domingo, 30 de agosto de 2015

Esponjas de sol - VIII

223. Para Deus, a casinha desajeitada que uma criança desenha com giz de cera na parede da sala de jantar é tão grandiosa quanto o teto da Capela Sistina. Quando menino, eu moldava cavaleiros de barro paras as epopéias que travava contra os reinos inimigos comandados pelo meu irmão. Então, como Michelangelo, eu berrava do fundo da alma para os ginetes e, principalmente, para o rei que os comandaria em batalha: “Parla! Parla!” Parte da “imagem e semelhança” de Deus em nós consiste justamente nestes êxtases de criação. Gênesis dEle diz: [...] e viu Deus que era bom.” Conosco também é assim: nós vemos que (algo) é bom quando criamos qualquer coisa na qual depositamos toda a nossa potência construtiva. Então, dizemos: “Vê isto? Eu fiz, fiz de mim.” 

224. O homem vocacionado é aquele que produz aquilo que só ele pode produzir para o consumo de todos os demais homens que, por sua vez, produzem aquilo que ele só pode consumir. Que quero dizer? Que a produção é complexa nos seus meios para quem produz para que seja simples para quem “adquire” o produto final. Um poeta inspirado escreve aquilo que só ele pode escrever para que todos leiam -- todos podem ler, mas nem todos podem escrever e ninguém pode escrever exatamente a mesma coisa que esse específico poeta escreve. E um padeiro, que lê o mesmo poeta à noite, faz o pão que só ele pode fazer para que outros homens (e também o poeta) adquiram seus pães justamente por sua “particular especialidade” no mundo das massas. A Humanidade é um corpo orgânico, integralmente uno e singular na sua pluralidade.   

225. A mais rasa e superficial pessoa que conhecemos é, ainda assim, mais penetrante e profunda que o mais fundo abismo que escava a terra. A Fossa das Marianas é uma poça d’água quando comparada com a alma da piriguete patriçóide e do mauricinho bombadaço que gastam e desgastam suas existências naquilo que há de mais mesquinho e medíocre neste nosso “mundão véio sem portera”. A Humanidade, mesmo em seus momentos de maior agonia e mediocridade, é sempre terrível e assombrosa na sua grandeza.

226. -- Diferença entre Amor e Atração Sexual --

Amor: O homem-indivíduo José da Silva deseja e anseia por tudo aquilo que é a mulher-indivíduo Maria Macieira. É a relação entre dois seres humanos plenamente orgânicos e integrais nas suas especificidades que, mutuamente conhecendo-se naquilo que os faz diversos dos outros homens e mulheres, acatam-se e aceitam-se como “uma só carne”, até que a morte os separe. É o todo que opera, preparando a geração de homens e mulheres para a Humanidade que, peregrinando na terra, aspira aos céus.

Atração Sexual: O macho-na-espécie José da Silva anseia e deseja por aquilo que em Maria Macieira é próprio da fêmea-na-espécie. É o intercurso entre dois homo sapiens plenamente divididos e repartidos nas suas especificidades que, mutuamente conhecendo-se naquilo que os faz iguais aos outros machos e fêmeas, repelem-se e recusam-se como “uma só carne”, e se largam tão logo o orgasmo acabe. É a parte animal que opera, preparando a [re]produção de machos e fêmeas para o meio ambiente do planeta.

227. Livrai-nos o Senhor desta loucura que é almejar dissecar mistérios. Certas coisas se desfazem quando tocadas.

228. As pessoas mais ideologicamente “perdidas na terra” que já pude conhecer eram justamente aquelas que, soberbamente certas de poucas coisas e delas violentamente zelosas como Saulo, ainda não tinham podido cair do cavalo para serem amorosamente zelosas do Mistério do Todo como Paulo. Faltava-lhes o revelador trauma do novo nascimento. Uma vez lançadas à terra, e cegas!, tornaram-se humildes gigantes do “encontro com o céu.”

229. A Alta Cultura não salvará, não curará o Mundo. Não há verso que cure coração perverso. Não há livro que cure coração que não quer ser livre. Não há escultura que cure coração que se cultua. Não há estátua que cure coração estático. Não há pintura que cure coração que não quer pictórica abertura. Não há quadro que cure coração sem moral enquadro. Não há música que cure coração cuja musa é tara física. Não há partitura que cure coração que não se parta em ruptura. Não há drama que cure coração que palpita trama. Não há teatro que cure coração de feio trato. Não há bailado que cure coração alienado. Não há dança que cure coração sem esperança. A Arte, então, é artimanha e artilharia...

230. Fuja de igrejas que não admitem o valor do silêncio na sua liturgia e na vida nossa de cada dia. Elas estão interessadas em alienar através das pressões e depressões emocionais que o barulho semi-organizado cria no cérebro. Silêncio harmonizado ao uso providencialmente fecundo da voz (oração, sermão e música) individualiza pela razão, “retêté” transforma ovelhas-em-rebanho em manada ovina.

231. Sócrates não teria tido condições de “bisbilhotar” pelas ruas de Atenas, dizendo que só sabia que nada sabia, se algum roceiro ático, cansado demais para palpitar na ágora, não tivesse sabido plantar trigo e diligentemente esmagar uvas com o pé calejado para dar ao ilustre filósofo força corporal (o corpo por ele tão odiado!) capaz de lhe deixar o cérebro ereto. Quanto pensamento revelador e quanta “eureka” criadora não foram completamente dependentes da ação energética de um bom almoço de segunda-feira! As sinapses e neurônios do gênio alfabetizado correntemente dependem do suor dos músculos e membros do ordinário analfabeto.

232. O problema do estardalhaço litúrgico da “adoração neo-pentecostal” é o mesmo do namorado nonsense que, sempre e sempre, quer demonstrar seu amor à amada através da pirotecnia de todos os possíveis efeitos especiais de um carro de mensagens ao vivo. O namorado imbecil -- assim como o crente imbecilizado pelo barulho -- não consegue perceber que, numa relação, os momentos de maior celebração do amor são justamente aqueles mais silenciosos, quando um prazenteiro olhar furtivo, quando um sorriso avermelhado de timidez, quando um bilhete escrito no guardanapo do restaurante, enfim, quando um qualquer quieto chamado entre as almas for mais poderoso que qualquer show de decibéis alucinadamente ensurdecedores. Claro: Deus não é surdo!

233. Quanto pode durar um casamento baseado essencialmente no vigor sexual dos apaixonados? Não muito. Se os enamorados não forem antes amigos, dificilmente um aro de ouro benzido no altar poderá sobreviver às primeiras brigas -- quando as personalidades, com suas “incompatibilidades”, se enfrentarem no dia-a-dia extra-leito.

234. Os nossos olhos já viram a glória do mundo, já perscrutaram cada dourado Versalhes que a guerra chamada prosperidade ergueu. Os nossos olhos se cansaram da pompa dos tiranos públicos. Então, veio o cinza, usurário, cobrar cada marmóreo rococó, irrigando de vermelho o trigo dos brioches, arrancando sacrílego as coroas dos santos. O pé do porqueiro pisoteou o arminho, tapete da revolução! Os nossos olhos viram a cruz adornando espadas e lanças, viram lábaros de prata disseminando fim aos começos. As trevas tornaram opaco o horizonte e o astro solar surgiu ainda pela madrugada, quando os homens dormiam velados pelo cansaço. Os nossos olhos viram passar em fúnebre procissão os césares, os reis, os potentados, todos os senhores e príncipes do mundo, silenciosos diante de um menino de mãos feridas, Emanuel, regendo com vara de ferro as nações. Passou o céu, passou a terra. Passou a glória do mundo!

235. Quantas “brincadeiras” nos querem escravizar a alma! Quantas redes de entretenimento barato nos querem apanhar, quantos laços de diversão desmotivada nos querem enforcar, quanta patifaria existencial nos quer fazer passar pela vida aprisionados à barbárie deste tédio perpétuo que não cessa de buscar satisfação -- espécie de fome descomunal em plena congestão!

236. Há muito que não leio a palavra “exagero” por aí -- em jornais, revistas, internet e meios afins que tratam de narrar as atualidades. Sintoma de que as coisas não vão bem no mundo das idéias.

238. Só quem tem a Cristo pode compreender Seu amor, o amor que goteja o mel que nunca enjoa -- que nutritivo dulçor! Só quem com Ele mantém um relacionamento de silêncios demorados e rápidos diálogos pode compreender Seu amor, um amor que dispensa palavras quando quer comunicar sua eloqüente profundidade -- que superior entendimento! Só quem tem a Cristo sabe que Ele não habita no coração orgulhoso dos sacristãos televisivos, este coração calcário e branquelamente caiado dos fariseus que vendem as caricaturas de uma fé que não é aquela dos corações vermelhos dos publicanos arrependidos -- que maravilhosa graça!

239. A virtude vale mais que a crença na virtude. Ser santo vale mais que a crença na santidade.

240. Apenas a água sacia plenamente a sede -- a “água pura”, a água que no máximo toma o gosto mineral das terras que a vazam pelo mundo. A Coca-Cola, a groselha, o suco de limão e o vinho não saciam a sede. Entretanto, a água que está na Coca-Cola, a água que está na groselha, a água que está no suco de limão e a água que está no vinho pode saciar. Sacia relativamente e sacia menos que a água pura das fontes (porquanto o H2O, líquido, absorveu o gosto dos elementos sólidos que nele foram diluídos para proporcionar prazer, funcional ou banal, à língua humana), mas a seu modo consegue saciar. Sacia a curto, a médio e a longo prazo e neste ciclo temporal cobra seus custos pela ocasional impureza: uma bebida é diurética, outra forma pedreiras nos rins, uma outra mela o sangue, aquela hidrata em tempos de diarréia, aqueloutra vermina cirrose, etc, etc, etc. E os homens vão tomando, sempre e sempre, da mesma garrafa, da mesma bebida, até que um dia já não colocam a goela na torneira. Esquecem-se, pois, da água original... O mesmo sucede no Cristianismo: há uma fonte de água pura, na qual os sectários tratam de encher suas jarras para temperá-la ao bel prazer da sua “gula líquida”.

241. Tenta ser bom. Tenta e serás bom na medida em que descobrires o quanto és mau.

242. Os grandes pecados dos homens são catapultas para suas grandes vitórias contra o Pecado. Os efeitos da santidade nós o sentimos na medida das suas causas iníquas e rasteiras, que definitivamente nos impulsionam. Os nossos grandes abismos são tapados enchendo-se das cordilheiras da Fé e, então, o caminho é aplainado. Os nossos males são pedagógicos e didáticos quando encontramo-nos liberalmente sinceros diante da Vida, de modo que do Mal emerge o Bem e o mau torna-se bom.

243. Olhem para os montes, olhem para as nuvens que, sobre eles, nos toldam a visão do Sol que adiante brilha e nos convida aos gozos do calor ancestral. Sobre as nações se estendem os mantos cinzas dos nossos pecados. Sobre os povos acampam as hordas dos nossos maus pensamentos. Não é um chamado para o conflito?, uma convocação para a beligerância das almas?, um alistamento para tingir a terra de palavras desconexas e vibrantes? O ar está pesado para o espírito leve. A água está dura para o espírito levitante. O fogo está pétreo para o espírito atômico. E a terra está lodosa -- instável, odiadora do bipedismo -- para nosso pó-andante. Babel nos quer confundir com suas mil línguas de serpente! Como responderemos, então, àqueles que não entendem o Entendimento? Olhem para as planícies, olhem para as pedras que, sobre elas, nos impedem a caminhada ao Horizonte.

244. Mil gênios gritando juntos gritam como um louco solitário.

245. É próprio dos fanáticos de todas as espécies tomar partido de um dos lados em todo e qualquer acontecimento histórico que oponha o homem ao homem. Da primeira porretada que o neanderthal Caim deu no sapiens-sapiens Abel à última vitória local do soviete conservador de Minsk, lá está o xiíta historiográfico discursando escatologicamente sobre quem presta e quem não presta. Loucura: estar "histórica" e "moralmente" correto é preciso, viver não é preciso.

246. O “Operador do Direito”, quando integralmente assumido seu ethos profissional, não é outra coisa senão uma espécie de “santo laico” -- o ser humano dedicado a pacificar a sociedade, a sanar os enfrentamentos, a amainar os humores belicosos, a clamar por Justiça antes que as pedras do fazer-justiça-com-as-próprias-mãos clamem. O “Operador do Direito”, então, é o herdeiro moderno daqueles anciãos que julgavam as contendas do povo diante das portas da cidade.

247. O que é a Civilização? É uma gota de água pura e fria continuamente caindo -- gotejando, pois -- sobre uma imensa chapa de aço oleosamente incandescente. É um pequeno ponto de frescor cercado de inferno, onde a temperatura amaina pelo constante esforço de um conta-gotas metafísico.

248. As estrelas, pequeno Jó, sempre brilharão; sempre cintilará a luz dos céus sobre a terra. Mas, sabes tu distinguir o brilho que vem das estrelas já mortas do brilho que provém dos astros ainda viventes?

249. A vela queima o ar, não o vento. A água apaga a vela, não o sol.

250. Um canguru australiano e outro criado num zoológico da Lapônia, um sabiá das matas de Pirapora do Bom Jesus e outro engaiolado num apartamento em Oslo, um pequinês londrino e outro cujas ancestrais gerações todas se abrigaram na Cidade Proibida, um leão do Serengeti e outro instalado desde o desmame nas jaulas de algum circo de ciganos mexicanos, um pombo arrulhando na Praça de São Marcos em Veneza e outro banhando-se na fonte de um parque público de Kyoto, um chimpanzé macaqueando na selva nigeriana e outro sendo adestrado em Amsterdã por um casal de sul-coreanos sem filhos: ambos os cangurus, ambos os sabiás, ambos os pequineses, ambos os leões, ambos os pombos, ambos os chimpanzés, enfim, ambas as duplas da mesma espécie (com cada animal completamente afastado um do outro) emitem os mesmos sons comunicativos, têm a mesma “fala”. Apenas o homem, quando geograficamente afastado de outro homem, modifica sua linguagem, alterando seu sonido de voz significante. O que é Babel, então? 

Laetitia iuvenem


Mede, se puderes, do universo toda a luz. 
Conta, nos dedos, as espargidas estrelas. 
Partilha o brilho das galáxias num piscar. 
Que é que tens, na alma cerrada, a falar?
Sopras suspirando as folhas e caravelas... 
Se é sonho, porque dói a carne que reluz?

Resplandece, oh sol, na mais fria manhã,
quando a luz fortificar limpidez inaquecível,
quando a aurora colorida queimar com gelo!
Em Espanha construo ainda aquele castelo:
a muralha é de nuvem -- pedra imperecível.
Dize, relógio: Por que ontem não é amanhã?

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Lux est umbra Dei

O sol que nasce, para os que nasceram nasce.
Morre diariamente a luz do alqueire celeste
para que tua fé, ó homem, sopre combustível 
(teu fôlego) sobre as brasas da treva-madrugada. 
Está negra a noite e negros temores te dominam? 
Espera pela manhã, porquê de paz se ilumina
o coração que com luz o corpo do mundo irriga. 
A aurora vem primeiro raiar no teu íntimo lagar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Laetitia

O olhar negro da fada vem toldar dos olhos o amém.
Que noturno hino suspirava Sybilla em Jerusalém? 
Vesta, doméstica chama dos leitos macios, despida
dança pelo vinho cálida ou pelo amor está abrasada? 

Como pode assim a visão assentir através do coração?
Cantos que lhe cantaram os anjos romperam a ilusão? 
Baila! Baila louca e desvairada, porque estes tecidos
se devem rasgar enquanto for por nós o branco luar.

domingo, 9 de agosto de 2015

Good old times

Esses dias que não têm volta,
quando em mim se repetirão?
Se fecho os olhos, vejo a porta,
vejo a casa, piso no terreirão.

Oh, meu avô, vou-me para aí.
A cana já chegou ao riacho?
O pangaré-alazão está por aí?
E a jabuticaba, aonde acho?

Por que o cinza-concreto venceu?
Os dias ainda tinham suas noites,
claras de estrelas a inspirar Orfeu.
Estão apagadas as celestes hostes...

Oh, Don Chico de las Españas,
aonde estão as árabes tuas romãs?
Aonde a fonte murmura as águas
que nos saciavam pelas manhãs?

Estes dias de graxos colesteróis,
de histéricos pratos coloridos,
terão outra vez do cateto o gosto?
O borralho não mancha o rosto.

O Niilista


Debate-se dentro de ti o teu eu,
lançando-se contra às internas 
paredes da tua carne de alma?
O oco é campo de fúria e guerra.
Frenesi, louca dança macabra:
estás em ti mesmo perdido e só.
Turbado coração, turvada mente,
inconseqüente bailado cerebral!
A verdadeira mentira mastiga-te,
consomem-te os ácidos da dúvida,
as pelejas intestinas evacuam-te
do mundo, como o piar da coruja
que voa cantando a própria morte.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Tulipa de Nagasaki

Flor branca em mármore branco talhada.
Árvore no outono sobre o telhado desfolhada.
Numa só cor o átomo em pó tudo fundiu,
quando Adão, do alto, um fiat lux! fingiu.
Pereceu, corroída, a térrea carne do sol nascente?
Que é, então, esta alva, luzida, carnal semente?