sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eterna erosão


Se no granito tudo registrares
e no chumbo caracteres moldares,
se os louros de César 
e os espinhos de Cristo
num museu custodiares,
que deles fará o tempo?
Ruirão os templos gregos
como caem as palafitas dos pobres,
como sucumbem os lírios ao sol.

Verás o trovador diante do astronauta
e os pobres de Veneza em Wall Street,
tocarás o ouro sacrificial dos incas
enquanto Homero recita Quintana, 
contemplarás o grande festim de Roma
e o lavrador com o ovo na marmita.

Põe os ouvidos à janela enquanto é dia
e escutarás a canção do Taciturno
e a lira de Nero
Lisboa afogueando. 
Galileu avistará
o empíreo pelo Hubble:
rir-se-á de Ptolomeu! 
E se no barro outros mitos riscares
e o Word pelo cuneiforme trocares?

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