sexta-feira, 1 de maio de 2015

Esponjas de sol - IV

66. A Teologia é a idolatria de muitos crentes. Quantos e tantos não se jactam de privar de "mistérios" contidos em livros centenários escritos em grego e latim clássicos e ao mesmo tempo orgulham-se de falar o popularesco koiné tal qual um beberrão escriba de Tebas às pressas contratado para escrever uma carta pastoral para algum apóstolo analfabeto? Quantos e tantos não limpam as prateleiras (cheiinhas de grossos e pesados volumes) do escritório eclesiástico com uma volúpia intelectual digna de Gollum? -- O teu precioso Aquino, o teu precioso Calvino, o teu "precioso"! Quantos e tantos não freqüentam seminários, cultos de ensino, palestras e congressos onde o Senhor é exposto no vil sudário do PowerPoint, onde a Trindade não passa de mero diagrama geometricamente simplificado, onde as orações são frios repetitórios plenos de falsas loas a um Deus encaixotado em mestrados e doutorados, onde os homens se reúnem não para adorar o Cristo mas para regozijantes afirmarem que sabem mais do Criador do que os demais filhos de Adão?

67. A adoração dos judeus e dos cristãos não é, como nos paganismos, uma submissa veneração adulatória ao ego de uma divindade sedenta de atenção. A adoração -- a nossa adoração -- é amor e, sendo amor, converte-se em poesia musical e beleza gestual. O culto a Deus nada é senão uma seresta voltada para o balcão do Empíreo. A liturgia das sinagogas do uno Javé e das igrejas do trino Jeová tem sido, durante os dias e as noites dos tempos, a observância do mesmo rito que cumprem os amantes: um relacionamento povoado de graciosas e mútuas reverências.

68. No princípio era o Verbo, não o Número. O Verbo é informação mandatória. O Número é dado desobrigado.

69. "Deus está morto!", cantou no inferno algum Fitafuso que mais tarde foi ecoar seus tormentos no malemolente cérebro de Friedrich Nietzsche. Mas, morreria a Vida? À campa fria foi levado o corpo mortal do Espírito Imortal. Esvaziaste-te da vida, ó Vida? Três dias ficarás provando os termos últimos do pó da terra para que o meu pó permaneça gloriosamente rijo na Eternidade. Salvaste-me, e não desceste da cruz.

70. O grito é um desinformante sonoro, é o in-significado das coisas audíveis. Nada de grandioso é gritado, mesmo nas situações mais extremas e perigosas. Nas guerras e nos discursos de batalha memoráveis, temos brados. Nas alocuções religiosas mais ardorosas, temos clamores. O grito é o alarde da carne animal, é o impulso mais frenético da garganta, é o guincho da auto-defesa biológica, é o incerto toque da nossa neuro-trombeta irracional. Homens atacados, ofendidos e blasfemados não gritam. Javalis estocados gritam -- gritam e esperneiam.

71. Os filhos de Israel no deserto chamaram o bezerro de ouro de Senhor, de Javé, de Elohim, de “Eu sou o que sou”. Pespegaram na fundição idolátrica os atributos da divindade. Quantos religiosos, hoje (três milênios e meio depois), não dão o nome do Cristo à uma miríade de espantalhos pagãos?

72. A oração arranca do homem aquilo que divã algum é capaz de obter: o completo desnudar do eu profundo. Orando, nós contamos a Deus tudo aquilo que escondemos de nós mesmos.

73. Democracia é o regime político por meio do qual a minoria convence temporariamente a maioria de que a minoria é a maioria.

74. A Fé é calor. A Descrença é frio. Ambas queimam -- tornam-nos sentimental e cerebralmente "ardorosos", quero dizer. A Fé queima e amolece o homem. A Descrença queima e endurece. A Fé incandesce o coração do bom e erige fogueiras delirantes através do mau. A Descrença faz nevar niilismo na mente do bom e afunda o mau em gélida insensibilidade consciente.

75. O Diabo "engordou" de tanto comer o pó da terra -- logo, de mastigar, digerir e assimilar a cultura humana: no princípio do Mundo, é mera serpente no Éden; na conclusão, é leviatã apocalíptico.

76. Roma trocou "Ave Caesar" por "Ave Maria." Nasceu então o Catolicismo.

77. Resumos de grandes questões sempre são incompletos -- e geralmente falsos. “A fórmula da Trindade”, “A Evolução das Espécies em três idéias”, “A Equação da Vida”, etc. Resumos são simplórias caricaturas menores (lógicas) de complexas estruturas maiores (racionais). Resumos são criados já com a enviesada percepção de que o público será incapaz de entender e então compreender o assunto exposto; portanto, aos "mestres" de ocasião cabe torná-lo didático o suficiente para que, por meio de gotas homeopáticas, a descascada idéia tornada ideologia se achegue aos miolos do leitor ou ouvinte. Resumos tendem a ser resumidos e outra vez ainda resumidos e resumidos até que acabem restritos apenas à imagem sentimental que deles se têm sob certo ponto de vista. Resumos geram fixações e idéias fixas, enfim, produzem loucos e fanáticos que as alardeiam sob o manto de mistérios invioláveis cuja plenitude está depositada na robustíssima cabeça deles. Resumos são próprios dos temíveis homens de um só livro, acerca dos quais nos alertou Agostinho. As coisas devem ser explicadas por completo, sem aumentar e acrescentar, sem diminuir e retirar.

78. Uma definição para a Loucura: acreditar, intensamente, ser a causa de pequenas e grandes reações.

79. O Catolicismo não é o catolicismo do inquisidor dominicano Torquemada e o Luteranismo não é o luteranismo do pastor nazista Walter Hoff. O Catolicismo é o catolicismo de Francisco de Assis e o Luteranismo é o luteranismo de Dietrich Bonhoeffer.

80. Espiritualmente, o antônimo de falar não é calar. É escutar.

81. Artur desfaria com zelo o nó górdio e Alexandre pulverizaria à marteladas a rocha da Excalibur. Pouco importa o tempo e o lugar: o maneiroso sempre se guiará pelo cuidado e o bruto sempre se valerá de astutas grosserias.

82. Quanto à experiência da Eternidade, Paulo chamou-a de "inefável", Platão qualificou-a como "indizível" e Aristóteles disse estar "sem palavras" adequadas para explicá-la. Um cortador de cana aqui de Pindorama, conhecido como Zé de Zuza, definiu-a, porém, como "paz e alegria no tempo sem tempo". Estupendo! Miserável analfabeto das letras da Terra, seu Zé é eruditamente letrado no alfabeto do Céu.

83. O quê sentia o piedoso babilônico quando orava para Marduque e não obtinha resposta? O quê sentia a boa avozinha romana que rezava para Júpiter e não obtinha resposta? O quê sentia a moça casadoira grega que suplicava a Afrodite e não obtinha resposta? O quê sentia o honesto pai de família egípcio que clamava a Osíris e não obtinha resposta? O quê sentia o índio comum que rogava a Tupã e não obtinha resposta?

84. Um ponto de vista divergente não é o mesmo que uma opinião diferente. Um ponto de vista é apenas o efeito da dosagem de luz que, obedecendo ao ângulo da mirada de quem pensa, torna uma idéia mais ou menos brilhante. O porco não pode olhar para as estrelas, mas mira o solo em que pisa tão bem quanto a águia.

85. A política é um mal eminentemente aglutinador. Um mal aglutinador de indivíduos socialmente autônomos (extra-relacionais) logo transformados em coletivos públicos (intra-relacionais). Da fundação do proto estado nacional de Babel descrito em Gênesis 11 ("Façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra") à moderna constituição de partidos políticos, sindicatos, associações de bairro e afins em nome desta entidade etérea e fantasmagórica que é o povo, domina a desvirtuada idéia de que Bem Comum é sinônimo de Bem Grupal (instituto no qual a mera aglutinação numérica infere graus de importância e hierarquia ética e moral, respectivamente) que, por sua vez, tem suas exigências básicas pautadas pelo praxiológico discurso de unidade e coesão. A política, então, é o vórtice do número que decresce da unidade para a pluralidade: o indivíduo-único torna-se sujeito-no-grupo, depois pessoa-da-multidão e, enfim, gente-pela-espécie.

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