domingo, 22 de novembro de 2015

Esponjas de sol - XI

295. Há apenas alguns milênios, qualquer daquelas feiosas cadeiras de plástico colorido, comuníssimas em buffets infantis, seria considerada um trono especialmente luxuoso e “teologicamente adequado” para um potentado cavernesco, tribal ou citadino -- zulu, tebano, semita, germânico, mongol et alii. Diriam que o amarelo gema do assento foi extraído do choro irado ou da urina curadora de Vishnu, de Hélio, de Marduque, de Rá, de Mitra, enfim, de qualquer deidade tradicionalmente ligada ao sol e regedora do Universo. Diriam que o plástico é a coagulação da “matéria amorfa” originária ou que, tal qual o osso de frango amolecido pela Coca-Cola, trata-se de uma fração (lapidada, por titãs ou anjos, em forma de assento) do fêmur de um daqueles deuses de braços e pernas plurais e super elásticos. Pergunto, então: qual é a diferença entre os nossos ancestrais mais remotos e mais ignorantes e nós (tão pós-modernos e tão cheios de razão!), que acreditamos na unção numérico-adivinhatória da urna eletrônica e na arcaíssima mitologia da Democracia de Massas, fazendo da bem esculpida cadeira estilo Luís XIV de qualquer mandatário republicano um trono intocável?

296. Se oras a Deus apenas quanto te falta dinheiro, não amas a Deus. Amas as moedas de Mamon. Se oras a Deus apenas quando te falta saúde, não amas a Deus. Amas as panacéias de Hígia. Se oras a Deus apenas quando te falta boa nota, não amas a Deus. Amas o conhecimento infuso de Toth. Se oras a Deus apenas quando te falta esposa ou marido, não amas a Deus. Amas as macumbas de Freya. Se oras a Deus apenas quando tua vida soçobra, não amas a Deus. Tu és pagão! 

297. Não é tempo o que temos diante de nós. É a vida.

298. Bem é aquilo que coopera com/para a [manutenção da] Vida. Mal é aquilo que combate a Vida. Mal é o Deletério, amante da não-existência, revogador do “fiat!” divino: Mal é Morte que pretende extinguir a Consciência.

299. Aqueles que inspiradamente louvam os revolucionários americanos de 1776, que lutaram contra a tirania britânica por independência política, também deveriam louvar os quilombolas brasileiros que, pela liberdade do próprio corpo, lutaram até 1888. Libertas omnibus aequa sit!

300. O problema-base da Democracia Eleitoral consiste em que o “arrojo social” (gogó combinado à ambição) costumeiramente suplanta o “arrojo técnico-moral” (preparo combinado à ética). A retórica, então, prevalece sobre a realidade: as coisas passam a ser tratadas, em graus de importância, não pelo que elas realmente são, mas pelo que elas parecem e dizem ser. Não à toa dizia José Martí que “En política, lo único verdadero es lo que no se ve.”

301. As pessoas são mais importantes que os pensamentos que elas têm. As pessoas são mais importantes que as ações que elas têm. As pessoas, pensando e agindo, são mais importantes que o pensar e o agir. O pensamento é mutável, a ação é mutável: “Cambia lo superficial / Cambia también lo profundo / Cambia el modo de pensar / Cambia todo en este mundo.” Então, qual é a idéia lógica do “ódio ideológico”?

302. Conforme a altura e a estridência e o desvario do grito de certeza, maior é a dúvida que amedronta quem grita. 

303. Quem és tu, refrão sem música? Estás incompleto como fina taça sem vinho adequado para o amor. Quem és tu, som de eco silencioso? Teus passos são o ritmo da batuta, do ponteiro do relógio, da bengala, da corrente que aguilhoa a vida, do cinismo e da covardia do profeta enciumado. Quem és tu, sonho que delira com a realidade? Estás incompleto como o alaúde que toca para ébrios sonolentos. Quem és tu, insípida e densa bebida vermelha? À noite, perscruta o livro misterioso: acende uma vela na escuridão e as letras do passado te contarão sobre a Luz.    

304. Eu via uma mulher, loura como um raio, cair do céu: ela cuspiu na calçada e, dez passos adiante, escarrou com estrondo na rua. Os querubins continuam cortando as próprias asas...

305. O homem é um ser consciente (inteligente) e, como tal, é incapaz de [re]criar consciência: no máximo, apenas “inventa” entes plenamente cheios de inconsciência, como os andróides, os robôs e os autômatos. Nossos pinóquios jamais exclamarão I can move. I can talk. I can walk!” Ainda assim, os sacerdotes da Ciência Moderna querem mesmo nos asseverar que o Universo inconsciente (logo, incapaz de instrumentalizar qualquer substância com inteligência, vontade e propósito) gerou, através do mero acaso (estúpido e sem meta) das probabilidades do Nada, o homem consciente? Apenas o “Eu Sou” (Deus) pode criar um “eu-que-estou” (o homem) que, por sua vez, só re-faz a partir do Feito.

306. Por mais potente que seja o fogo, se ele queimar matéria pútrida produzirá fumaça tão densa e tão negra que pessoa alguma poderá notar que há chamas ali. Cegueira completa: o fulgente cultiva treva e a labareda consome no escuro. O Inferno deve ser assim.

307. Ideologia devora ideologia.

308. Napoleão existiu? Quem, dentre os homens vivos, conheceu Napoleão? Napoleão para nós é uma idéia -- a idéia do corso baixote e complexado que conquistou uma coroa cesárea no século XIX. Napoleão é uma idéia a que chamamos “personagem histórico”. Ora, todos os homens que não conhecemos são para nós idéias. Qualquer ser humano já morto e/ou com o qual não convivemos é uma idéia (uma unidade de conjunções de pensamentos nossos e informações externas que formatamos e aceitamos como “outra pessoa”). Mas, como ter certeza de que Getúlio Vargas, Sócrates, Evita, Carlos V, El Greco e qualquer outra pessoa passada efetivamente existiram? Como ter certeza de que Dilma (e outra qualquer distante personalidade atual) não é um ator gorduchinho contratado pelo Clube de Bilderberg ou a irmã mezzo búlgara do Kim Jong-un? Podem-se argüir as mais mirabolantes, toscas e criativas hipóteses; hipóteses que, por falta de possibilidade de comprovação empírica -- um toque de Tomé! -- por parte de quem patologicamente duvida, não podem ser objetivamente derrubadas. Quem entre nós é capaz de apresentar provas contundentes contra uma qualquer Teoria da Conspiração na medida das provas pedidas por quem nela acredita? É impossível “provar” materialmente certas coisas (por mais absurdas que sejam), não obstante sua racionalidade e lógica. Apenas a aceitação de certos testemunhos, de certos indícios, de certos fatos interpretados com coerência, de certas fontes e, sobretudo, apenas a razoável confiança no outro nos permitem dizer se alguém existiu ou existe. Então, para além dos indispensáveis dados historiográficos, há o elemento da boa-fé humana: Celina Vargas sabe quem foi seu avô e sabe o quanto chorou debaixo do caixão do “Pai dos Pobres”, Platão sabia quem foi seu mestre e também sabiam quem era seu pai os meninos que ficavam sem almoço porque o progenitor preferia filosofar a pegar na enxada, qualquer peronista nascido pelo menos na década de 40 sabe quem foi a mulher do general-presidente Perón, os protestantes holandeses ainda sabem quem foi o herdeiro dos Reis Católicos e eu sei quem foi El Greco pondo os olhos nas pinturas da Catedral de Toledo. Nestes termos, concluo: não me venha pedir “provas” da existência de Deus! Ele é uma pessoa: procura-O e Ele responderá. Do contrário, para ti, Ele jamais deixará de ser uma “idéia”. Aliás, prova-me que tu existes. Prova-me que não és uma abstração coletiva das nossas mentes sedentas de querelas com “gente-do-contra”, uma entidade etérea projetada pelo inconsciente coletivo. Prova-me que não és a reencarnação de um piolho marciano!

309. A Fé: lusco-fusco.

310. A Tecnologia é substancialmente alheia à Ciência. A primeira cuida, sumamente, do conforto dos homens na Terra. Já a segunda, lida com as “causas legais” do Homem no Universo. Freqüentemente, porém, a Tecnologia (lidadora da matéria) pouco afeta nossas idéias sobre o Mundo, enquanto que a Ciência (teorética) subsiste integralmente no plano das idéias e, conseqüentemente, produz ideologia.

311. Ayn Rand: escritora patológica. Típica personalidade que despeja seus traumas, suas neuras e seus rancores esquizóides na produção literária.

312. Todo trabalhador vocacionado sente que seu trabalho é o mais importante do mundo e que o equilíbrio da sociedade depende da sua especial habilidade para fazer isso ou aquilo, entretanto, todo trabalhador vocacionado sabe que seu trabalho não é o mais importante do mundo e que o equilíbrio da sociedade não depende da sua especial habilidade para fazer isso ou aquilo. Tal é a dialética da vocação, que eiva o homem tanto de um certo heroísmo aristocratizante quanto de uma humildade aplainadora. Realisticamente, contudo, trata-se da boa e velha Aurea Mediocritas espiritual.

313. A Eternidade é um instante permanente.

314. O Infinito só existe no Verbo -- no agir sem limites das qualidades. Por sua vez, o Infinito não existe sequer no Número, porque ele é materialmente estático -- logo, insere-se no campo das quantidades. Ponto para o Teísmo.  

315. A França quis esmagar a Flor-de-lis e, na condição de filha primogênita da Igreja, tornou-se pródiga e foi comer o prato de lentilhas da Revolução. Deu no que deu. Já mil anos antes de 1789 os maometanos cantavam “qu'un sang impur abreuve nos sillons!” Deus lo vult? [13 de Novembro de 2015]

316. Tolerância absoluta é liberticídio.

317. O Islamismo é essencialmente beligerante. Maomé iniciou seu “ministério profético” cortando cabeças em Medina, no pós-Hégira, e morreu encharcado de sangue dez anos depois. Comparem-no a Cristo! -- aquele que disse: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos.” É o islâmico comum que não é essencialmente beligerante. Por que? Porque o homem médio procura apenas consolo metafísico na religião e, ao contrário dos ortodoxos apegados às idéias fundadoras (sua teologia e dogmática basilares) do Islão, ele quer um Deus que lhe seja, mutatis mutandis, similarmente humano. O povão sempre readequará a religião dominante, por mais dura que ela seja na sua pregação oficial, aos seus sentimentos naturais: a religião do homem natural é uma religião emocional, logo, empática; noutro sentido, sendo empática, são justamente as relações com outros homens não radicalmente ideologizados (mas de credos diversos e teoricamente antagônicos) que produzem tolerância mais efetiva. Por que são civilizadíssimos o culto príncipe Reza Pahlavi, os jovens reis da Jordânia e o lord Aga Khan? Porque têm na sua fé um apoio particular e privado de ordem substancialmente espiritual, e não um “instrumento literalista” para o poder coletivo e público. Aliás, alguém já ouviu falar de um grupo terrorista religioso que não tivesse qualquer ideário político? Não há “terrorismo puro” na religião, seja ela qual for. Quem negará, porém, que uma religião que se assenta primeiramente na submissão física à sua divindade não pegará em armas para erguer institucionalmente o Reino (o khilāfa, o califado) de Allah neste mundo?

318. Se o Universo fosse mesmo derivado de um poderoso choque de algoritmos, nós não seríamos controlados pelo inconstante poder das idéias. Nós seríamos um rígido sistema operacional. “No Princípio era o Verbo”, porém.

319. Os cristãos já cometeram as mais vis atrocidades e barbáries -- contra muçulmanos, inclusive. A História bem o prova. Mas, cometeram porque não seguiram à risca os ensinamentos de Cristo. Os islâmicos, porém, são tolerantes justamente quando não seguem à risca os mandamentos de Maomé. A maioria deles, felizmente, não segue.

320. Os números estão em toda parte. Porém, isso não quer dizer que eles são a base primordial das coisas. De modo algum! Isso quer dizer que eles são o frasco primordial daquilo que é realmente importante: o Ser.

321. Desde que pisamos à toa numa flor qualquer, para não acrescentar meia dezena de passadas às pernas fatigadas, e depois não percebemos menos bonito o caminho de concreto; desde que substituímos porcelana e vidro por descartável plástico industrial, para facilitar a limpeza da mesa e o asseio da pia, e não nos damos conta de que a elegância dignifica nossa humanidade; desde que acordamos às 5h-e-meia e voltamos para casa às 18h-e-meia refugando com a visão o nascer e o pôr do sol, deixamos de saber o que é um dia e o quanto ele nos enraíza no tempo; desde que nossa linguagem foi absorvida e moldada pelos grunhidos das ruas, para ser acessível ao marginal, voltamos à escravidão da caverna para dar segurança emocional para quem ficou nela; desde que trocamos a água, o café e o chá e o vinho e qualquer outra bebida multissecular por ácidos e sacarose e química gasosa em latinhas, em nome do gozo gástrico, nosso sangue urina no nosso cérebro; desde que esmagamos A Infame, pavor nos toma quando passamos diante da imagem do Crucificado, mas os galhos de arruda, os cristais em forma de pirâmide, os budinhas de gesso e os balangandãs exotéricos nos acalmam a psiquê quando nossa carne animal treme diante do trovão da existência; desde que choramos pelos fetos dos pandas chineses e pelos ovos azulados das tartarugas do Pacífico, enquanto berramos pelo direito de esmagar o frágil corpo de um bebê no ventre da própria mãe... Desde então, somos bárbaros!

322. Se se consultar a literatura sacra das outras religiões, não se encontrará registrado sequer um único “Por que me abandonaste?” dito pelos seus santos e heróis -- seus homens-fortes. No Judaísmo e no Cristianismo, porém, tal é a regra. Na Bíblia Sagrada encontram-se, todo o tempo, os homens de Deus nesta peleja com o próprio Deus. Eis os conhecidíssimos exemplos de Moisés, Jacó, Davi, Elias, Isaías, Jeremias, Ezequiel, entre outros, no Antigo Testamento. Já no Novo Testamento, o ápice é o próprio Deus-Filho, Jesus Cristo, clamando um doloroso “Lama sabactani?” para o Pai. Na História da Igreja é igualmente recorrente esta “solidão de proximidade”. Gregório de Narek, Lutero, Edith Stein, João da Cruz, Thomas Merton, Catarina de Siena, Agostinho e tantos mais nos revelam o mesmo brado. Por que? Porque eles, efetivamente, se relacionaram com uma Pessoa. Apenas no relacionamento com Alguém é que se pode ter (ao mesmo tempo) estes espasmos intelectivos e sentimentais de confiança e desconfiança, de esperança e desesperança, de cuidado e coragem, de júbilo e melancolia.

323. A Compreensão da Natureza de Deus pelo Homem, nas Sagradas Escrituras e na História, passa por estas fases -- decrescentes/degenerativas e crescentes/generativas: Monoteísmo Trinitário (Adão e Eva no Éden), Monoteísmo (no pós-Éden, dos filhos de Adão até Noé), Politeísmo (dos filhos de Noé até Terá), Monolatria (de Abraão a Moisés), Monoteísmo (todo o período Mosaico), Monoteísmo Trinitário (a partir da Encarnação ad Aeternum). Idas e vindas entre unidade e pluralidade no intermezzo do Tempo, com sua Combinação inicial e final.

324. Apenas o louco olha para o mundo e não compreende que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” e que essas coisas endoidecem ou iluminam os homens. Apenas um idiota, de mente cauterizada e coração desnaturado, é capaz de pisar neste planeta e não pensar e não sentir que ele é um imenso campo de guerra, um Megido metafísico imerso em poderosas tensões. O louco é idiota -- é niilista: ele se esconde debaixo da cama quando os fantasmas nos quais ele não acredita vêm lhe visitar à meia-noite e, nesciamente, grita desesperado: Eu vos esconjuro em nome de Nietzsche e de Pisarev e de Sartre!

325. Mistério, o teu nome é silêncio.

326. As bactérias que parasitam os carrapatos das vacas nos pastos dão mais glória a Deus que certos bodes e lobos humanos que, disfarçados sob o manto de assassinadas ovelhas, berram e uivam dentro das igrejas.

327. Por que temos utopias? Porque somos a utopia de Deus.

328. O fanático morre de medo de si próprio. Ele se agarra numa qualquer certeza (que nada é senão uma dúvida que tomou o formato psicológico de certeza) de um qualquer outro fanático apenas para poder duvidar da dúvida que o consome. O pensamento é uma tortura para o homem de geléia. Daí o porquê dele buscar consistência e densidade em “idéias pesadas” -- afiadas na letal rigidez dos maniqueísmos fáceis. Por fim, um fanático junta-se a outro e eles, juntos, auto-congelam a gosma existencial da qual são feitos, produzindo então uma multidão de fanáticos movidos por este processo cíclico no qual o berro contra si mesmo constitui-se em “sentido da vida”. Compreende-se, logo, o motivo pelo qual o fanático não teme a Morte e, pelo contrário, a ama e deseja sobremaneira: porque para ele a Vida é a arena da dúvida que dissolve, da questão que derrete, da pergunta acinzentada que liquefaz a dualidade moral do tipo preto-e-branco, da demorada resposta inconclusa, do mistério ininteligível, do inefável inobjetivo, do espelho mental embaçado que nunca quer revelar a imagem verdadeira das coisas. A Vida é um “deserto tropical” no qual a interrogação se manifesta como vontade do próprio Deus que, segundo as belas palavras de Salomão, “pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim.” E é o “eu” que tem que se ver com tudo isso. O fanático não quer ter um “eu”, não quer ser uma pessoa viva, livre e autonomamente pensante: ele quer morrer por um pensamento que não é dele (nem de ninguém!) para ser um nada explodido em louvor do Nada, para o qual “não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.”  

329. O homem é uma reta. A mulher, uma curva.

330. O Amor é tão crescentemente gradual e levemente estendido no tempo que, às vezes, é preciso um instante de extrema concentração de sentimentos para que nos percebamos enamorados. Não raramente é o ciúme que (feito um raio que cai rasgando a terra do coração) traz à tona o que há tempos temos vivido.

331. O Verbo se encarnou, não se encadernou. A Escritura é inspirada, não é o Inspirador.

332. Onde está a Joana d’Arc maometana? Onde está o São Francisco islamita? A santidade não floresce no espinheiro.

333. Não adianta crer em tudo o que se deve crer. Isto diz respeito apenas ao conhecimento da Fé. A questão é viver, em paz, ao menos um pouco daquilo em que se crê. Eis a sabedoria da Fé!

334. Espanta-me a fragilidade dos homens desta nossa geração. São bonecos de gelatina com urina nas veias: melam-se de medo ao primeiro estampido incerto no horizonte escuro. Que seria da Civilização se, hoje, tivéssemos que levantar armas contra Hitler ou Nero? Que seria da Raça se, agora, tivéssemos que defender nossas cidades de Átila ou Stalin? Que seria da Humanidade se, já, tivéssemos que cerrar fileiras contra Antíoco Epifânio ou Mao Tsé-Tung? Já imaginaram a super-alcoolizada geração dos boyzinhos de saveiro rebaixada à moda bará-bará-berê-berê tendo que enfrentar os filisteus do Estado Islâmico? Demônios nos rodeiam e a imensa maioria dos filhos de Adão está preocupadíssima em fazer equilibrar o topete no lugar (valendo-se de dois sebosos quilos de gel) e ensaiar cantadas de pedreiro ninfomaníaco para cortejar as pobres moças bêbadas na balada de sábado.   
   
335. Allah é Dagon.

336. Caim sabia que Deus existia. Abel cria em Deus. Crer em Deus não é o mesmo que saber que Ele existe.

337. Desconfia de qualquer religião que, mesmo veladamente, amaldiçoa iconoclásticamente a Beleza. Se ela se recente do Belo, certamente o faz doutrinariamente instigada por aquele -- o diabo -- que odeia a Criação, por aquele que odeia o amor de Deus pelos entes que artisticamente Ele criou. “A beleza salvará o mundo”, bradou (inspirado pelo Criador) Dostoiévski.

338. Pensa bem: se Deus se revelou através de um homem (lembra-te que todo fundador de religião é a chave hermenêutica para sua compreensão mais profunda), quem teria vivido como Deus viveria? Quem seria o homem que, através de sua humanidade, transpareceu o Criador, aceitando e acatando a Criação? Seria através do melancólico e bondoso Buda, tão cheio de insanáveis dúvidas e amante da dissolução do eu consciente e do si-mesmo a ponto de amar patologicamente o não-ser? Seria através do traumatizado e iracundo Maomé, um esquizofrênico assassino, um iconoclasta da Beleza, um político que retroagiu à caverna a já brutal religiosidade ismaelita? Listem-se todos os erigidores de crença e ver-se-á que, em maior ou menor grau, todos eles se rebelaram contra a Realidade (o Estabelecido), todos eles olharam para o mundo e disseram: “Não é assim! Não quero assim!” Apenas um, um somente, tomou sobre si o peso da História e da existência. Apenas um aceitou a nudez, a dureza e a crueza da condição humana e, mesmo assim, viveu e morreu como homem integral: Jesus Cristo. A biografia de Jesus Cristo é a biografia de um homem comum e médio nos seus afazeres terrenos, mas, justamente por isso, vai além: é a biografia de um Deus que mostrou aos homens como se deve ser humano. Por isso, jubilosa e confiantemente dizemos: “Qui propter nos homines et propter nostram salutem, descendit de caelis, et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est.”

339. Os excessos contínuos sempre anunciam o fim daqueles que são continuamente excessivos. A fartura de determinada volição a levará à inanição de morte. Não se pode expelir libido para sempre: o que sai, sai para não mais voltar; o que sai, sai perdendo sua perenidade interna. Somos uma “bateria” que se auto-alimenta apenas quando vertemos harmoniosamente para fora a energia que, em doses equilibradas, nós pomos (ou recuperamos) para dentro.

340. O niilista se alimenta da própria inanição. 

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