sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Esponjas de sol - IX

251. O homem é o ser que se enviesa. Quer dizer: o humano é a espécie que se auto-condiciona.

252. Interessante como os amores são mais profundos (quer dizer: implicam num mergulho maior de uma alma na outra) na medida em que se estabelecem através de relações mais singulares ou mais plurais. O fortíssimo Eros dá-se apenas entre um homem e uma mulher -- duas pessoas. A fraternal Amizade destina-se apenas à duas, três, quatro, no máximo cinco pessoas. A confortável Afeição é para um coletivo maior -- algumas dezenas de indivíduos e animais e não mais além. E a pacífica Caridade é para o mundo inteiro.

253. Há esplendor no obscuro silêncio de Deus para nossa mente, quando o pensamento é incapaz de discernir as costas do Todo-Poderoso: e é neste momento de “divina absconditude” que a nossa boca se enche de riso e, a despeito do nosso caminhar na escuridão, tudo faz sentido no coração.

254. O santo se afasta e se aproxima de Deus como se afasta e se aproxima dos homens. O santo sabe que Deus é pessoa.

255. O Facebook: cenáculo virtual de risos e gargalhadas, não de sorrisos.

256. Prefiro filé de mosquito a camelo no rolete.

257. Aqueles evangélicos que mais raivosamente atacam os papas por terem vendido a Igreja aos imperadores romanos são os mesmos que vendem suas congregações a vereadores e prefeitinhos. Trabuco também é César!  

258. “O Jogo das Contas de Vidro”, de Hermann Hesse, tem sua síntese em Eclesiastes 7:27 -- “Veja”, diz o Mestre, “foi isto que descobri: Ao comparar uma coisa com outra para descobrir a sua razão de ser [...]

259. Às vezes é necessário viver sem querer compreender a vida. Livremente viver, participando das querelas do Mundo como ator alienado, não como espectador consciente. Não que seja (não é, definitivamente) coisa perpetuamente recomendada este apego à dinâmica mais reativa da existência e que discernir causas e efeitos do agir humano seja melancólico “enfado da carne”, como nos diz o Eclesiastes. O que quero dizer é tremendamente simples: é preciso tomar sorvetes antes de querer compor receitas de sorvete, antes de querer apresentar o “sorvete perfeito” a todas as tribos, povos, línguas e nações. Sabedoria: Pratica a teoria para teorizar a prática.

260. A liturgia (que é a fé tornada gesto reverentemente ordenado) que prescinde do silêncio renuncia a paz. E renunciando a paz, renuncia a uma mais íntima comunhão com o Príncipe da Paz. É inconcebível paz com barulho, com cacofonia, com desvario sonoro. É inconcebível verdadeira fé sem paz cultual.

261. Só pode prometer ser fiel “até que a morte os separe” quem pode concentrar toda a Eternidade num “sim!”

262. Iludir-se mais um pouco, sonhar outra vez, almejar a cor da vida quieta entre os escombros acinzentados da morte barulhenta, cerrar os olhos à realidade não escolhida, sorrir quando inclementes choram de agonia os povos, estar consciente de que lá fora faz frio e as sombras rondam as almas boas e, mesmo assim, por-se a regar o mundo como que diante do doméstico jardim. Ah, isso é ter esperança!

263. O homem é o ser que tem curtos vícios esporádicos. Quer dizer: o humano é a espécie cuja existência dá-se através de uma sucessão de obsessões de pouca duração.

264. O Cristianismo não “abona” o Socialismo nem o Capitalismo. O Cristianismo assevera, isso sim, elementos estruturais e discursivos que podem ser encontrados na retórica ideológica de um e de outro. O Cristianismo não tem idéias. Ele é uma Idéia.

265. Hegoak com fonética torta: Perdoa, oh pai, este istmo / meu dia está losango.

266. Daqui meio século não teremos mais o “seu” Zé e a “dona” Mariquinha. O futuro moral e semântico é dos manos e das minas. Já imaginaram o mc Jou-Jou, rapper do batidão, sendo avô? Já imaginaram a turbinadíssima Marylin, piriguete do funk melody, sendo avó? Já se vai o tempo em que o mais modesto José era chamado de sire, como os cristianíssimos reis de França. Já se vai o tempo em que a mais pobrezinha Maria era uma domina, como as poderosas infantas da Ibéria.

267. Ouvi de Dona Maria Jorge Estevam, 103 anos, neta de um pastor de ovelhas português: “Quando uma ovelha se desgarrava, meu avô logo corria atrás dela. Deixava todas as outras. É que se não se vai atrás da ovelha sumida, as outras ovelhas é que vão e, então, uma a uma, todas acabam por fugir do curral.” Entendi, finalmente, a lógica de Lucas 15. 

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