segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Esponjas de sol - XII

341. Jesus chamou e mandou chamar Deus de Abba. A erudição biblista quis polir o vernáculo popular aramaico e traduziu a palavra como Pai, dando uma conotação mais solene à uma expressão lingüística que, originalmente, é puro carinho e intimidade. Abba, porém, é Papai. Mais: é Painho, como amorosamente dizem os nordestinos.

342. A limitada intuição humana corresponde, mutatis mutandis, à ilimitada presciência e à ilimitada onisciência divinas. Imago Dei, pois.

343. O cinza, não sei exatamente porquê, edifica em nós reverência. Nós vemos qualquer construção medieval coberta de brumas, qualquer foto antiga descolorida, enfim, qualquer imagem sobre a qual pairem as nuvens do pretérito, e logo somos tomados por sentimentos “litúrgicos”: o espírito sempre fica [leve ou pesadamente] genuflexo diante do passado rígida e fixamente captado entre o preto e o branco, afinal, pluralidade de cores é psicologicamente “atualizante” -- sempre invoca a visão comum e realista que, estando vivos, nós temos da paleta natural que nos cerca. Há aí um certo suspiro por um tempo que não é tempo, por uma ordem das coisas que não é cronológica. Há aí uma aspiração pela Eternidade.

344. Não pode ser verdadeira uma idéia tão lógica e racionalmente sofisticada que não possa ser compreendida por qualquer homem simples e comum. Não pode ser verdadeira uma idéia tão complexa e imediatamente indiscernível a ponto de qualquer roceiro analfabeto dela dizer: “Ah, isso é besteira!” O Senso Comum é a pedra-de-toque de qualquer ideal/ideologia. Deve-se desconfiar de toda “verdade” cujo processo de conhecimento seja hermético (esotérico -- seja religioso ou científico-materialista) e altamente especializado.

345. Revolução aferida ao meio dia de hoje: um bem-te-vi dançava no ar e, mirando um gato que caminhava todo bonachão no meio da rua, lançava-se furiosamente contra o felino, dando rasantes e cambalhotas aéreas dignas de uma águia. 

346. Por que um simplório qualquer, ciente de Deus e às vezes mais ou menos inconsciente de si e de sua ação no mundo, tendo certezas consegue ser ativamente bom enquanto um erudito niilista qualquer, ateísticamente agnóstico e amantíssimo do “conhece-te a ti mesmo!”, só pode ser passivamente inofensivo se estiver submerso num oceano de dúvidas? O homem intelectualizado pós-moderno não é bom: é inofensivo porque só tem interrogações, que lhe castram de tal modo a ação que ele se mantém inertemente parado, incapaz de desbravar a existência -- capacidade dada apenas àquelas pessoas que se nutrem de uma “verdade” (seja “boa” ou “má”) que lhes sustêm o âmago do ser; afinal, a neutralística indefinição moral é inimiga da Civilização (é contraproducente: nada gera, nem construção nem destruição). Bom sempre poderá ser o homem crente de qualquer era, mergulhado em certezas corretas e incorretas, mesmo não detendo argumentos sobre o Big Bang, sobre Darwin e o Materialismo Dialético, sobre o Ceticismo de Hume, etc, enfim, sobre os costumeiramente inférteis “como?” das idéias que negam a visibilidade do invisível. Se o simplório ignorante de tudo mas sabedor da Encarnação é bom, porque no máximo pode ser inofensivo o erudito sabedor de tudo mas ignorante de Cristo? Se é preciso acumular tanto conhecimento filosófico, científico e psicológico para ser no máximo um sujeito inofensivo, porque nada além de Fé basta para ser pura, bela e humanamente bom?

347. Segunda Guerra Mundial. Um católico camponês bávaro (feito soldado alemão) foi para o fronte lutar pela “Sagrada Germânia”, da qual ele ouvira falar num discurso do kaiser Wilhelm II, assistido por todos os alunos de sua classe na segunda série. Um presbiteriano ferreiro galês (feito soldado inglês), recordando-se dos emocionantes versos de “Jerusalém”, de William Blake, se alistou para defender a “Antiga Albion”. Não foram os discursos nazi-demoníacos de Hitler que puseram Berthold no exército do III Reich. Não foram os discursos democrático-humanistas de Churchill que puseram Owain no exército do Império Britânico. A História mais para trás, um pouco mais para trás, ainda ribombava nas almas, ecoando seus arquétipos, seus mitos, seus sinceros ideais ainda não degenerados em crueldade ideológica. Ambos ingenuamente se encontraram, cada qual no meio do seu batalhão, no campo de batalha -- nas trincheiras franco-belgas. Então, eles apertaram simultaneamente seus gatilhos e se mataram um ao outro. Pouco depois, os dois se encontraram no céu: Abel encontrou o outro Abel, Caim encontrou o outro Caim. Eles se encontraram e, reconciliados pelo perdão, prostraram-se diante do mesmo Deus.  

348. É pecado dizer que é pecado aquilo que não é pecado.

349. Apenas o Cristianismo é absoluto -- é a Realidade. Isso não quer dizer que as outras e demais religiões sejam meras “invenções”: elas são versões completamente incompletas. Versões mais ou menos verossímeis e versões mais ou menos inverossímeis. São (toscas ou engenhosas) tentativas de compreender aquilo que apenas a Revelação poderia ensinar: Deus.

350. Senhor, outra vez tu vais nascer. Está tão poluído o céu que a estrela-guia não guiará. O cruzeiro do sul anda invisível e os astrolábios foram tecnologicamente substituídos por terríveis GPS -- vozes inferno-maquinais incapazes de cantar angelicamente o “Gloria in excelsis Deo!”. Afora a eletricidade dos postes, que tão fortemente ofusca cá da terra a pouca luz que os astros do céu noturno conseguem lançar sobre nós. O letreiro de neon escondeu o brilho das constelações. As monarquias com fé caíram e as poucas coroas que sobraram são tão laicas, são tão oficiosamente atéias, que os reis mal podem ir à igreja para assistir ao culto natalino ou a Missa do Galo sem despertar a ira dos eleitores politicamente corretos. Magos, só os astrólogos falastrões e os simoníacos da IURD. Está tão barulhenta a cidade que o coral dos anjos não seria escutado, sequer ouvido. Meia-noite é dia: o mundo movimenta-se, freneticamente, durante todo o completo ciclo do sol -- 24 horas, sem parar. Há muito alvoroço, muita buzina, muita sirene, muita rave, muita gritaria, muito tiro. O planeta foi sepultado no abismo do falatório. E tu bem sabes que o falatório é inimigo declarado do Verbo, tão significante e silencioso... Não temos currais à antiga. Os campos foram concretados e as ovelhas agora existem confinadas em pequeninos cochos dentro de imensos galpões industriais, também feitos de concreto, comendo a ração que algum laboratório norte-americano produz na Malásia. Então, já não temos manjedoura cheiinha de capim fresco -- macio como um berço. Nas hospedarias, definitivamente já não poderias nascer: elas se transformaram em luxuosos hotéis 5 estrelas, cuja diária os parcos proventos de um pobre príncipe carpinteiro não poderia pagar nem que algum Herodes pós-moderno encomendasse uma réplica perfeita do trono de seis degraus de Salomão. Aliás, agora Herodes manda matar as crianças ainda no útero. Não são os soldados que saem às ruas à cata de meninos menores de dois anos: são os médicos, vestindo jalecos quase tão alvos quanto à neve. E estes hipócritas ainda juram pelas palavras de Hipócrates! Cuidado, pois, com os hospitais: neles só se consegue nascer através de cesariana. Então, Senhor, vem mesmo assim! Vem, mas vem movido pelo querer deste brado que pede: Maranata!

351. O nosso coração é fraco. Tão fraco e tão frágil! Mas, mesmo quebradiço como a milenar porcelana chinesa, ele é tão forte e tão resistente que é capaz de suportar os terremotos do amor e da ira, da ilusão e da realidade, do ser e do não ser. Fraco e frágil como as sensíveis asas da borboleta; a borboleta que com o esvoaçar de suas finas asinhas é capaz de produzir um tufão devastador. Então, dois corações unidos são duas fraquezas e duas fragilidades unidas: são uma inexpugnável fortaleza. Ah, e se se irmanassem todos os corações? Que poderoso panapaná! Que bonança!

352. Em Política, quando uma maioria silenciosa se forma, a minoria (ultra-sensível, a rigor -- daí, sua maior organização) logo sai para fora para, mecanicamente, “gritar”. Então, por conta da coesão do histerismo e dos estrondos da minoria, a maioria (mais orgânica, logo, menos sensível) se percebe e muitas vezes se crê minoria. O termômetro de uma oposição é a altura da gritaria irracional da situação. Basta julgar os humores.

353. Se existe sede, existe água. À mais íntima e visceral necessidade do homem corresponde a mais íntima e visceral solução divina. Se o homem tem sede de significado, então há Significado que o baste, que o sacie completamente. Existe “água”, pois! E a água que o Senhor dá gera no homem “uma fonte de água que salte para a vida eterna.” (João 4:14)

354. Deus dá genialidade apenas a quem tem defeitos suficientes para não tornar-se nela um obsessivo do tipo “uma nota só”. Já imaginaram que monstro loucamente demoníaco seria o rígido Salieri se dotado fosse ele do potente gênio de Mozart? Quem muito quer e com ardor deseja um sumo talento, quer e com ardor deseja não a fecundidade do dom em si; antes, almeja loucamente o verniz de poder, o status e a distinção egóica que ele pode trazer.

355. Deus quis que o homem, ainda que paupérrimo, fosse para os animais um regaço de proteção e carinho. E é no homem paupérrimo -- literalmente sofredor do mal da ausência do mínimo consolo material -- que os animais paupérrimos vão se aninhar. Os cachorros de rua procuram os homens de rua. Só na ausência deles é que os pobres totós vão mendigar na porta das casas habitadas. O animal sem teto quer esquentar e ser esquentado pelo homem que não tem o calor dos outros homens. Então, ambos se encontram e cuidam um do outro: o animal ganha colo e afago; o homem, o que ter no colo e lambidas. A marmita de um torna-se a boa ração do outro. Quão antiga e verdadeira é a expressão “eis o mendigo e o seu cão”!

356. Picharam, com spray dourado, num poste: “Deus!” As letras eram góticas. Revolução em andamento?

357. O Senso Comum geralmente não se dá bem com detalhes técnicos, mas é “tiro certo” quanto ao julgamento estrutural.

358. Não haverá apologética mais eficiente que aquela que busque falar a favor de Deus através da comparação da “Proposta Cristã” com o comportamento humano. Se se comparar o realista modus vivendi do Homem com a “Psicologia do Ser” encontrada na narrativa teológica cristã (baseada na tríade Criação/Pecado Original/Redenção), refuta-se com eloqüente eficiência todos os demais discursos ideológicos religiosos, não religiosos e anti-religiosos que tentam dar algum significado à Vida. Apenas o Cristianismo consegue explicar a Existência, porque ele a afirma integral, total e plenamente: ele não foge da realidade e, mais!, responde ao intenso e dialético confronto do homem com o ente pelo qual ele se apaixona no vício e com o ser pelo qual ele ama na virtude.

359. Compulsão à repetição é a pulsão máxima do pecado -- é pulsão de morte.

360. Todo jornalismo consiste em retórica noticiosa. O que torna um jornal mais sério (sincero, pois) que o outro é o quanto ele se esforça em, implícita ou explicitamente, manifestar ao leitor qual a “lente interpretativa” que o texto jornalístico adota. Descrever neutralisticamente a Realidade, valendo-se de algumas poucas laudas numa matéria a ser editada e reeditada, é a “utopia” dos jornalistas: jornalismo não é narração positivista, nem processo de registro historiográfico, nem arte literária capaz de estabelecer, ao menos, limites de entendimento psicológico para a composição das informações publicadas. Raramente pode-se ler uma matéria ou artigo que aborda os fatos “a seco”, sem maiores juízos de valor (conscientes e inconscientemente) contaminando a integralidade do discurso. Não se trata de relativismo e/ou subjetivismo ideológicos. Trata-se apenas da constatação dos efeitos do fardo da nossa não-onisciência, ainda mais abalada por estar o jornalista restrito a pequenos períodos de tempo (para tratar o acontecimento) e de consciência (para compreender o acontecimento); pequenos períodos de tempo e de consciência que são os componentes vitais de uma notícia que, por sua vez, é uma novidade que está, sempre, à espera de ser re-composta: as descrições baseiam-se, todas, em versões -- versões que se vão tornando completas e verossímeis ou incompletas e inverossímeis, conforme as informações se modificam mediante a dinâmica temporal da “descoberta dos fatos” -- que alteram os humores, sempre. O jornalismo, então, é um arauto que berra frações de versões que vão melhor compondo a estrutura de um fato notório: na segunda-feira, noticia-se um assassinato; na terça-feira, que um suspeito foi preso; na quarta-feira, o suspeito já não é suspeito e outra pessoa é presa; na quinta-feira, a perícia encontra a arma do crime e são ouvidas testemunhas, que asseveram que o preso é, de fato, o assassino; na sexta-feira, é encontrada uma carta de suicídio do agora suposto assassinado; no sábado, fica claro que a carta é fajuta, falsificada; no domingo, aparece na delegacia o verdadeiro assassino, que tudo confessa. Perguntas: E quanto aos leitores do jornal que leram apenas uma edição? E quanto aos que leram duas ou três ou quatro edições sucessivas ou alternadas? Todo jornalismo consiste em retórica noticiosa.

361. Quem muda muito de opinião, nunca muda de opinião. Quanto mais rápida é a mudança de “lugar ideológico” (de um ponto extremo a outro ponto extremo) menos se muda -- nada se muda. Tal é a lei física: um corpo que, sem parar, trafega de “x” a “y” o tempo todo, gasta mais tempo no [meio do] caminho entre os destinos que nos destinos em si. Quem muito muda de opinião, muda nunca de opinião.

362. Apenas um homem burro diz que uma mulher tem muitos segredos. Ela não tem muitos segredos. Ela tem grandes “conversas” zelosamente custodiadas que, por falta de bom ouvinte, não são conversadas. Basta se aproximar com gentileza e sinceridade, falar-lhe interessadamente (nem que um poucochinho) e, então, ouvir: ela logo retira do coração quase todos os “segredos”, entregando-os como frutas de ouro ao faminto por “revelações”. Uma mulher tem poucos segredos. Aliás, estou para crer que, na verdade, cada mulher tem no máximo um segredo. Um só, só seu. E ela não se importará em dividi-lo com quem estiver disposto a amorosamente escutá-la.

363. De acordo com o pensamento (dialético) do homem médio, o mais alto grau de impossibilidade reside naquilo que se apresenta como contraditório em substância. Muitas “profecias místico-tecnológicas” do passado sobre o então futuro (nosso passado recente e nosso presente) baseiam-se em afirmações literalescas que procuravam encantar o público com a narração mais ou menos teofânica de acontecimentos impossíveis -- tidos por naturalmente contraditórios. Ao querer relatar um mundo fantástico (necessariamente não atual, quase sempre para “frente”) o escritor ou contador projetava, valendo-se de elementos da realidade e de criatividade lógica, o futuro em que o impossível aconteceria mágica, milagrosa ou cientificamente. Trata-se, então, de uma simbiose entre “elementos da realidade” (que são aquilo que todos reconhecem como factualmente existentes, visível ou invisivelmente) com “criatividade lógica” (que consiste na instrumentalização de leis lógicas pelo mais abstrato e livre pensamento criativo), os quais, por sua vez, interagem para compor uma fantasia futurista. Daí, fácil entender como a idéia medo-persa de um pássaro para o vôo humano feito de material duro e mole, p.ex, vai inexoravelmente desaguar num qualquer tipo atual de aviãozinho monomotor cujos principais componentes são plásticos. Fica explicado o profetismo de Júlio Verne e de tantos outros visionários crentes e não crentes.   

364. O maior problema psicológico e político das redes sociais é que as pessoas realmente passaram a acreditar que, através de posts, elas afetam e influenciam absolutamente a vitória ou a derrota das causas que elas pessoalmente advogam. O Facebook propiciou o surgimento de uma espécie de megalomania escatológica interneteira, em que cada “militante virtual” se enxerga como sendo o único custodiador de um Santo Graal ideológico do qual depende o fatal destino da Humanidade, como sendo um neo-Prometeu que, à partir dos relevos olímpicos da timeline, entrega aos mortais a sagrada chama da ideologia que vai, de uma vez por todas, resolver o Mundo.

365. Se se colorisse Jules Breton no prézinho e não qualquer tela rabiscóide do Romero Britto, se se ouvisse Mozart na 1ª série e não qualquer versão a-b-c funkneja da Xuxa, se se assistisse “Marcelino Pão e Vinho” na 2ª série e não qualquer documentário da ONU sobre Identidade de Gênero na infância, se se lesse “O Pequeno Príncipe” na 3ª série e não qualquer gibizinho doutrinário do MEC, se se debatesse o auto-conhecimento socrático na 4ª série e não a importância filosófica de Valesca Popozuda no imaginário tupiniquim: todo o Ensino Fundamental estaria salvo e nós não estaríamos vendo moleques de 10 anos brincando de guerrilheiro-mirim do Sendero Luminoso nas escolas paulistas, todo o Ensino Médio estaria salvo e nós não estaríamos vendo marmanjos de 17 anos brincando de revolteen guevarista nas escolas paranaenses, todo o Ensino Superior estaria salvo e nós não estaríamos vendo adultíssimos especialistas diplomados summa cum laude em [s]Ociologia citando outros tantos adultíssimos especialistas identicamente diplomados a fim de legitimar, ética e moralmente, toda a barbárie anteriormente citada.

366. A Armadura da Persona -- Este peso todo que sustenho mais me prega ao chão da terra. Se ao céu eu quiser subir, devo abandonar o apetrecho da guerra. O eu quero descascar e as camadas todas arrancar, porque a casca consciente é superficial cicatriz do profundo inconsciente.

367. “A linguagem do universo é a Matemática”, alardeiam por aí os neo-pitagóricos. Uma ova que é! Até para adjetivar a funcionalidade dos números eles se valem de palavra e, mais, justamente da palavra que descortina o próprio significado da Palavra. A linguagem do universo é a Informação-Coordenativa. E só há informação quando há palavra dirigida, enquanto dado, para determinado fim; e só há coordenação quando há consciência dirigindo todo o processo. Eis o Verbo.  

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