quinta-feira, 30 de julho de 2015

Poemeto do abscôndito


A minha interior ausência
é do Nada a permanência.
Persegue-me pelos cantos
a sombra fria do inverno,
como perseguiu os santos
a chama quente do inferno.  
A minha exterior permanência
é do Todo a ausência. 

terça-feira, 28 de julho de 2015

O que acontece

As nossas circunstâncias, oh Deus!
As nossas circunstâncias são circulares:
rodopiam como as andorinhas nos céus,
como rodeiam o néctar os beija-flores.

As nossas contingências, oh Deus!
As nossas contingências são quadriláteras:
são incertas como os astros caldeus,
como os olhos misteriosos das panteras.

Os nossos contextos, oh Deus!
Os nossos contextos são linhas perdidas,
são nós de górdio tecidos por moiras loucas,
são rebeldes destinos, fixas imprecisões,
são qualquer coisa que odeia o singular.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Esponjas de sol - VII

158. Todos nós temos um espinho na carne, que é o nosso particular mistério: um espinho que é, ao mesmo tempo, nossa dor e nossa bem-aventurança. Trata-se de uma fraqueza perene que nos mantém sob vigilância constante, nos obrigando (quando despertados à vida espiritual) ao autoconhecimento, ao corajoso desbravamento do próprio eu. É uma fragilidade que varia em profundidade entre a vastidão de um abismo e a rasidão de uma poça d’água. É um vácuo permanente que não passa dos limites da nossa potência, nivelando-se aos avanços e retrações do nosso ser: cresce quando crescemos, diminuiu quando diminuímos. O espinho é didático, é a régua do Pedagogo. O espinho nos incita à humildade da resignação e à glória da excelência!

159. O homem é imagem e semelhança de Deus. Deus é trino -- “Eu (1) sou (2) o que sou (3) é a Trindade. O homem-indivíduo, então, é pessoalmente trino: espírito, alma e corpo. Mas, é mais e vai além: o homem-na-humanidade é imagem e semelhança da Trindade quanto à sua economia interna -- Pai, Mãe e Filho.

160. O homem-indivíduo é pai e é filho de pai e mãe, o homem-indivíduo é mãe e é filha de pai e mãe, o homem-indivíduo é filho-ou-filha e é pai-ou-mãe de filho-ou-filha. O homem-indivíduo, então, é homem-na-humanidade, logo, é Homem, assim como Javé-Deus é Deus-na-Divindade, Cristo-Deus é Deus-na-Divindade e Espírito Santo-Deus é Deus-na-Divindade, ou seja, os três (plural) é (singular) Deus. “Gerar” é a palavra-chave.

161. Nós temos sede e bebemos. Nós temos fome e comemos. Nós temos sede e fome de amor e, então, ao invés de irmos com botija de barro em busca da fonte de água pura e com as mãos limpas aos campos onde cresce a boa comida, nós nos munimos de cálices de ouro e de baixelas de prata para bebermos o chorume e comermos o esterco do Mundo. O que vocês chamam de amor não é amor, que é espiritual: é ódio disfarçado pelo prazer carnal.

162. O porco faz do corpo na lama sua alma.

163. Em ti, cristão, o Mundo dúbio mirará as pedras de Madalena e as pedras de Estevão. A louca multidão te quererá sepultar pelo teu pecado e pela tua virtude.  

164. O fanático politizado é o sujeito que, no dia-a-dia, reconhece como “vítima” o indivíduo que foi enganado por alguém que ele julgava ser de confiança, mas tão logo o chamará de “criminoso” assim que descobrir que, pelo mesmo processo de engano, este mesmo indivíduo votou e elegeu um mau governante.

165. O homem que odeia geralmente é o homem que não se crê odiável. 

166. O homem bom ama sua Liberdade, logo, busca preservá-la fazendo de cada ação sua um acontecimento que repugna à Restrição incompatível com a Vida. Quando, porém, o homem restringe a Vida, ele livremente abraça as barras de aço duma cela (física ou metafísica) e troca sua livre-agência-no-livre-arbítrio pela Servidão. A Liberdade, portanto, não é um mero estado. É uma virtude.

167. O homem livre não é dono da própria vida. Ele é senhor de si na própria vida -- é, pois, vassalo da Vida.

168. Educação e Cultura não são eficazes antídotos contra Alienação e Barbárie. Em Auschwitz, ouvia-se Mozart (e muito Wagner, claro!) e o chefe dos fornos, querendo exercitar sua vasta erudição, diariamente anotava os nomes dos mortos em Latim, Grego e Aramaico. Aliás, o oficialato da S.S. era la crème de la crème das universidades européias da época. O Bem não é alfabetizado, nem o Mal é analfabeto.  

169. Tolo é o homem que imagina que cada filho que tiver arrancará da parede de seu escritório um diploma!

170. Não raramente artistas cheios de ideal tornam-se, quando frustrados, intelectuais cheios de ideologia.

171. Quando uma mulher quer que você repare na nova cor do cabelo dela, ela na verdade quer averiguar se você já reparou naquilo que nela não é novo -- ou seja, aquilo que é permanente porquê é ela.

172. O tolerante considera fáceis a maioria dos livros, exceto a Bíblia. O fanático considera difíceis a maioria dos livros, exceto a Bíblia.

173. O homem empurrado ao abismo só tem o livre-arbítrio de gostar ou odiar a queda que lhe será fatal.

174. Racismo: modalidade de egolatria fenotípica (mas não estética) de quem não sabe o que é Genética.

175. Só se sente pessoalmente contestado, quando suas idéias são contestadas, o homem que não é para si mesmo uma idéia.

176. O sentido da existência é a vida. O sentido da vida é a existência. Uma valora a outra: você existe para que possa fazer algo -- viver -- e vive porquê algo foi feito para que você existisse. Imagem e semelhança, nós também somos reflexos do “ego sum qui sum.”

177. Os homens têm lido 1984 e, mediante o cumprimento de certos aspectos da obra no mundo pós-moderno, têm chamado Orwell de profeta. Eu tenho relido o Apocalipse de São João e tenho ficado mudo.

178. Santo é o homem que deixa de sofrer primariamente pelos próprios pecados para sofrer pelos pecados da Humanidade. É o coração humano que palpita e pulsa através da angústia do coração de Deus.

179. Deus dispôs o Mundo de tal forma que fez com que alguns amassem e outros odiassem as mesmíssimas coisas -- coisas absolutamente neutras em termos morais. Por que? Talvez para que, por meio da nossa parcialidade (que é a incapacidade de julgar mesmo um pequeno “todo”, paralela ao fato de espreitarmos a inteireza de uma “parte”), nós nutríssemos amor e ódio por aquilo que é especial e peculiarmente compreensível pelos nossos sentidos e, por uma série de acontecimentos subsidiários e indiscerníveis, não é ao nosso próximo. Ou seja, nós conseguimos apreender de algo características tão específicas -- acompanhadas dos intuitivos laivos de “je ne sais quoi” -- que, sendo subjetivamente boas ou subjetivamente más, os outros não poderão senti-las. Por que eu não suporto o cheio do fósforo e alguém com ele não se importa, enquanto outra pessoa definitivamente gosta? Por que você aprecia o cheiro da fumaça do velho caminhão a diesel, enquanto eu simplesmente tolero e minha vizinha o odeia? Por que Erasmo se irrita ao ouvir o som da mastigação alheia, enquanto Lavínia pouco liga para isso e Martinho até mesmo chega a se deliciar ao ouvir gente comendo? Os cacoetes genético-biológicos são incapazes de dar uma boa resposta à está estranha questão das idiossincrasias.

180. Naturalmente, nós temos aversão à saliva e ao suor dos outros. Aversão aos fluídos todos, em verdade. Uma aversão verdadeiramente irracional às vezes, que ultrapassa os limites dos cuidados propostos pela laboratorial higiene moderna. Entretanto, é curioso perceber o quanto o amor alivia os nossos nojinhos a ponto de nos fazer amá-los no outro que amamos. Amando, sendo “uma só carne”, a saliva da amada torna-se a nossa e, feito néctar, nós prazerosamente a degustamos no cálice da boca. Amando, o suor do amado pai ou do amado avô trabalhador, cujo labor nos conquistou o “pão nosso de cada dia”, é o reverente líquido da honra entre os homens, é o vigoroso vinho da edificação da vida, digno de ser aspirado na roupa suja da roça e olfativamente recordado nas velhas camisas branquinhas que ele abandonar na Terra quando passar ao Céu. O amor nivela e iguala espírito, alma e corpo, bradando energicamente através de nós: “Tu és quem sou e eu sou quem tu és, tu és o que sou e eu sou o que tu és.”

181. A vida de um homem não pode se tornar apêndice de uma ideologia. A vida é absoluta. Tudo o mais é circunstancial -- é subsidiário. Quem viver pela ideologia, então, morrerá pela ideologia. Aquele que nega-se a si mesmo por muito tempo, será rapidamente negado pela existência.

182. O ritmo que pautava a vida ainda há pelo menos cinqüenta-sessenta anos era tremendamente sábio. Ele colocava para trabalhar na terra quem não tinha condições mentais de trabalhar a Terra. Que quero dizer? Que essa explosão de “intelectuais” neurastênicos interneteiros, facilmente sucumbíveis às angústias e às dúvidas desequilibrantes do muito pensar, são o sinal de que o filosofar é tarefa dura e exclusiva -- árdua tarefa destinada apenas aos vocacionados à missão de carregar o mundo no próprio coração. Forjai enxadas das vossas canetas, e foices das vossas CPU’s!

183. Apenas um homem realmente bom nutre o desejo (que ele crê e sabe irrealizável, mas nem por isso menor e menos grandioso) de voltar a ser criança -- voltar à infância para voltar a ser melhor, para ser “mais bom.”

184. As perversões morais sempre acontecem por meio de perversões lingüísticas. Passa-se a chamar o Bem de Mal e o Mal de Bem. Isaías o percebeu ainda no século VIII antes de Cristo. Os eufemismos abundam, então, e a Linguagem perde sua objetividade auto-imposta. Hoje, p.ex., presenciei um destes festins da iniqüidade verbalmente travestida de inteligência: o certo sendo chamado de “emocionalismo piegas” e o errado de “razão pragmática”. A novilíngua é o vernáculo da Nova Babel.

185. Só é alegre o homem que não busca primariamente a alegria. A alegria não é um alvo a ser atingido, não é o fim de uma caminhada, não é um graal existencial. Portanto, não é um motivo sério para se querer viver. A alegria não é um objetivo, uma meta, um querer-que-é-poder e que cada um de nós pode efetivamente construir para, então, alcançar um jubiloso “That’s all Folks!” A alegria é apenas um regato de água fresca que conseguimos carregar conosco quando o mundo decide saciar sua sede com a areia quente dos desertos. É um oásis portátil que hidrata a alma de quem ainda sabe reconhecer as profundas necessidades de sua natureza humana, afinal, só vai à água quem sabe o que é a sede -- não quem sente sede. Só chega à alegria quem sabe o que é a vida, não quem existindo apenas sente a vida.    

186. O homem que não conhece seu ponto fraco, enfim, “onde o calo aperta”, sempre se achará uma pessoa medianamente boa, um sujeito bom do tipo que não faz mal (nem bem) a ninguém, em suma, um dourado medíocre cuja acomodada atividade no Mundo não lhe propiciará ficha policial nem qualquer louro inscrito na História. Entretanto, o homem que perscruta sua rachadura e trabalha para fechá-la de dentro para fora (porque a superficialidade é fácil e perigosa) sempre se crerá alguém não muito bom, um indivíduo que, justamente por se conhecer, tem consciência da própria natureza a ponto de compreender quais os efeitos particulares do Éden em si; será, pois, um homem que diariamente baterá no peito um mea culpa e, humilde, se resignará a ser para si mesmo um homem que não é nada além daquilo que é. E ele, pois, sendo movido pelo auto-aperfeiçoamento pessoal, conseqüentemente medrará a História, erguerá impérios, construirá memoriais, comporá poesias que ecoarão declamadas pelos séculos, desbravando a Humanidade, porquanto antes a si mesmo desbravou. 

187. Há paralelos muito interessantes na História. Um deles é o fato de Roma e França compartilharem a mesma “estrutura de poder” em suas três fases nucleares (Monarquia, República e Império) e que elas tenham se sucedido através dos mesmos processos de “luta pelo poder”.

189. O primeiro rei de Roma (no começo da antiga unidade itálica): Rômulo. O último imperador de Roma (no fim da antiga unidade itálica): Rômulo. Historia vero testis temporum!

190. Houve dias em que nós nos sentávamos diante de uma tela e ela não nos lobotomizava. Houve dias em que nossos olhos faiscantes de êxtase iluminavam a tela, e não o contrário -- quando refletores de energia nos cegam as córneas e nos alienam o espírito. Tela que o homem artisticamente fazia, não tela que arquitetava o homem.  

191. Conhece-te a ti mesmo e, depois, na medida do possível, esquece-te um pouco de ti mesmo. Assim que conhecemos a nossa estrutura e somos para nós mesmos uma idéia firmemente estabelecida, é prudente para a paz da nossa singular vida interior que galguemos compreender a ação das demais “vidas interiores” individuais na comum “vida exterior” da assembléia mundial de indivíduos. Então, um dia feliz será justamente o dia em que nossa consciência pessoal pouco cogitará das suas questões permanentes. Nossa individualidade, pois, abraçará não somente o “como eu sou comigo”, mas sim o “como eu estou sendo com os outros sendo o que eu sou.” Um dia feliz é um dia em que o eu é corretamente ativo no mundo sem se preocupar demasiadamente consigo.

192. O amor não é sazonal. Não é coisa que começa e acaba após alguns dias, semanas e meses. O amor, no tempo, é duradouro: dele não se esquece a mente, não se desapega o coração. O amor não se desfaz simplesmente com a exclusão de status e fotos no Facebook. Quem rapidamente arranja e desarranja um “amor súbito” ainda não amou: apenas quer, compulsiva e ansiosamente, amar.

193. O falso nobre quer se parecer com os descendentes amolengados do Barão de Tal -- o homem nascido igual aos demais que, com vigor e mérito, se sobrergueu e por isso foi elevado ao panteão dos armoriados. O verdadeiro nobre sequer almeja “parecer-se” com este homem. Antes, quer realmente agir pela laboriosa virtude que agiu naquele. Ele deseja e busca a durável robustez da madeira-de-lei, não o descascável verniz que estéticamente a cobre.  

194. A idéia de que é a Razão que nos diferencia dos animais sempre me pareceu pueril. Afinal, o pensamento não é coisa muito elegante e refinada a ponto de constituir-se num desnivelador “elo perdido” entre uma espécie e outra. Mais que a Razão, cuja lógica é fundada na absorção mais ou menos permanente de dados matematizados que a consciência apreende, é a Imaginação o abismo mental que nos separa de qualquer bios-andante que seja objeto de estudo da Zoologia. Os animais podem criar e recriar técnicas, podem arquitetar planos de curta e média duração temporal (entre o projeto abstrato e sua efetivação material) e até mesmo se arriscam a formular e compreender padrões quadridimensionais, todavia, não podem imaginar no mundo o Mundo. O “nec plus ultra” de toda a animália criada (que esbarra no boneco de pó esculpido no Éden) é a capacidade de sonhar -- imaginar entre a realidade que se quer mutar para realizar um ideal e o delírio das idéias sem aparente conexão.    

195. Tratando-se de “idéias loucas”, é preferível ter e manter as nossas próprias que aderir convencionalmente às alheias.

196. Timidez amorosa: desviar o olhar sem querer perder os olhos dela.  

197. O homem espiritual é alguém que, ao pegar uma moeda e nela ver cunhada a efígie de César (Mateus 22:20), sabe que o valor dela não provém da política econômica do Estado, mas da essencial constituição daquele pedaço de metal (minério que Deus criou) que ele, pela Lei Natural, troca com os demais homens por outras tantas coisas que Deus também criou e a Humanidade re-formou. Ele usa a moeda por aquilo que ela é e representa na estrutura da Criação, não pelo que ela pretende ser através das ideologias (cooptadas pelos governos) que tentam cambialmente “diagnosticar” o valor das coisas, de Adam Smith a Karl Marx -- bem como dos seus discípulos instalados nas casas da moeda e bancos centrais do mundo.

198. Há mancos, cujas pernas e passos são naturalmente sãos, que mancam apenas para ter o prazer de usar uma bengala -- não apenas as tradicionais vitorianas, ourivesadas em prata e marfim, mas qualquer distinto bastão que lhes propicie uma imagem de respeitabilidade.

199. Ainda outra vez, Esperança, tua voz será ouvida quando clarear o ar, limpo e purificado pelos raios da Tribulação. A noite que arrasta os homens se converterá em dia que acompanha a Humanidade, e todo lamento virá compor na Eternidade o cântico de Sião. Por que chorais, se vem raiando no horizonte o Sol da Justiça, que toda dor pode secar? Por que vos lamentais, se ainda um poucochinho de tempo resta para que se consume o Dia e tudo seja Luz? Ainda outra vez, Esperança, teu nome será recordado, e o memorial do Calvário fará tremer a Terra que o teu Sangue semeou. Rasgado o Véu, entramos a Ti e ceamos na mesa que é Altar o doce maná do teu Corpo.  

200. Devo ser bravo, Senhor? Virtuosamente bravo da bravura, como reza o significado erudito da palavra no dicionário? Ou bravo da rispidez que o caipira analfabeto chama braveza?   

201. Se os homens de sabedoria tivessem governado o mundo, seria a coruja (não a águia) a grande ave heráldica.

202. A História é uma estória que é fidedigna. 

203. “Não ajunteis tesouros na terra” também vale para o nosso diletantismo intelectual, com sua ciumeira por livros e paixão esotérica por conhecimento.

204. A Política é coisa passageira e, como tal, morrerá com esta Terra. As idéias que se partem e vingam em partidos não poderão subsistir na Unidade Perfeita que existe no Reino de Deus. Só há Política quando há “animal político”, ou seja, transformado o homem em “corpo glorioso”, desaparecerá com ele o gregarismo que nos obriga a cuidar da pólis, afinal, a Nova Jerusalém silencia a ágora e sorve a cicuta.

205. Defender o Bem, intelectualmente, faz de alguém uma pessoa boa? Saber o que é o Mal, identificando sua ação entre os homens e, então, opondo-se a ele intelectualmente, é fator capaz de transformar uma pessoa em um bom alguém? O modus operandi dos ideólogos em geral defeca no modus pensandi deles.

206.  Francisco de Assis e Inocêncio III -- Pio de Pietrelcina e Pio XI: I Coríntios 1:26-29.   

207. Se velho de dias eu ficar, Senhor, que eu fique antigo, então. Não velho como o reboco do casarão em ruínas que continuamente se deteriora, não velho como a casta flor que nasce e fenece sem encher de cor o mundo dos olhos de quem passa, não velho como as páginas pardacentas dos calendários idos. Que eu fique antigo. Antigo, porquê roçarei levemente a Eternidade ainda no corpo: antigo como o musgo úmido que cobre as muralhas das cidades medievais, antigo como as coisas perenes que na terra vêem a existência fugir enquanto desabrocham para o céu, antigo como os sinos da catedral anunciando que há aprisco para as ovelhas nos dias de tempestade. Faz-me antigo na velhice, Senhor. Faz-me, ao menos, medíocre poço. Um poço-memorial, de fino fio d’água: nele, talvez, não encontrará o mundo a abundância do precioso líquido para um batismo, porém, de sua pequena vazão sempre se colherá um cálice transbordante capaz de acalmar a sede de qualquer solitário peregrino. Que o imponente cabelo branco e a fragilizada pele sulcada prestem ensino ao jovem, para que ele não tenha medo dos dias em que seus passos serão incertos e cambaleantes, quando os ossos doerem no vagaroso voltar ao pó e a alma amorosamente carecer da atenção da desatenta multidão.

208. A Religião é grandiosa não porquê toca no profundo e no escondido do coração do homem, escancarando o abissal vácuo que ele tem de significado. A Religião é grandiosa porquê permite ao homem tocar no profundo e no escondido do coração de Deus e, então, preencher com a pulsante carne ensangüentada do Cordeiro esta oca profundeza originalmente escavada para significar com o Verbo.

209. A expressão através da Linguagem Literária não é tão importante quanto o sentimento que quer ser expresso. Há tantos santos que vislumbram grandezas que a poucos foi dado conhecer, mas por falta de educação adequada não conseguem compor seus salmos. Há tantos enamorados que amam com um amor digno das mais delicadas epopéias líricas, mas por terem do intelecto ausentes um punhado de verbetes do dicionário não podem escrever seus sonetos. E tantos e quantos canalhas e imbecis, alfabetizados em uma ou duas ou três ou quatro e mais línguas, têm os piores e mais toscos sentimentos que, tornados sintaticamente complexos pelo uso de um vocabulário bizantino, são vertidos no papel e então fazem destes míseros escritores fulgurosos gênios da raça, gigantes laureados duma geração, enfim, exemplares superiores da Humanidade -- quando não passam de anátema ungida pela ABL ou pelo Nobel.  

210. Temeroso diante do mundo, quantas vezes não fugi da criadinha que apontava para mim o dedo, contando a todos: “Tu também estavas com Jesus!” Ah, Senhor, quantas vezes agravou-se meu testemunho e, mentindo à multidão, falso eu jurei: “Não conheço tal homem!” Um dia, porém, quando me alcanças-te na praia e o teu Amor inquiriu o meu, com o coração e o pulmão cheios de verdade eu bradei: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo!” E eu te amei -- e eu te amo publicamente desde então, e contigo estou porquê estarás comigo até a consumação dos séculos. 

211. Terá tido Maria, cá na terra, tiara de esmeraldas, safiras e rubis cingindo-lhe a fronte virginal? Quantas rainhas de fenecidas dinastias cobriram-se com as pedras reviradas do jardim mineral do Caído! E pérolas indianas, aquelas a cujo valor soma-se o fôlego dos mergulhadores, envolveram o pescoço da mãe do Salvador? Diana dos Efésios colecionava arcas deste fino nácar como os meninos da roça custodiam no embornal suas mais bonitas bolinhas de gude. Maria não vestiu-se de outra coisa senão do linho dos lírios, porquê a seda, o veludo e o arminho caem bem à Cleópatra, à Teodora e à Catarina a Grande, mas não àquela que coseria para si folhas de figueira. Que foi feito do rico tesouro das filhas de Eva que recusaram-se a cantar o Magnificat? Maria não pôde carregar brilho na terra para além das gemas dos próprios olhos. Por isso,  foi feita merecedora das estrelas do Céu.

212. O pecado nos fornece prazeres temporários e sofrimento eterno. A santidade faz o caminho inverso: fornece sofrimentos temporários e prazer eterno.

212. Um homem de verdade não tem um tipo específico de mulher, senão o querer uma mulher de verdade: loira, morena, ruiva, delgada, corpulosa, etc, são meros adjetivos subsidiários e circunstanciais. São apanágios a serem pessoalmente dignificados. Se ela for loira, será especialmente bela por ser loira. Se ela for morena, será especialmente bela por ser morena. Se ela for ruiva, será especialmente bela por ser ruiva. Ela será especial simplesmente por ser, verdadeiramente, minha -- só minha, sendo eu só dela. O amor homem-mulher não se estabelece por padrões: a casualidade é que eleva na amada aquilo que especificamente “é nela” por ser ela. Apenas os machos traumatizados têm “tipos.”

213. A misantropia é inicialmente um bichinho de estimação que nós ocasionalmente alimentamos e afagamos quando a multidão ameaça nos devorar. Mas, o bichinho cresce em progressão geométrica. Ele engorda até que um dia, monstro super-obeso, devora em nós aquilo que ele nos ensinou a repugnar nos outros: nossa humanidade.

214: Pessoas “normais” são esquisitas: é gente que abotoa a camisa até o último botão. A “normalidade” é, no mínimo, esquizóide.

215: A Moral Cristã pode ser assim resumida: aquilo que é natural (ontologicamente originado) é moral, portanto bom-do-Bem; e aquilo que é anti-natural é imoral, portanto mau-do-Mal.

216. O pecado, este abridor de vácuos, escavador de significados, coveiro de sentidos, profeta do niilismo, sacerdote do agnosticismo, arauto do nada! O pecado nos arrebata de nós mesmos, nos coloca diante de um espelho que canibaliza a nossa imagem, que nos nega reflexo e centrifuga nosso espírito na tempestade da escuridão, da dúvida, da vacuidade. Totalmente possuídos pelo pecado que nós dantes possuíamos parceladamente, o caos nos arranca a forma e o conteúdo. O homem que se lança à iniqüidade fica sendo fantasma incriado -- sem forma e vazio. O pecado, este desesperado inimigo do Logos!

217. Santidade e pecado exalam seus odores. Todo estado de alma produz específicas reações no mundo do olfato. A santidade tem os aromas das rosas marianas, dos óleos beatíficos dos incorruptos, das salinas brisas domingueiras à beira-mar, do suor da pele trabalhadora ao destampar da marmita, do perfume recatado da moça modesta, do vinho que há pouco deixou de ser mosto, do incenso dos turíbulos, da roupa alvejada na água fresca do rio, da comida temperada pelo coração da avozinha, do hálito lácteo dos cachorrinhos, da casa toda limpa pela faxina da mãe zelosa, da flor colhida para a namoradinha da escola, do café recém passado para as visitas; a santidade tem o aroma da vida quando ela é conscientemente vivida. Então, o pecado cheira mal. É o fedor da fumaça de cigarro transtornado pelo álcool, dos banheiros públicos durante o carnaval, do boteco encharcado do suor suado durante o frenesi dos afetos desordenados, da colônia falsificada da cafetina francesa, do chorume dos lixões amontoados pelo consumismo, das pústulas da sífilis e da gonorréia, das velas negras e vermelhas da macumba pipoqueira, da sujeira dos desleixados, dos lençóis dos motéis desinfetados com água sanitária, das margaridas baratas que se mandam por nas coroas fúnebres de quem se odiava em oculto; o pecado tem a fetidez da vida quando ela é existência alienada. 

218. Ah, este meu coração! É tolo e prepotente como estas lisas pedras que esperam caminhar sobre os lagos, ricocheteando seu peso incisivo sobre o delicado equilíbrio da linha da água. Meu coração quer, mesmo pétreo em sua densidade e natureza, flutuar sobre qualquer coisa mais leve, mais etérea e suspensiva que a dureza da vida. Ah, mas este meu coração é mais que seixo arredondado: é rocha vulcânica que quer voar, que quer pairar, que quer acariciar oceanos, fervendo-lhes a água e, ali, no centro das comportas, por nos ares um pouco do calor desta sua terra sanguinolenta -- porquê no meu peito palpitam terremotos. Ah, a isto eu chamo amor, meu coração! Torna-te, então, mais pó e menos pedra, para que os ventos que Deus mandar te façam, esmiuçado e humilde, navegar pelo sopro do hálito dela. O amor, meu coração, é brisa, não vendaval, não maremoto, não tufão que arrebenta os montes e eleva cordilheiras. Sê, pois, grão de areia -- menor, mas rocha ainda. Pesa-te conforme as milhas que almejas vencer e, então, voarás. Ah, este meu coração!

219. A guerra é o conflito policromático dos monocromáticos. O negro bate-se contra o branco e, então, surge o cinza holocáustico. Quando dia e noite se odeiam, sombra e penumbra tomam o mundo. Lembrai-vos de Mordor! É o meio-termo totalitário, odiador da palheta humana, normatizador dos antagonismos padronizados. Então, cessam os ocasos e auroras, porquê a cor que se faz em dégradé é vida e o belicismo nada admite senão a morte que traz o pigmento unitário. Nem fogo amarelo-ardente, nem gelo branco-congelante. Na exata proporção de forças, luta a água contra a chama. Sobra a fuligem.

220. Hipótese mais ou menos besta: Saruman representa a via muçulmana para o Monoteísmo. Há nele algo do ocultismo sufista. Sua mão branca é a Hamsá. Sua torre é um minarete. Seu capuz é a djellaba.

221. Os pais com Deus dão um nome a um homem, que é investido numa palavra que passa a ser nele ele. O Diabo com o mundo, então, retalham este nome com caricaturas verbais -- em deformação de significado, em deturpação de livre-destino. Que é um “apelido de crime” e um “nome de guerra” senão um desbatizado meta-lingüístico? Convertido, porém, o homem é restaurado ao-e-no seu nome. Deus brada a Gollum: Sméagol, vem para fora! 

222. A biografia destes poetas românticos é coisa das mais patéticas em termos de vigor existencial. Eles conscientemente acabaram com a própria vida e extinguiram em si toda força vital na busca de meia dúzia de “versos perfeitos” e da blaséficação filosófica da Humanidade. Sífilis, ópio e pneumonia valiam à pena se a alma não fosse pequena. Melhor que ninguém conhecesse Heitor, se Tróia tivesse sido feliz!

sexta-feira, 17 de julho de 2015

O estreito caminho da santidade

Se eu fosse pintor modernista, pintaria este quadro [sapateiro, não vou acima da sandália: pintei no Paint] e daria a ele o inteligente título de "O estreito caminho da santidade."

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Tríduo de uma quarta-feira ordinária

A DISLÉXICA:
Não é o léxico que desconheço.
É a palavra sem fim nem começo,
cheia de letras, vazia de significado:
estrutura de rabisco desenhado.

JERUSALÉM: 
Que é a luz, Senhor, que aqui
vai revelando o que terei aí,
quando para Sião eu me mudar?
Conta-me antes, já e agora,
onde será então meu lugar,
quando os anjos eu ouvir cantar.

ILUSÓRIA DICOTOMIA: 
Vós não me controlais.
Vós não sois dois. És um.
Sois um sendo eu.
Controlo-te, cérebro e coração:
És o que pensas e sentes
Na tua integral dualidade,
Que é uma -- uma só como sois
em mim. 

sábado, 11 de julho de 2015

Telecegueira Moderna

Houve dias em que nós nos sentávamos diante de uma tela e ela não nos lobotomizava. Houve dias em que nossos olhos faiscantes de êxtase iluminavam a tela, e não o contrário -- quando refletores de energia nos cegam as córneas e nos alienam o espírito. Tela que o homem artisticamente fazia, não tela que arquitetava o homem. 

domingo, 5 de julho de 2015

Maranata

Oh, diverge do eu, minha cara alma.
Corre à rota de luz, recolhe-te na calma,
porquê ao longe os homens já cantam
e os anjos as trombetas de ar carregam. 
O azul da terra quer ser o azul do céu:
no alto do mundo será a água o véu
da noiva quando o firmamento em paz
se romper para receber o cordeiro vivaz.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sobre Babel

A dispersão das línguas em Babel quer dizer simplesmente que a reunião mecânica dos homens por meio de uma também mecânica reunião de signos lingüísticos é contrária ao próprio Logos, enfim, orienta os homens para uma relação de entendimento meramente oral que, com o tempo, os separa uns dos outros através dos “verbetes” que as sociedades resolvem esporadicamente parir no Mundo. A Linguagem torna-se, então, um sistemático código de ações e reações sem integral organicidade -- desumanizadora, portanto. Em Babel o Senhor quis evitar a superficialidade da ordinária comunicação fonética para nos fazer profundamente empáticos com o outro quando a literalidade falada falhasse; para que a necessidade do nosso próximo fosse sentida pelo que de original-e-natural nos une e não pelo que de posterior-e-artificial nos separa; para que, diante do estrangeiro filho de Adão, nós disséssemos: “Homem, eu não te traduzo quando falas este outro idioma -- este som chiado que tu também escutas quando abro a boca --, mas interpreto o que dizes quando o teu silêncio faz ecoar a voz da nossa comum Humanidade.” Babel caiu para que a fria e obrigatória reunião dos iguais se tornasse a livre e calorosa união dos diferentes.  

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A ermida

Não são as largas e verdes planícies
os campos onde habita a Liberdade.
É nas alturas, fortes e íngremes,
que ela repousa após certa idade. 
Esquece a idéia de emancipada realidade
e as anotações da querida vacuidade. 
Mira o topo, o pico, o sumo torreão 
donde o desbravador da verticalidade
brada ao mundo: Sou de mim irmão!