sábado, 31 de outubro de 2015

Esponjas de sol - X

268. Todo olhar é cativo do pensar. É impossível mirar o sol de outubro sem recordar o piquenique na praia bretã com a namoradinha do colegial. Como por os olhos no amarelo-ouro do sol de fevereiro e esquecer aquela cálida tarde em que a morte veio sepultar minha avó? O vermelho da maçã alemã é inseparável do lábio vermelho de certa alegria. As nuvens de chumbo e o céu limpo, o irônico sorriso e a livre gargalhada, o arroz empapado e as nozes portuguesas: sempre me querem recordar da fazenda em Uchôa e dos papagaios de papel negro, de Don Chico e do mendigo da Rua 7 de Setembro, da comida dos quinze dias de hospital e da aristocrática mesa natalina de 1997. Se olho, penso.

269. O homem que mata por prazer uma raposa que mata por fome é moralmente inferior ao animal.

270. Só tu conheces os limites do teu particular abismo e o quanto do Mundo pode conter o teu espírito-buraco. Nasceste escavado pela Humanidade. Macerado pelo tempo, és singular grão de areia que contemplou o último dos “fiat!”; ainda nutres, porém, as pomposas pretensões de ser um qualquer canyon milenar. Qual a tua idade-voragem, oh Filho de Adão? Melhor te é contemplar a Eternidade pela limpidez da rasa poça que mergulhar na profunda e escura cova do Tempo Limitado.

271. Só pode viver feliz para sempre quem chega a compreensão de que esta felicidade é a dois: daí o “viveram felizes para sempre” dos adultíssimos contos infantis.

272. O principal assunto do diabo é Deus. Não se espante, então, quando perceber que muitas das piores pessoas que você conhece vivem de missa em missa e de culto em culto.

273. O diabo também é teólogo.

274. As ideologias falam a grupos humanos subtraídos e cooptados da Humanidade, discursam a partes exclusivas renegando a totalidade -- reputada ordinária e inferior. As ideologias dizem aos homens que eles serão superiores se propugnarem suas idéias, belicosamente opostas às demais idéias e, então, contrapostas aos outros homens. Apenas o Cristianismo pode afirmar a Verdade sem com isso estabelecer pelejas sectárias entre os filhos de Adão (ciosos das suas subjetivas “verdades próprias”), afinal, a Religião do Ressuscitado não tem propriamente “idéias”. O Cristianismo é uma pessoa-idéia: é Jesus Cristo. Então, é Deus-Verbo quem dialoga relacionando-se com o homem-falador, é o humano-em-Deus que se comunica ao divino-no-homem, operando metanoia sem a necessidade de discursos laudatórios formais, sem a necessidade de valer-se, no dizer paulino, de “palavras persuasivas de sabedoria humana, mas com demonstração de Espírito e de poder.” Deus, que é pessoa, fala ao homem simplesmente agindo no homem com o homem e pelo homem. São inócuos, pois, todo debate encomiástico e toda retórica argumentativa que busquem convencer o coração humano através de metódicos ideários (mesmo dentro das igrejas) que um homem rigidamente maneja para enredar o outro na sua sede de significância e, assim, pelo crescimento de prosélitos de sua velha ou recém-nascida ideologia, obter a sensação de desposar a Realidade, obter o conforto psíquico que é sentir-se ligado à Verdade. Cristo não é/faz apologia. Ele é a Boa Nova -- a boa notícia do acontecido, a boa novidade do ocorrido, não do falado, não do idealizado, não do pensado. Por isso, relacionando-se, Ele manifestou sua graça salvadora a todos os homens.

275. Bach compunha sua música para pequenas e grandes igrejas (para a sua pequena Thomaskirche, especialmente) não para salas de concerto cheias de eruditos ouvidos de agnósticos e ateus pós-modernos. Ele compunha para a congregação dos fiéis, para o rebanho comum: os ouvidos da orgânica irmandade de pequenos e grandes, pobres e ricos, cultos e incultos -- santos e pecadores. Quando é que a suprema e democrática beleza da música sacra se tornou impopular [e elitista] divertimento castálico?

276. Até a múmia embalsamada de Lenin há de ressuscitar. Tuba mirum!

277. Filigrana -- O detalhe que não é verniz, que não é desenho superficial. O detalhe que emerge do ser, da estrutura imaterial da obra material. Não é mero adorno refinado para amenizar a sisudez ou eventual desleixo do restante maior e mais bruto. Não é pluma de burilamento nem firula de acabamento que pretenda terminar a criação com um leviano “c’est fini!” capaz de, por conta deste seu solitário ponto de beleza, dar graça e legitimidade à sobejante multitude de mediocridades. Examina a parte que é o todo, a parte moldada com o mesmo esmero que ao todo deu existência. A minúcia é o penhor da integral excelência.

278.  Se o coração balança entre o “certo” e o “duvidoso” é sinal de que o certo também é duvidoso.

279. Se te dispuseres a andar, teus pés encontrarão sobre o mundo os cardos mais duros. Rígidos gritos e suave falatório -- mares de palavras sem significado açoitando o teu espírito sedento do Verbo. Fica em silêncio, cala até teu pensamento. Esvazia-te da multidão e enxerga o planeta sem lamentá-lo, sem esmurrar o débil auditório -- amando as almas enfraquecidas, aqueles coitados, aqueles indolentes que dormem durante a caminhada. As grandes pedras, as rochas ainda maiores, as montanhas milenares e as cordilheiras de dureza submergirão quando tua fé tomar a humilde forma do grão da mostarda. Sussurra mistérios enquanto a turba colérica berra louvores à carne. 

280. Quanto ao conforto psíquico dado ao homem pela sua casa, os vértices utéricos de mármore branco do Palácio da Alvorada e o barroco degenerado em ultra-pomposidade de Versalhes são igualmente artificiais, beirando o anti-natural. Mesmo situando-se em pólos opostos e antagônicos, a arquitetura do “homem alienígena” de Niemeyer é tão estranha à natureza do Homem quanto o excesso ofuscante do “homem roi-soleil” da arquitetura de Louis Le Vau. O ser humano não foi feito para habitar o etéreo que se inspira no não-ser, tampouco para viver na saturação do ente que submete o ser -- por mais conceitualmente artísticos que sejam. É através da harmonia entre o Natural Bruto da Criação e o Natural Lapidado pela Humanidade que surge o “Lar”.

281. Olha uma criança com seu brinquedo preferido. Verás ali um pequeno idólatra rendendo culto ao seu inofensivo ídolo. Mais do que “homo religiosus”, o ser humano é antes de tudo um “homo idolatricus”.

282. Antes de períodos de fecundidade produtiva, o artista sente intimamente o próprio vazio e perscruta melancólico o caos do seu ser para que, então (na condição de imagem e semelhança de Deus), crie a partir deste seu “nada secundário” (o primário é aquele que antecedeu o divino “fiat!”), dando forma e ordem à uma-sua obra.

283. O homem que reconhece a própria debilidade reconhece que é débil porquê não pode (ninguém pode) conhecer-se completamente e, por isso, não pode controlar-se completamente. Nós somos (todos somos) débeis porque somos incompreensíveis para nós mesmos. O “conhece-te a ti mesmo” é limitado pelo nosso eu verdadeiro -- ignoto. Por isso, esta é a nossa oração: Senhor, conta-me coisas que eu não sei sobre mim!

284. “Ninguém pode servir a dois senhores” aplica-se, também, à Política. É impossível comprometer-se integralmente com o Reino de Deus e, ao mesmo tempo, ir à ágora cuidar do kratos estatal e da arkhein governamental. Céus e terra passarão e com eles juntamente passará o pecado original que faz do homem o lobo do homem: no Reino, conforme nos diz o profeta Isaías, “o leão comerá palha como o boi.” O cristão pode até pragmaticamente instrumentalizar os louros de César, mas o pregador cristão só pode servir o Cristo coroado de espinhos.

285. Como Francisco, arranco a armadura, deponho a espada, lanço ao ribeirão o escudo e faço do elmo um cálice para a ceia dos leprosos. Aos pés dos pobres corro a estender o arminho e o veludo dos ricos trajes. O ouro dos meus dedos e das arcas, restituo à terra para que gotas de sol outra vez ele seja. As sandálias entrego ao sapateiro para que ele as devolva ao corpo do cordeiro imolado: este meu pó deve, a cada passo, unir-se ao pó do mundo. Mais do que o opulento brilho do fogo da cozinha fazedora de banquetes, refulge o olhar do irmãozinho que vem assentar-se à minha mesa de vinte e dois lugares para, pela primeira vez, comer pão de alva farinha e beber vinho sem mistura. Laudato si’, mi’ Signore!

286. A religiosidade fria sempre acenderá fogueiras.

287. Por que pontificar sobre todas as coisas, sobre tudo? Definir, descrever, dar sentido e afirmar e decidir a partir do eu solitário do racionalista abstraído! Criar listas, dicionários e enciclopédias, rabiscar tratados, teorias, hipóteses, reformar o Mundo segundo a explícita fórmula dos arquétipos que escondemos no subconsciente. Ah, para que? Por que indagar sobre a validade do processualismo kelseniano se a minha consciência de analfabeto me diz e diz ao aborígene criado em Oxford e diz ainda a todo homem reto de qualquer era “o que deve ser feito” no tribunal? Por que endeusar o Acelerador de Partículas que coagula energia em matéria se a minha psyche desde sempre mata e dá vida à minha physis? Imago Dei... Por que tornar complexo o simples que é já o complexo resolvido? Por que inventar vocabulário técnico e quase ininteligível, aprendido por especialistas da parte, quando a minha intuição silenciosamente apreende o todo? Sossegai!

288. Lei civilizacional: quando descobrimos/criamos qualquer “meio técnico”, nós imediatamente batalhamos por exaurir suas possibilidades de uso -- criando e acumulando tudo o que for possível a partir dele. Então, se conseguimos talhar a pedra, nós revolvemos as pedras todas do planeta e tudo aquilo que sai do nosso trabalho passa a ter “um quê” de pétreo. São obsessões cíclicas e coletivas que produzem e amontoam o máximo possível daquilo que as move; produzem e amontoam desordenadamente, brutal e bruscamente produzem e amontoam entes em tamanho e quantidade. Até que um dia, despertos para a qualidade dos seres, nós outra vez reorganizamos nosso habitat mantendo harmonicamente apenas uma ou outra “marca” de cada uma das anteriores obsessões. Há um paralelo: na pretensa Evolução das Espécies, os animais maiores e menos inteligentes sempre precedem os animais menores e mais inteligentes.

289. Machismo e Feminismo ideológicos só brotam em momentos históricos nos quais existem restritas posições públicas (e, então, também privadas) “nobilitantes” -- com suas glórias, prazeres, confortos e facilidades existenciais. Quando homem e mulher estão resignados a um dia a dia desglamourizado, nenhum dos dois sexos briga para estar na posição do outro, dado que não há status hierárquico (funcional ou não funcional) entre eles. Apenas quando se começou a ganhar a vida sem se pelejar com os espinhos e abrolhos da terra e o trabalho foi se complexificando a ponto de se emancipar da dureza da proto-economia agrária é que o macho berrou contra a fêmea (matriarcado) e a fêmea berrou contra o macho (patriarcado). Enquanto o braço do homem apenas servia para proteger desesperadamente seu fogo, sua caça, sua caverna e sua prole dos outros homens, a mulher não queria ir à guerra -- não existiam bastões heráldicos de marechal nem comendas de 1ª. classe da Ordem Imperial de São Jorge; apenas clavas, suor e sangue. Enquanto o braço da mulher apenas servia para alimentar o fogo com lenha por ela cortada, assar a carne do javali e tratar de fazer de uma gruta de estalactites um lar para seus filhos, o homem não queria ficar em casa -- não existiam os cordões azuis e as honras de Estado de um grand chef de cuisine do Palácio do Eliseu nem revistas de colunismo social; apenas queimaduras, lágrimas e sangue. É o desequilibrado acesso às “honras, graças, franquezas, preeminências, privilégios, isenções e liberdades” que opõe, com razão, Adão e Eva.

290. Todo indivíduo que se agarra à idéia de que a ele cabe o exercício de um qualquer poder supremo (em pequenos, médios e grandes contextos) torna-se uma caricatura de si mesmo. A identidade que se vai construindo em concepções de superioridade (que é a ânsia primordial do exercício de poder pessoal) desconfigura a organicidade da personalidade, que passa a responder não mais aos gregários e plurais estímulos concretos da afetividade humana, mas a estímulos abstratos de pensamentos auto-centrados e singularíssimos. Eis aí o caricato: o caricato é uma personalidade que mitiga sua integralidade através de uma idéia fixa, que por fim o toma e o parcializa, ressaltando nele a característica que ele primeiro fez ser predominante para, depois, ser completamente dominante. Qualquer valentão do primário é uma cópia nanica de Benito Mussolini.

291. A Matemática é ciência das mais abstratas. A Estatística (baseada em “médias”), p.ex., é praticamente uma ficção. E querem mesmo os matemáticos que acreditemos nas suas equações de giz e nos seus gráficos digitais, ainda mais quando afirmam que o Universo pode ser resumido à uma teoria numérica? Números não definem a Realidade: no máximo podem registrar ondulações casuísticas e restritas dela. Apenas as palavras têm significados permanentes -- eternos e fundantes, como o pensamento consciente do ego -- capazes de fixar leis. Os números são dados dispersos (potencialmente infinitos, no máximo) que podemos ou não colher numa pontuada (mas inconstante) área temporalmente estabilizada de acaso e caos -- tal qual a informação insignificante tida por pensamento que, sazonalmente, o nosso inconsciente expele. 

292. Lutar contra a Realidade (“Não vos conformeis!”) é, ao mesmo tempo, loucura e sabedoria. Loucura porquê irremediavelmente peleja-se contra o inevitável, como que tentando empurrar o mais potente dos tornados com o mais cândido e sereno soprar do hálito de um bebê. Mas, é sabedoria. É a mais sapiente e sábia Sabedoria, porque ela é movida pela esperança da não aceitação do Mal -- a esperança de que, se o Mundo cair em trevas, os homens se levantarão na luz; a esperança de que, do pó mais cinza e da cinza mais pulverizada, o Senhor Deus trará a novidade de um dia eterno. A expressão aramaica “Maranata” bem resume esse misterioso paradoxo, que grita, ao mesmo tempo, pelo fim e pelo começo, pelo Alfa e pelo Ômega, pelo Apocalipse e pelos Novos Céu e Terra.  

293. O ser humano age primariamente por instinto e, secundariamente, cria padrões de acionamento do instinto conforme a emoção respectiva lhe aflora repetidamente no cérebro ou... nas “partes baixas". Exemplifico: a lógica sexual do pancadão é o assédio bilateral -- as pessoas vão para lá para, liberal e conscientemente, assediarem e serem assediadas. É a regra da massa. Então, associando o desejo sexual ao seu conhecido meio de “chegar-junto-para-chegar-aos-finalmentes”, o sujeito transpõe automaticamente a moral do mundinho do pancadão para o mundo extra muros: assediando “nas escolas, nas ruas, campos, construções” toda vez que o tesão animal vem cobrar ação na carne. A ética do laissez-faire sexual (propagada pelos progressismos e revolucionarismos pós-modernos) é, justamente, uma das causas imediatas de todo este infernal pandemônio que atenta contra os Direitos Humanos que eles, com muito boa intenção, tentam defender. Liberam o indivíduo para uivar e grunhir e subir pelas paredes no pancadão (movido pelos seus mais baixos instintos e taras), comportando-se como um neandertal no cio, e, depois, nas ruas, esperam dele o comportamento civilizadíssimo de um lord inglês num recital de poesia vitoriana? E ainda querem dizer que não existe mesmo uma moral sexual correta e verdadeira, aplicável universal e absolutizantemente, mas que tudo depende do ambiente no qual se quer ou não exercer determinada pulsão?

294. Não se deve “cantar” uma mulher. Deve-se encantar uma mulher -- com o cântico dos olhos, do silêncio sinfônico dos olhos que, achando-se nas trevas, desviam sua luz-visão exatamente no instante em que ambos se podem perceber desviando. Canta-se a uma mulher com poesia inspirada, com seresta debaixo da janela, com rosas vermelhas no tédio das quartas-feiras, com um por do sol (até chuvoso!) de mãos fortemente entrelaçadas, com um pudico beijo na testa antes do sono que antecede a segunda-feira, com um cartão rabiscado com a velha música preferida. Encanta-se quem nos encanta. E, então, outra vez, gentileza após gentileza e carinho após carinho, a visão os une sem que agora desviem o olhar: sincronizados, os globos oculares vão ser estrelas que intercambiam seu brilho como duas crianças trocam seus presentes no primeiro Natal.

Dias de Noé

Se estão livres o campos,
Não os poderemos habitar.
Por neles os pés é já acinzentá-los,
É escurecê-los com o piche da ação.
Deixai-os para os dias de liberdade,
Para o livre tempo da semana.

Os campos já estão livres,
Livres de nós, livres do pó.

E as montanhas, firmes?
Estão firmes as montanhas.
Assentadas sobre a terra governam
A nossa rigidez de barro seco ao sol.
Deixai-as para os dias tempestuosos,
Para a fuga do dilúvio do relógio.

As montanhas já estão firmes,
Firmes para guardar nosso pó. 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Não deixa passar [letra de música]

Dá corda ao coração,
decora-o com ação:
sentir sem fazer
é morrer sem viver.
De cor, pois, recorda
que o amor te acorda.

Caminho excelente
o carinho nascente,
que para a semente
não fica descontente.

A hora já vai indo
mas tu inda sorrindo
ora preces de luz.
Sem pressa, lá reluz
a vinda destes passos
que vem colher abraços.

Não deixa passar
o amor sob o luar.
Não deixa acabar:
o dia vai clarear. (bis)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Spiegel-Auge

"La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur."
~ Paul Éluard

O que há nestes teus puros olhos
que já não me querem refletir?
Acaso estes dois luzidos espelhos
não te permitem livremente vir?

Olha: por ti dobrarei estes joelhos,
rogando para tua visão ressurgir.
Vou pedir a Deus sérios conselhos
antes que a cegueira te faça mentir.

sábado, 10 de outubro de 2015

Jaculatórias do Coração

I. Cora, meu coração! Desavergonhadamente cora naquela vermelha cor que da cruz escorre: colore-te já deste sangüíneo amor, colore-te da seiva do madeiro!
II. Sê salgado, oh meu coração! Que o teu dulçor salgue a terra. Sê pulsante cristal salino: reflete no mundo alguma luz.
III. Faze, oh Senhor, que o meu coração com o Teu Sagrado Coração pulse: que o ritmo do divino batimento encha de harmonia a minha alma. 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Esponjas de sol - IX

251. O homem é o ser que se enviesa. Quer dizer: o humano é a espécie que se auto-condiciona.

252. Interessante como os amores são mais profundos (quer dizer: implicam num mergulho maior de uma alma na outra) na medida em que se estabelecem através de relações mais singulares ou mais plurais. O fortíssimo Eros dá-se apenas entre um homem e uma mulher -- duas pessoas. A fraternal Amizade destina-se apenas à duas, três, quatro, no máximo cinco pessoas. A confortável Afeição é para um coletivo maior -- algumas dezenas de indivíduos e animais e não mais além. E a pacífica Caridade é para o mundo inteiro.

253. Há esplendor no obscuro silêncio de Deus para nossa mente, quando o pensamento é incapaz de discernir as costas do Todo-Poderoso: e é neste momento de “divina absconditude” que a nossa boca se enche de riso e, a despeito do nosso caminhar na escuridão, tudo faz sentido no coração.

254. O santo se afasta e se aproxima de Deus como se afasta e se aproxima dos homens. O santo sabe que Deus é pessoa.

255. O Facebook: cenáculo virtual de risos e gargalhadas, não de sorrisos.

256. Prefiro filé de mosquito a camelo no rolete.

257. Aqueles evangélicos que mais raivosamente atacam os papas por terem vendido a Igreja aos imperadores romanos são os mesmos que vendem suas congregações a vereadores e prefeitinhos. Trabuco também é César!  

258. “O Jogo das Contas de Vidro”, de Hermann Hesse, tem sua síntese em Eclesiastes 7:27 -- “Veja”, diz o Mestre, “foi isto que descobri: Ao comparar uma coisa com outra para descobrir a sua razão de ser [...]

259. Às vezes é necessário viver sem querer compreender a vida. Livremente viver, participando das querelas do Mundo como ator alienado, não como espectador consciente. Não que seja (não é, definitivamente) coisa perpetuamente recomendada este apego à dinâmica mais reativa da existência e que discernir causas e efeitos do agir humano seja melancólico “enfado da carne”, como nos diz o Eclesiastes. O que quero dizer é tremendamente simples: é preciso tomar sorvetes antes de querer compor receitas de sorvete, antes de querer apresentar o “sorvete perfeito” a todas as tribos, povos, línguas e nações. Sabedoria: Pratica a teoria para teorizar a prática.

260. A liturgia (que é a fé tornada gesto reverentemente ordenado) que prescinde do silêncio renuncia a paz. E renunciando a paz, renuncia a uma mais íntima comunhão com o Príncipe da Paz. É inconcebível paz com barulho, com cacofonia, com desvario sonoro. É inconcebível verdadeira fé sem paz cultual.

261. Só pode prometer ser fiel “até que a morte os separe” quem pode concentrar toda a Eternidade num “sim!”

262. Iludir-se mais um pouco, sonhar outra vez, almejar a cor da vida quieta entre os escombros acinzentados da morte barulhenta, cerrar os olhos à realidade não escolhida, sorrir quando inclementes choram de agonia os povos, estar consciente de que lá fora faz frio e as sombras rondam as almas boas e, mesmo assim, por-se a regar o mundo como que diante do doméstico jardim. Ah, isso é ter esperança!

263. O homem é o ser que tem curtos vícios esporádicos. Quer dizer: o humano é a espécie cuja existência dá-se através de uma sucessão de obsessões de pouca duração.

264. O Cristianismo não “abona” o Socialismo nem o Capitalismo. O Cristianismo assevera, isso sim, elementos estruturais e discursivos que podem ser encontrados na retórica ideológica de um e de outro. O Cristianismo não tem idéias. Ele é uma Idéia.

265. Hegoak com fonética torta: Perdoa, oh pai, este istmo / meu dia está losango.

266. Daqui meio século não teremos mais o “seu” Zé e a “dona” Mariquinha. O futuro moral e semântico é dos manos e das minas. Já imaginaram o mc Jou-Jou, rapper do batidão, sendo avô? Já imaginaram a turbinadíssima Marylin, piriguete do funk melody, sendo avó? Já se vai o tempo em que o mais modesto José era chamado de sire, como os cristianíssimos reis de França. Já se vai o tempo em que a mais pobrezinha Maria era uma domina, como as poderosas infantas da Ibéria.

267. Ouvi de Dona Maria Jorge Estevam, 103 anos, neta de um pastor de ovelhas português: “Quando uma ovelha se desgarrava, meu avô logo corria atrás dela. Deixava todas as outras. É que se não se vai atrás da ovelha sumida, as outras ovelhas é que vão e, então, uma a uma, todas acabam por fugir do curral.” Entendi, finalmente, a lógica de Lucas 15.