sábado, 30 de maio de 2015

Esponjas de sol - V

86. O revolucionário (cujo alvo é um idealizado e inédito futuro) quer desumanizar o homem pelas vias da progressiva e evolutiva superação de sua própria humanidade: eis aí o aculturado "homos superior" marxista, o filosofal "übermensch" nietzschiano e o biológico "beyond-human" dos eugenistas de todas as eras. O reacionário (cujo alvo é um idealizado e supostamente conhecido passado), por sua vez, quer desumanizar o homem pelas vias da regressiva e imobilizadora retroação de sua própria humanidade: eis aí a ideal "razza di Roma" fascista, o religioso "germano primordial" dos neo-pagãos e o integralizado "tempus perfectus" dos medievalistas fanáticos.

87. Deus é louvado toda vez que, injustiçados, nós brandamente nos calamos. Pacificar é saber, diante da afronta, dar moralmente a outra face e continuar em silêncio para promover o grande Silêncio -- que é Paz.

88. Os homens já não querem se casar. Infelizmente, compraram a miserável idéia do "Charlie Harper way of life" que, ao cabo dos dias, os transformará em solteirões infantilóides depressivamente largados nalgum asilo interiorano. O quê mais me incomoda nisso não é o preço que estes tolos -- verdadeiros "machinhos galináceos" -- hão de pagar, afinal, eles merecem ver sua débil ação diante da vida tornar-se dolorosa reação minadora de qualquer prazer existencial mais elevado. O quê mais seriamente me incomoda é, todo santo dia, dar de cara com mulheres tremendamente bonitas, inteligentes e de espírito virtuoso querendo amar, namorar, casar e constituir família amargando o desgosto de não serem devidamente correspondidas pelas hordas de imbecis que tem produzido a pós-modernidade. Constatar que não há um homem bom para cada boa mulher que existe nessa terra é de cortar o coração.

89. Evidência e sinal de extrema decadência civilizacional: as pessoas já não carregam lenços consigo. Espirram com violência nas mãos e ao ar comum, libertando energicamente seus sebosos fluídos amarelo-pardacentos como quem alforria das entranhas a própria alma. Usam as mangas e os colarinhos, maculando não só o eventual asseio do branco clorificado (pespegado pelas mãos zelosas de uma também eventual companheira "limpinha"), mas sujando sobretudo a própria idéia de beleza-pela-higiene. Às cavernas, cidadãos!

90. Shakespeare à brasileira: Ser ou parecer ser, eis a questão.

91. Sempre que tenho dúvidas morais sobre a idoneidade de algum destes líderes religiosos televisivos, eu penso nos apóstolos e no próprio Cristo agindo como eles agem. Sendo impossível imaginar o Senhor expulsando demônios enquanto pede aos pais de família telespectadores doações de R$ 900 que empenham o aluguel e o "pão nosso" dos próprios filhos, sendo impossível pensar no manso e humilde Jesus de Nazaré espancando verbalmente quem quer que seja em debates transmitidos pela Rede Globo, sendo impossível conjecturar no Príncipe da Paz vendendo milagres e orando por copos de água clorificada, patrocinando marchas histericamente gritadoras ao lado dos neo-caifazes congressistas e exigindo sacrifícios mais aptos à sanguinária sede de Moloch que ao Agnus Dei que silenciosamente caminhou até o Calvário, concluo: Silas Malafaia, Edir Macedo, R.R. Soares, Marco Feliciano, Valdemiro Santigo, Rene Terra Nova, Estevam Hernandes e todo e qualquer apóstolo da apostasia não são pregadores do Evangelho. São discípulos de Judas!

92. Uma biblioteca é uma tentativa de reconstrução da "totalidade de consciência" que o homem perdeu no Éden.

93. A mesma classe de pessoas que ferina e risonhamente critica os erros gramaticais dos indivíduos menos letrados também sente-se altamente incomodada (e algo "violada") quando dialoga com gente de falar vernacularmente correto.

94. O homem emocional crerá e descrerá em Deus através da Emoção -- motivado tanto por ardores cerebrais derivados do frenesi de algum culto neo-pentecostal quanto pela morte precoce de algum querido familiar (de Sigmund Freud a Joãozinho das Dores). O homem racional crerá e descrerá em Deus através da Razão -- argumentando tanto à partir do Design Inteligente que emoldura a complexidade irredutível do globo ocular quanto pelo palavrório cientificista da mais nova teoria de Stephen Hawking (de Alvin Plantinga a Heráclito Toddynho). A Fé, portanto, é dom de Deus.

95. Quem defende qualquer verdade fazendo dela uma esca[la]da de ambições pessoais é mentiroso. Quando instrumentalizado, todo ardoroso discurso favorável à uma idéia é, antes de tudo, um discordo contrário ao defensor da idéia.

96. A Ciência é tão infértil à alegria humana que um punhado de mal-salgadas batatas fritas é capaz de consolar-nos depois de um dia de agruras enquanto todos os seus postulados, teorias e hipóteses mal servem à química artificial do Bom Ar quando os tubérculos cobram seu odoroso preço digestivo. Quem é capaz de ser efetivamente consolado ao meditar na Teoria da Relatividade, no Heliocentrismo ou no Evolucionismo Darwinista? Qual "eureka!" aquietou os impetuosos pensamentos de um suicida ou arrefeceu as dores de uma mãe que perdeu o filho único para as drogas? Qualquer simplório sermão do Cura de Ars afasta o auto-homicídio e uma única audição do Stabat Mater de Pergolesi basta para aliviar o espírito da madre sofredora. O brilho das estrelas consola. Saber que as estrelas já se extinguiram quando nelas nós pomos os olhos não consola.

97. Decisão: Interessa a defesa jurídica da Verdade, não a defesa da verdade jurídica.

98. Recorda -- lembra com o coração: Deus é pessoa.

99. Razão e emoção são, em nós, uma só coisa: nós unificantemente pensamos aquilo que sentimos, sentimos aquilo que pensamos, pensamos naquilo que sentimos e sentimos naquilo que pensamos. O coração tem a rígida impassibilidade daquilo que é abstrato e o cérebro tem a passionalidade sanguínea daquilo que é concreto. Nós encontramos o real porquê o sentimos e desencontramos o irreal porquê o pensamos. Tudo depende das doses e medidas do nível de consciência agindo e reagindo em nós.

100. O homem tem fome de significado. O filósofo é um antropófago. O sofista, um autofágico.

101. O salomônico "Nada há de novo debaixo do sol" quer simplesmente dizer que tudo por aqui, na terra, é um ciclo de combinações e recombinações.

102. Uma idéia transforma-se em ideologia assim que alguém grita em nome dela.

103. As mediocridades presentes vivem das glórias passadas. A fagulha sempre comporá odes à fogueira ancestral. O lorde de apartamento sonha com a torre normanda do primeiro cavaleiro que levou seu nome heráldico. O bancário recorda o tempo em que o avô do banqueiro, seu patrão, trabalhava para o Visconde dos Quiabos, seu avô, como escriturário na há muito empenhorada fazenda de Campinas. O odor de naftalina precede (como o enxofre ao diabo) a toda ilusória pomposidade daqueles que apontam ufanisticamente para o pretérito e, por ele, tentam dar significado à porcaria contemporânea.

104. Poucas coisas são tão ilusoriamente imbecis quanto a pornografia. O pornógrafo consome descomunal energia folheando revistas e assistindo a vídeos de mulheres fotografadas e filmadas em cenas artificialmente simuladas a milhares de quilômetros de distância [das mãos e da revista, das mãos e da telinha] e que mal sabem da existência dele, afinal, a alma singular se dissolve na pluralidade de views. A pornografia põe o indivíduo em contato direto com a própria carne-pessoal, com o próprio eu-baixo. Não há, portanto, um relacionamento homem-mulher (sequer em um nível ideo-mental), mas um elo tremendamente psíquico do eu-de-superfície com o eu-abscôndito. Quando mais próximo da Playboy e do Redtube, mais distante está o homem de uma mulher de carne-e-osso. Papel e pixels não são capazes de unir macho e fêmea em "uma só carne".

105. O verdadeiro escritor terá, algum dia, ódio da escrita. Acordará bradando aos céus contra as letras e seus significados, contra os fenícios e os vedas, contra tudo aquilo que na terra contribuiu um dia para o advento do reino da palavra. Terá ódio, ferido e mortal e penetrante, quando se perceber servo da produção literária. Então, amará a destruição: porá fogo nos papéis, nos roteiros, nos versos não consumados, nas idéias não lapidadas; excluirá arquivos, deletará aquilo que a inspiração e o suor lhe trouxeram na áurea bandeja da criação -- que delineia formas superiores e obriga o artista a sustentá-las com seu conteúdo inferior.

106. Jesus nasceu pobre e... nobre: altivo operário carpinteiro e humilde Príncipe da Casa de Davi. "Sinal de contradição" para capitalistas e socialistas.

107. A "propriedade privada" é a materialização jurídica dos pronomes possessivos. É o profundo natural superficialmente positivado pela lei. Uma luta anti-propriedade é, portanto, antes de mais nada, uma luta anti-linguística e, finalmente, uma luta anti-humana.

108. O mundo humano começou com uma só lei: "Não comerás". Comemos, pois. Vieram, então, dez leis -- as duas tábuas dos Mandamentos -- com toda a anexa legislação mosaica. Conforme o Mal embotou a mente e o coração dos povos, codificaram-se mais e mais leis. As regras abundaram e, hoje, abundam positivadas a tal ponto que para cada comportamento humano há um protocolo de severos preceitos jurídicos. Conclusão: o pecado é um acumulador de regras. Quanto mais vil é o homem, mais ele acumula normas nas prateleiras da Lei.

109. Sumiram da face da terra os homens bons -- aqueles nos quais a virtude é organicamente distribuída pelo caráter. Em compensação, hordas de "gente do bem" (os perigosíssimos "bonzinhos" e tutti quanti) se alastram sobre a grande placa de petri da Humanidade.

110. As grandes depressões sempre acometem o homem que afasta-se fisicamente da Criação, logo, do Mundo-Significado. Na medida em que não empenha diretamente sua potência tangível e ânimo mental no contato com a corporeidade das coisas (seja através do trabalho rotineiro ou de qualquer atividade que faça o indivíduo sentir a materialidade que o circunda), dele se distancia o "sentido sinalizador" do Ser. Suspende-se, então, a declaração do "por que?" que advém à pessoa quando ela se relaciona com aquilo que o Mundo contém. Desviando-se do Mundo, o homem introjeta-se e, incapaz de estabelecer comunicação entre o seu significado particular e o Significado, ele definha em melancolia, tristeza e abatimento de vacuidade.

111. "Senhor, ensina-me a ser." Tal é a oração do sábio.

112. No Céu não se fala latim, grego ou aramaico. No Céu o vernáculo é objetivamente o próprio Verbo fluindo através daquilo que Ele criou. Portanto, o "nome da coisa" é a própria coisa conhecida e auto-revelada em seu âmago e essência. Linguagem sem o signo das palavras, sem o som gerado nas gargantas pelo ar dos pulmões. Diálogo entre seres plenos sobre a coisa que "é" e como ela "é" mostrando-se externa e integralmente "sendo". No Céu não há nuances -- não há gramática, ortografia, semântica, etc. No Céu não há pastorinhos do Lácio, pescadores trácios e carpinteiros de Nazaré encabulados diante de virgílios, homeros e josefos.

113. Raramente os cientistas são capazes de enxergar as belezas da Criação. E como não as enxergam, maravilhando-se, correntemente não as tomam como parâmetro para as suas "contas". Não é à toa que nenhum dos proto-cientistas que tentaram provar que a terra é "redonda" jamais percebeu que o dégradé de cores das auroras e ocasos celestes denuncia a graduação côncava da terra. Enxergaram a linha de perspectiva do barco sumindo no horizonte sem enxergar a luz se esvaindo parabólicamente no horizonte.

114. Nós pensamos com a voz. Todo pensamento (pensa aí e percebe!) nasce com o timbre do nosso personalíssimo som vocal. O que isso prova? Que a Palavra em nós tudo absorve e dispersa numa profunda unidade individual de funcionalidades -- fala e pensamento, sobretudo.

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