sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Αλληγορία

Tudo quieto no porto. A praia alonga-se como um corpo desnudo. O grão de areia não é um gigante para o pó, um Gilgamesh diante da poeira?  O dia vai encontrando a noite. A tarde está no ápice; é o apogeu da luz que se amaina acenando às trevas. As sombras estão mais claras porque o sol é menos forte. As sombras são mais escuras quando a lâmpada é mais fraca. Deus passeia pelo caminho gramado e os demônios vagam sobre o piche. O chapéu de palha refresca a cabeça do camponês que nivela com ferro afiado a plantação de centeio. Como é radiante o sorriso daquele neném. Qualquer fotografia dele vale mais que aquela boca de enigmas que o Louvre guarda orgulhoso. As folhas estão verdes mas quase cinzas. O outono está ressecando sob os primeiros ventos frios do inverno. A água espreguiça-se no céu e cai levitando, como garoa, no meu rosto suado. O rádio tocava um bailado, mas já o desligaram porque um sabiá pousou na janela para ouvir o gugu-dadá da menina brincando com a papinha de maçãs. Na panela a pipoca tilinta amanteigada e o chocolate derrete sossegado na caneca. Na fronteira a caixinha de um pelotão rufa irrigando a terra com o barro humano. Algumas andorinhas dão rasantes ao lado de pipas coloridas e libélulas sobrevoam o heliporto. A cera afogou o fogo da vela, a pilha do farolete perdeu a carga, um raio derrubou o poste da avenida. É noite. Apenas o luar ilumina a praia do mar, sobre a qual se estendem deitados os corpos daqueles que adormeceram contando estrelas. Tudo quieto no porto.

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