos pescadores
na espaçosa biblioteca dos reis.
Três filhos, duas filhas, um cão,
dois gatos, passarinhos e pipas
esgrimando o ar, os ventos e a luz
enchendo de brisa -- suspiro -- o dia
e de frescor -- soluço -- a noite. 
Uma cama quente para ela e eu
e uma cama quentinha na velhice
para ela quando já não houver eu. 
Uma casa, de dura madeira; 
um lar, de minha vida manjedoira.

sábado, 16 de maio de 2015

-- Sem título XI --


O castelo, pedra após pedra, ruiu:
já não existe o muro e a muralha.
O palácio, ouro após louro, caiu:
o mármore é agora dos reis a mortalha. 
Soviético vermelho é a púrpura imperial
&
o arminho ducal o mujique velho aquece.
Tu, porém, rija continuas, antiga catedral.
És Igreja. Nada te fará a porta infernal.
Da besta a fria carne estirada permanece.
Христос воскрес! Воистину воскрес!

Sê tu

Quando puseres os olhos no céu,
compreenderás que há por lá um véu
que te impede de discernir o além
enquanto te permite daqui enxergar 
a final posição do humano, do homem. 
É a terra, boa e quieta, que te sustém
quando miras o alto paraíso. É o baixo.
Sonharás uma vez mais
ou abortarás teu sono na inconsciência?
Quando sonhas, estás desperto
para o futuro que o espírito planeja.
Não acordes enquanto o travesseiro
quiser te contar acerca de ti mesmo
e desenhar nas paredes do cérebro
as idéias que rabiscam as muralhas
do planeta -- reino inconquistado.
Olharás outra vez para o céu,
em luar claro ou nuvem escura,
e a certeza da imensidão te guardará.
Marcha, marcha contra o teu mundo.
Ganha-o e sobe os montes.
Discursa antes para as florestas,
para as estrelas, para os anjos,
té que no púlpito das gentes
abras a boca e tua alma pela língua
aos homens diga: o Mundo
não vale a nossa alma!

sábado, 9 de maio de 2015

Aquieta-te

Se levantares a espada,
aquelas pedras tomarás
e com elas todo pecado
perdoado tu carregarás.


Por que te pensas maior
que Madalena e Zaqueu?
O teu batismo na infância
será litúrgica elegância
enquanto o intelectual
não cair pelo espiritual.

Se levantares a pena,
subirás a figueira brava
e dela ao mundo dirás 
das trinta moedas o valor.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

-- Sem título X --

[O anjo sorridente da Catedral de Notre-Dame de Reims]

Tu és o que és. 
O que foste sempre serás.
Serás como és.
Não poderás ser outro. 
Nunca foste outro. 
Equilibrar-te-ás no teu eixo,
no vórtice do teu ser
e serás mais do que és:
potência do mesmo,
argila da ânfora grega
e da porcelana china,
chama para a fogueira celta
e para o Farol de Alexandria.
Não podes negar-te a ti mesmo. 
Tu és o que não pareces ser
e o que pareces ser. 
A sombra denuncia a luz
e a luz provoca a sombra. 
Serás menos do que és:
quando do núcleo foges,
o mármore romano
pelo escaravelho é talhado
e a postura hierática 
dos fanáticos assumes.
Serás menos quando o tempo
jogar e milhares de ti
conforme as eras gerar. 
Mas, nunca serás outro.
Nunca e jamais o teu eu
se alterará em mudança. 
Sendo, serás o que és.
Pelo que foste, serás. 
Tu és o que és.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Lux in tenebris

Se olhares para o alto
poderás das estrelas
testificar aos cegos
e da terrível escuridão
àqueles que a luz repelem.
Nota que lá domina
o sideral negror.

São pontos, apenas finos pontos,
estas celestes runas de energia.
Quão belas e morais, Herr Kant!

Se olhares para o alto,
as velhas aquarelas
dos sonhadores antigos
nas grutas da civilização
verás. Idéias que aquecem?
O fogo ainda rumina
o watt, elétrico terror.

Tempora anni

Enquanto a chuva cair
o mundo estará salvo.
Enquanto o dia for claro
e a noite pedir fogo,
o mundo dormirá.
A chuva é refrigério,
o fogo é aconchego
e sujeitos nós somos:
sujeitos individuais
sujeitos a adjetivos
e a simples substantivos.
Sujeitos ao frio
com ou sem agasalho.
Ao calor sujeitos
sem ou com pia nudez.
Enquanto o pensamento
mudo tocar o mundo,
descansará o espírito
dos quietos, dos pacíficos,
destes mansos que ao sol
o meigo roçar da luz
esperam té que a água
com carinho banhe a pele.

Eterna erosão


Se no granito tudo registrares
e no chumbo caracteres moldares,
se os louros de César 
e os espinhos de Cristo
num museu custodiares,
que deles fará o tempo?
Ruirão os templos gregos
como caem as palafitas dos pobres,
como sucumbem os lírios ao sol.

Verás o trovador diante do astronauta
e os pobres de Veneza em Wall Street,
tocarás o ouro sacrificial dos incas
enquanto Homero recita Quintana, 
contemplarás o grande festim de Roma
e o lavrador com o ovo na marmita.

Põe os ouvidos à janela enquanto é dia
e escutarás a canção do Taciturno
e a lira de Nero
Lisboa afogueando. 
Galileu avistará
o empíreo pelo Hubble:
rir-se-á de Ptolomeu! 
E se no barro outros mitos riscares
e o Word pelo cuneiforme trocares?

Esponjas de sol - IV

66. A Teologia é a idolatria de muitos crentes. Quantos e tantos não se jactam de privar de "mistérios" contidos em livros centenários escritos em grego e latim clássicos e ao mesmo tempo orgulham-se de falar o popularesco koiné tal qual um beberrão escriba de Tebas às pressas contratado para escrever uma carta pastoral para algum apóstolo analfabeto? Quantos e tantos não limpam as prateleiras (cheiinhas de grossos e pesados volumes) do escritório eclesiástico com uma volúpia intelectual digna de Gollum? -- O teu precioso Aquino, o teu precioso Calvino, o teu "precioso"! Quantos e tantos não freqüentam seminários, cultos de ensino, palestras e congressos onde o Senhor é exposto no vil sudário do PowerPoint, onde a Trindade não passa de mero diagrama geometricamente simplificado, onde as orações são frios repetitórios plenos de falsas loas a um Deus encaixotado em mestrados e doutorados, onde os homens se reúnem não para adorar o Cristo mas para regozijantes afirmarem que sabem mais do Criador do que os demais filhos de Adão?

67. A adoração dos judeus e dos cristãos não é, como nos paganismos, uma submissa veneração adulatória ao ego de uma divindade sedenta de atenção. A adoração -- a nossa adoração -- é amor e, sendo amor, converte-se em poesia musical e beleza gestual. O culto a Deus nada é senão uma seresta voltada para o balcão do Empíreo. A liturgia das sinagogas do uno Javé e das igrejas do trino Jeová tem sido, durante os dias e as noites dos tempos, a observância do mesmo rito que cumprem os amantes: um relacionamento povoado de graciosas e mútuas reverências.

68. No princípio era o Verbo, não o Número. O Verbo é informação mandatória. O Número é dado desobrigado.

69. "Deus está morto!", cantou no inferno algum Fitafuso que mais tarde foi ecoar seus tormentos no malemolente cérebro de Friedrich Nietzsche. Mas, morreria a Vida? À campa fria foi levado o corpo mortal do Espírito Imortal. Esvaziaste-te da vida, ó Vida? Três dias ficarás provando os termos últimos do pó da terra para que o meu pó permaneça gloriosamente rijo na Eternidade. Salvaste-me, e não desceste da cruz.

70. O grito é um desinformante sonoro, é o in-significado das coisas audíveis. Nada de grandioso é gritado, mesmo nas situações mais extremas e perigosas. Nas guerras e nos discursos de batalha memoráveis, temos brados. Nas alocuções religiosas mais ardorosas, temos clamores. O grito é o alarde da carne animal, é o impulso mais frenético da garganta, é o guincho da auto-defesa biológica, é o incerto toque da nossa neuro-trombeta irracional. Homens atacados, ofendidos e blasfemados não gritam. Javalis estocados gritam -- gritam e esperneiam.

71. Os filhos de Israel no deserto chamaram o bezerro de ouro de Senhor, de Javé, de Elohim, de “Eu sou o que sou”. Pespegaram na fundição idolátrica os atributos da divindade. Quantos religiosos, hoje (três milênios e meio depois), não dão o nome do Cristo à uma miríade de espantalhos pagãos?

72. A oração arranca do homem aquilo que divã algum é capaz de obter: o completo desnudar do eu profundo. Orando, nós contamos a Deus tudo aquilo que escondemos de nós mesmos.

73. Democracia é o regime político por meio do qual a minoria convence temporariamente a maioria de que a minoria é a maioria.

74. A Fé é calor. A Descrença é frio. Ambas queimam -- tornam-nos sentimental e cerebralmente "ardorosos", quero dizer. A Fé queima e amolece o homem. A Descrença queima e endurece. A Fé incandesce o coração do bom e erige fogueiras delirantes através do mau. A Descrença faz nevar niilismo na mente do bom e afunda o mau em gélida insensibilidade consciente.

75. O Diabo "engordou" de tanto comer o pó da terra -- logo, de mastigar, digerir e assimilar a cultura humana: no princípio do Mundo, é mera serpente no Éden; na conclusão, é leviatã apocalíptico.

76. Roma trocou "Ave Caesar" por "Ave Maria." Nasceu então o Catolicismo.

77. Resumos de grandes questões sempre são incompletos -- e geralmente falsos. “A fórmula da Trindade”, “A Evolução das Espécies em três idéias”, “A Equação da Vida”, etc. Resumos são simplórias caricaturas menores (lógicas) de complexas estruturas maiores (racionais). Resumos são criados já com a enviesada percepção de que o público será incapaz de entender e então compreender o assunto exposto; portanto, aos "mestres" de ocasião cabe torná-lo didático o suficiente para que, por meio de gotas homeopáticas, a descascada idéia tornada ideologia se achegue aos miolos do leitor ou ouvinte. Resumos tendem a ser resumidos e outra vez ainda resumidos e resumidos até que acabem restritos apenas à imagem sentimental que deles se têm sob certo ponto de vista. Resumos geram fixações e idéias fixas, enfim, produzem loucos e fanáticos que as alardeiam sob o manto de mistérios invioláveis cuja plenitude está depositada na robustíssima cabeça deles. Resumos são próprios dos temíveis homens de um só livro, acerca dos quais nos alertou Agostinho. As coisas devem ser explicadas por completo, sem aumentar e acrescentar, sem diminuir e retirar.

78. Uma definição para a Loucura: acreditar, intensamente, ser a causa de pequenas e grandes reações.

79. O Catolicismo não é o catolicismo do inquisidor dominicano Torquemada e o Luteranismo não é o luteranismo do pastor nazista Walter Hoff. O Catolicismo é o catolicismo de Francisco de Assis e o Luteranismo é o luteranismo de Dietrich Bonhoeffer.

80. Espiritualmente, o antônimo de falar não é calar. É escutar.

81. Artur desfaria com zelo o nó górdio e Alexandre pulverizaria à marteladas a rocha da Excalibur. Pouco importa o tempo e o lugar: o maneiroso sempre se guiará pelo cuidado e o bruto sempre se valerá de astutas grosserias.

82. Quanto à experiência da Eternidade, Paulo chamou-a de "inefável", Platão qualificou-a como "indizível" e Aristóteles disse estar "sem palavras" adequadas para explicá-la. Um cortador de cana aqui de Pindorama, conhecido como Zé de Zuza, definiu-a, porém, como "paz e alegria no tempo sem tempo". Estupendo! Miserável analfabeto das letras da Terra, seu Zé é eruditamente letrado no alfabeto do Céu.

83. O quê sentia o piedoso babilônico quando orava para Marduque e não obtinha resposta? O quê sentia a boa avozinha romana que rezava para Júpiter e não obtinha resposta? O quê sentia a moça casadoira grega que suplicava a Afrodite e não obtinha resposta? O quê sentia o honesto pai de família egípcio que clamava a Osíris e não obtinha resposta? O quê sentia o índio comum que rogava a Tupã e não obtinha resposta?

84. Um ponto de vista divergente não é o mesmo que uma opinião diferente. Um ponto de vista é apenas o efeito da dosagem de luz que, obedecendo ao ângulo da mirada de quem pensa, torna uma idéia mais ou menos brilhante. O porco não pode olhar para as estrelas, mas mira o solo em que pisa tão bem quanto a águia.

85. A política é um mal eminentemente aglutinador. Um mal aglutinador de indivíduos socialmente autônomos (extra-relacionais) logo transformados em coletivos públicos (intra-relacionais). Da fundação do proto estado nacional de Babel descrito em Gênesis 11 ("Façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra") à moderna constituição de partidos políticos, sindicatos, associações de bairro e afins em nome desta entidade etérea e fantasmagórica que é o povo, domina a desvirtuada idéia de que Bem Comum é sinônimo de Bem Grupal (instituto no qual a mera aglutinação numérica infere graus de importância e hierarquia ética e moral, respectivamente) que, por sua vez, tem suas exigências básicas pautadas pelo praxiológico discurso de unidade e coesão. A política, então, é o vórtice do número que decresce da unidade para a pluralidade: o indivíduo-único torna-se sujeito-no-grupo, depois pessoa-da-multidão e, enfim, gente-pela-espécie.