sexta-feira, 3 de julho de 2015

Sobre Babel

A dispersão das línguas em Babel quer dizer simplesmente que a reunião mecânica dos homens por meio de uma também mecânica reunião de signos lingüísticos é contrária ao próprio Logos, enfim, orienta os homens para uma relação de entendimento meramente oral que, com o tempo, os separa uns dos outros através dos “verbetes” que as sociedades resolvem esporadicamente parir no Mundo. A Linguagem torna-se, então, um sistemático código de ações e reações sem integral organicidade -- desumanizadora, portanto. Em Babel o Senhor quis evitar a superficialidade da ordinária comunicação fonética para nos fazer profundamente empáticos com o outro quando a literalidade falada falhasse; para que a necessidade do nosso próximo fosse sentida pelo que de original-e-natural nos une e não pelo que de posterior-e-artificial nos separa; para que, diante do estrangeiro filho de Adão, nós disséssemos: “Homem, eu não te traduzo quando falas este outro idioma -- este som chiado que tu também escutas quando abro a boca --, mas interpreto o que dizes quando o teu silêncio faz ecoar a voz da nossa comum Humanidade.” Babel caiu para que a fria e obrigatória reunião dos iguais se tornasse a livre e calorosa união dos diferentes.  

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