sábado, 26 de setembro de 2015

Dum spiro, spero

Iludir-se mais um pouco, sonhar outra vez, almejar a cor da vida quieta entre os escombros acinzentados da morte barulhenta, cerrar os olhos à realidade não escolhida, sorrir quando inclementes choram de agonia os povos, estar consciente de que lá fora faz frio e as sombras rondam as almas boas e, mesmo assim, por-se a regar o mundo como que diante do doméstico jardim. Ah, isso é ter esperança! 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

De sterrennacht?

Ainda vês o céu amarelo e o sol azul?
Está prateado o céu e tão negra a lua!
A matéria que tocas é oca, é obra nua.
O rijo norte mascara-se de brando sul. 

Aperta veritas

De repente a regra
rebelou-se contra a régua
e a branca flâmula 
erigiu prudente trégua.
No pergaminho é negra
a letra que luz emula.

sábado, 5 de setembro de 2015

A Oração do Protestante


Oh, bom Jesus! 

Esta coroa, Senhor... Dela arranquei os botões e as flores: deixei-te apenas os secos e duros espinhos. Tu, fiador das suaves pétalas dos lírios! Por que o acúleo flagelo, como que pelo sangue nutrido, ainda mais verde ficou?  

Esta lança, Senhor... Forjei para ela a lâmina lancinante: soldado de longo braço manejou-a para o lado te perfurar. Tu, silente cordeiro de Deus! Por que tua pura água não quis enferrujar o assassino metal? 

Estes pregos, Senhor... Tomei-os das barracas filistéias: mais pontiagudos são hoje aqueles que os martelos fixam nos dormentes das locomotivas. Tu, ourives dos espaciais minérios afogueados! Por que os toscos cravos brilharam como o ouro da arca? 

Sendo injusto, tu por Graça me amaste. Eu, aquele te matou! Porém, fizeste-me justo e, então, pela Fé eu vivi.