domingo, 1 de novembro de 2015

"Pegue o seu banquinho e saia de mansinho."

Há apenas alguns milênios, qualquer daquelas feiosas cadeiras de plástico colorido, comuníssimas em buffets infantis, seria considerada um trono especialmente luxuoso e “teologicamente adequado” para um potentado cavernesco, tribal ou citadino -- zulu, tebano, semita, germânico, mongol et alii. Diriam que o amarelo gema do assento foi extraído do choro irado ou da urina curadora de Vishnu, de Hélio, de Marduque, de Rá, de Mitra, enfim, de qualquer deidade tradicionalmente ligada ao sol e regedora do Universo. Diriam que o plástico é a coagulação da “matéria amorfa” originária ou que, tal qual o osso de frango amolecido pela Coca-Cola, trata-se de uma fração (lapidada, por titãs ou anjos, em forma de assento) do fêmur de um daqueles deuses de braços e pernas plurais e super elásticos. Pergunto, então: qual é a diferença entre os nossos ancestrais mais remotos e mais ignorantes e nós (tão pós-modernos e tão cheios de razão!), que acreditamos na unção numérico-adivinhatória da urna eletrônica e na arcaíssima mitologia da Democracia de Massas, fazendo da bem esculpida cadeira estilo Luís XIV de qualquer mandatário republicano um trono intocável? 

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