sexta-feira, 26 de junho de 2015

Esponjas de sol - VI

115. Não se combate uma má emoção com uma boa emoção. Combate-se com um bom pensamento, que refinará a emoção ocasional transformando-a em bom sentimento duradouro -- estável e equilibrado. Nisto reside um dos muitos erros do [neo-]pentecostalismo gritador.

116. Eu não sei quantos fios de cabelo tenho enraizados [no lado de fora] na minha cabeça. Mas, Deus sabe (Mateus 10:30). Além: eu não sei o quê tenho dentro da minha cabeça, mas... Deus sabe. Como eu poderia tentar saber, então, o que há dentro da “cabeça” de Deus? Não preciso ir à praia, Agostinho! Recito amorosamente Deuteronômio 29:29.

117. A água não é insípida. Ela tem o gosto da terra, do ar e do fogo.

118. Acredito no fim do mundo porque acredito no começo do mundo. O começo foi planejado. O fim foi planejado. O começo, um desejo de Deus. O fim, uma vontade de Deus. O princípio determina o remate-encerramento, assim como o Alfa determina o Ômega. O quê surge do/no Universo desabará com o Universo, exceto o Homem.

119. Estava assistindo à Missa Solene, de Beethoven. Durante o Credo, alguém espirrou estrondosamente. Imediatamente me irritei -- uma irritação mais espiritual (por isso mais séria) que propriamente nervosa. Lembrei-me, iluminado, que Deus criou o espirro, mecanismo de defesa da vida, e que um homem, Ludwig, criou a Op. 123. Senti vergonha.

120. A Darwin, se me fosse concedido inquiri-lo, eu não perguntaria acerca de qualquer dos muitos fatos científicos capazes de embaraçar por completo a teoria evolucionista. Eu apenas falaria da lágrima, a lágrima que o Homo Sapiens verte quando chora. Existe o choro apenas para lubrificar o globo ocular, umedecendo a córnea quando ela seca? De que serve à maquinália pró-sobrevivência biológica a melancolia, a tristeza, enfim, tudo aquilo que milita contra o bem-estar da feliz alegria corporal, mormente pondo “ciscos” na visão? Ou será que o poético clichê nos conta a realidade quando diz que os “olhos são os espelhos da alma”?

121. Ah, Fibonacci!, aqueles números que viste nos girassóis, caracóis e sóis, não to revelou o cérebro e o neurônio, mas teu Pai, que está nos céus.

122. O pavão não enxerga o colorido esplendor que o homem vê nas penas do pavão. A Beleza é por nós!

123. A Tradição se assenta na a-temporal “liberdade de seguir” dos povos. É um fenômeno orgânico, cuja meta consiste justamente em não ter metas civilizacionais politicamente definidas. A Tradição, portanto, não pode ser positivada pelo Estado.

124. Toda guerra é um evento metafísico que traz inferno e paraíso à terra. Inferno aos pecadores não arrependidos por meio do sofrimento que não se lhes torna didático. Paraíso aos pecadores arrependidos por meio do sofrimento que se lhes torna didático.

125. Não existe amizade entre homens maus. Eles são, entre si, indivíduos associados para trazer o “Deletério” ao Mundo. São companheiros de crime e comparsas no pecado -- cúmplices com o Mal. Por isso, o homem mau sempre estará disposto a, maliciosa e maldosamente, derrubar outro homem mau em nome de um “mal maior”.

126. Disse o doutor da cidade ao caipira: “Nada sabes! Não lestes Denis Diderot nem Rousseau”. Disse o caipira da roça ao doutor: “O que sei, Deus me contou e me salvou”.

127. Quando te deparares com dois homens bons brigando, saberás que um homem mau a ambos enganou.

128. Nós pecamos pecados que Adão não pecaria. 

129. Fortes palavras podem ser sussurradas. Cada sílaba é um trovão da tempestade do Significado. Cada palavra é um embate entre homem e Humanidade.

130. Cristianismo aplicado à tática militar. Ou, Sun-Tzu convertido: Impedir uma guerra é evitar o combate estabelecendo a paz entre os combatentes, não aniquilar o combatente inimigo e estabelecer “la nostra pace” unilateral.   

131. Nas catacumbas da perseguição, a vocação da Igreja era construir catedrais de liberdade. Igrejas que se parecem, ética e estéticamente, com cinemas e agências bancárias são templos de escravidão. 

132. A glória de Deus se manifesta na miséria do homem que, arrancado do charco de lodo mundano e mergulhado no Sangue do Calvário, é convocado à habitar a Luz [dantes] Inacessível.

133. Para o homem que foi batizado no Transcendente, o Imanente não é o físico, mas o que é o físico. Desaparece o materialismo grosseiro das concretudes e surge a concretude da matéria que é, aliada às “coisas invisíveis”, o Ser gerado no visível.

134. Satanás, o proto-jacobino.

135. Comercial ateu de shampoo: “Sabia que a água contém minerais que podem danificar o cabelo?”

136. No neo-pentecostalismo, Deus é quem adora o “fiel”, clamando desesperadamente pelos cantos do Universo: “Filho meu, que estás na terra...”  

137. O sino é o shofar dos cristãos.

138. Bilbo Bolseiro: o homem comum que, humilde e não desejoso de glória, é autor dos mais gloriosos feitos.

139. O Eterno é a perceptível ausência do tempo. O Infinito é a perceptível ausência do fim da matéria.

140. O pecado é aquilo que faz de um extraordinário meio um ordinário fim.

141. Se Martin Buber estivesse vivo, redefiniria a estrutura de sua filosofia para a proposição “Eu-Facebook-Tu”. 

142. O Mundo é um símbolo mal-espelhado do Outro Mundo.

143. O fariseu, dizia Santo Agostinho, não tem fé porque é orgulhoso. E é isso. Não é possível ao orgulhoso crer verdadeiramente. Ele pode conhecer Teologia, pode citar em tom melífluo extensas passagens em latim digno da boca de Cícero, pode escrever de tal forma que Camões se veja em apuros de estilo. Pode ser tudo aqui. Mas jamais será alguma coisa “Lá”. O coração do orgulhoso é terra de Satanás. Por isso, discutir com determinados católicos e protestantes é, na verdade, prestar serviços de jardinagem ao Tinhoso: é adubar joio.

144. Não existe “e se...” em [boa] Teologia. Lida-se com a Realidade que temos à disposição e nec plus ultra.

145. O mal atingindo o homem bom faz bem: afasta-o de ser mau.

146. Sem silêncio e beleza, não há culto/missa/ofício.

147: O Delfos salomônico: “Melhor é o longânimo do que o valente; e o que domina o seu espírito do que o que toma uma cidade.” (Provérbios 16:32)

148. No plano das idéias, toda afirmação equivale à uma rejeição, enfim, à declaração de não aceitabilidade de outro plano/conjunto de idéias. Daí que tolerâncias e intolerâncias não existem, propriamente, na esfera intelectual, mas tratam-se apenas de “boa sociabilidade” (a gentileza que impede alguém de afagar o crânio alheio com um porrete à neanderthal) concreta entre defensores de “realidades” abstratas antagônicas.

149. Dois sentimentos que, hoje, poucos conhecem e, conseqüentemente, sentem: reverência ao/no solene e temor ao/no superior.

150. “Wozu Dichter in dürftiger Zeit?” Venturosa indagação, Hölderlin!

151. “Quisera eu me suportásseis um pouco na minha loucura! Suportai-me, porém, ainda.” (II Coríntios 11:1). Entende-se Erasmo de Rotterdam entendendo-se as epístolas paulinas.

152. A Física é, para todos os efeitos, um dos muitos ramos da Teologia. A natureza das coisas é a natureza da “imaginem et similitudinem”.

153. Melhores eram os tempos em que a ganância de burguês algum ousava levantar qualquer edifício que arranhasse o céu; apenas as torres das catedrais e os campanários das igrejas se elevavam aos ares acima de toda pedra e tijolo, de modo que a cruz era o topo em todas as cidades, vilas e aglomerações humanas do Ocidente. Indústria alguma fazia sombra às capelas; a fumaça da chaminé não se impunha ao incenso dos turíbulos. E o domingo, esse sábado cristão, era não só santo, mas santificado à obra de Deus por um medido e suspensivo desprezo à diária labuta humana. Trabalhava-se apenas pela satisfação do necessário impulso biológico-natural, essa “feliz herança” legada pela “felix culpa”, através da qual todo pão é servido, amolecido e comido pelo suor.

154. O último parágrafo de meu ensaio “Non Quiescet Dolor”: E este fim terá, também, seu derradeiro ponto final. Nele e com ele, toda a aflição, toda a amargura, todo o inquietamento, todas as ansiedades que aprisionam a vida do homem sobre a terra, enraizando-o na dor, deixarão de ser não pelos ciclos da existência e suas variáveis contingências que, em nossos dias, desvairada e tristemente cantam “o fortuna, velut luna, statu variabilis semper crescis”, mas pelos paternais dedos do Senhor, que “limpará dos olhos toda a lágrima...” O fim temporal da dor será a permanência eterna do amor.

155. Napoleão e Pio VII, a Concordata (1813) e o Tratado de Fontainebleau (1814): “Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá.” (Apocalipse 13:10)

156. Nós chegamos ao entendimento da existência do Inefável quando, no dia-a-dia, descobrimos eventos internos e externos que, nânicos ao primeiro pensamento, não podemos catalogar e entende -- nomear, pois. As pequenas impossibilidades de descrição apontam para o Indescritível. A minúcia misteriosa encerra o caminho do Mistério, que é o Inexplicável. 

157. A Linguagem é ilimitada para descrever aquilo que é limitado, e é limitada para descrever o ilimitado. 

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