sábado, 23 de janeiro de 2016

Esponjas de sol - XIII

368. Nós nascemos curvados sob o peso de uma carga genética que, misturada à nossa alma individual, nos lança no mundo já “contextualizados” na pré-história e na história da Humanidade. Nós nascemos vergados na psiquê -- marcados tanto pelas facetas dos nossos antepassados de sangue quanto pelas máscaras de toda a espécie humana. Só Deus, dando-nos consciência de nós mesmos, nos pode resgatar do determinismo da nossa carne. Só Deus, convertendo-nos a Ele, nos pode salvar da canga desoxirribonucleica do Pecado Original.

369. A árvore ou a madeira -- Sempre o sol há de subir para nos açoitar com seu mormaço. Então, poderemos encontrar uma grande árvore, com folhas largas e firmes, capaz de nos conceder sua sombra e, tão logo o dia se refresque, lá a deixaremos quieta para nosso eventual descanso em tempos futuros e também para o descanso futuro de outros homens -- presentes e vindouros. Mas, igualmente fugindo do calor, poderemos procurar um bosque de árvores menores, pequenas até, sob as quais se aninham os animais em busca de alento nos dias mais quentes, e derrubá-lo à machadas e, serrando e depois cortando toda a sua madeira, construiremos com ela uma ampla casa que nos abrigará apenas a nós sempre que por lá passarmos esbaforidos, mas que, tão logo o calendário cumpra seu tempo, ruirá apodrecida pelo natural desfazimento dos seus átomos ou comida por cupins famintos, porquê a vivacidade do lenho se perde com o fim da irrigação da seiva vital.

370. A retórica domina, manifestadamente, as altas instâncias do Poder Judiciário. Conforme a altitude hierárquica (os “graus”), mais distante está o querer do veredicto do querer da lei em si mesma. Lá pelas bandas de cima, a norma é geral e costumeiramente extraída da literalidade dos diplomas legais conforme a vontade de julgar do magistrado, ou seja, a legislação presta-se apenas ao papel de servir, subsidiariamente, à valorante idéia fixa que o juiz tem a priori do caso que ele julgará a posteriori. Daí, percebe-se claramente o substancial aumento das ferramentas de interpretação hermenêutica conforme se ascende às instâncias superiores. Que é hoje a Constituição Federal senão um livreto do qual se pinçam argumentos para serem sofisticamente ajustados à causa que se deseja arbitrariamente defender? Consultem-se os fatos: qualquer pequeno fórum do nosso bom interior caipira (o clássico: dotado de um juiz-bacharel tradicional, roliço e vaidoso; daqueles que lustram com o próprio bafo o anel de formatura) está mais apegado aos “códigos” que o próprio STF, onde domina o teatral voto-aula (cheio da conhecida complexidade das ladainhas pseudo-filosóficas), cuja verdadeira função é, sob as densas sombras de bizantinismos acadêmicos e doutrinários, instrumentalizar a letra legal objetiva (fruto, teórico, da vontade geral) em favor do inconfessável subjetivo (fruto, real, da vontade pessoal). Juiz justo? Só Deus -- justo juiz. 

371. Política: é a institucionalização (e constitucionalização) das taras e traumas dos políticos.

372. O homem deve aceitar o mistério -- e a impossibilidade de descortiná-lo -- como indispensável à sua sobrevivência psicológica no mundo. Dissecar mistérios é como arrancar à força de ácidos todas as tintas de uma tela com o intuito de analisar a química das tonalidades, quando o matiz é fruto não da interação entre os pigmentos, mas da composição criativa do espírito que ordena as pinceladas. O homem deve acatar o mistério, senão destruirá a si mesmo: será arrastado para o turbilhão da “dúvida indirimível”, devoradora do equilíbrio e da harmonia mentais que nos permitem conscientemente pensar. Quem tudo quer saber, não sabe que nem tudo se pode saber e que não saber tudo é o penhor do nosso animus vivendi

373. O discurso político é o discurso do interesse privado envernizado pela ilusão retórica do “bem coletivo.” O discurso político (sempre e sempre!) é a fala embusteira de quem quer se manter no poder a todo custo. Por isto, é a fala que sempre diz aquilo que o público-eleitorado ouvinte quer escutar. É sedução marqueteira. É sofismo publicitário. Lembro, a propósito, que o discurso político começou no Céu, com o diabo fazendo comício para aquela terça parte dos anjos que, com ele, acabou no inferno. Ah, Dilma! Ah, eleitores e apoiadores da Dilma! Mas... alguém ainda acredita em “virtude política”, enfim, que a política é um exercício de virtude? O pessoal lê Aristóteles e Platão e, bobamente, idealiza esta atividade como sendo a antípoda da “idiotia”, como sendo uma discussão de questões de elevada importância que, à moda grega, realmente efetiva a cidadania de um homem, dando-lhe liberdade física e mental, enfim, redimindo-o da escravidão e do servilismo que é o tratar diretamente das necessidades do corpo. Tolice e pieguice! Idiotia, meus bons filósofos, é bater palmas a qualquer filho da mãe que aceita estampar a cara num santinho. Idiotia é supor poder colocar no lugar do político tirano e corrupto um político libertador e incorruptível. Idiotia, às vezes, é não se “alienar” da parlamentação.  

374. Como Dom Quixote, apenas por Dulcinea e pela Liberdade eu levantaria a lança em riste. Por um povo que não merece que por ele se brigue, sequer cogito levantar um palito de dente. No dia do juízo darei conta apenas dos meus próprios moinhos e do Frestão que os encanta. 

375. PARA BELLUM -- A pedra, pequeno seixo de granito, corta o ar; vai se estendendo e afinando, se esticando e crescendo retilineamente; ganha corpo lenhoso e a ponta granítica torna-se sílex lascado; a flecha transpassa o ar; o sílex está polido e, pouco a pouco, se avermelha acobreado; amalgama-se flamejante com estanho brilhante; torna-se rijo bronze estatuário e já ascende com maior velocidade; pesa outra vez a ponta e, ferrosa, ela se afia; a madeira se vai enrugando e metalicamente se endurece transformada em chumbo ovalado; a bala atravessa pesarosa o ar, seguida por uma auréola de faíscas em polvorosa; todo o plúmbeo metal se vai encolhendo e em cápsula se encasula; o projétil rasga o ar; vai se dividindo e se multiplicando em gêmeas irmãs de igual peso e material; a rajada corta o ar; vai se comprimindo em energia; fundem-se todas, num abrir e fechar de olhos, e surgem como fino fio de luz cortante; o laser consome o ar; então, a pedra e a flecha e a bala e o projétil e a saraivada e o raio atingem, ao mesmo tempo, agora!, o coração dolorido de Abel.

376. Só é grande o amor que se demonstra diariamente através de pequenas gentilezas. Do contrário, temos aí ou um fenômeno de fixação sentimental (com os conhecidos altos e baixos: brigas e reconciliações sucessivas) ou paixão sensual que se esvairá tão logo se encontre o próximo e temporário “amor da minha vida.”

377. Vaidade é o vão que é supérfluo -- o superficial que flui para o nada.

378. “Hoje, o mundo procura um culpado para nele descontar seus problemas. O mundo sempre procura um culpado, não é mesmo?” Eis as palavras que encerraram o sermão do culto de hoje. Provavelmente, o bom pastor que as pronunciou nunca leu René Girard, portanto, não conhece sua teoria antropológica do Mecanismo da Vítima Expiatória -- o fenômeno do “bode expiatório”. Então, ainda durante o culto, lembrei-me comovido destas palavras do próprio René Girard: “O cristão comum poderá ter intuições muito mais profundas do que as minhas. Ele deve confiar que ele é uma pessoa importante para Deus e que o seu entendimento sobre a realidade como uma história religiosa é algo que agrada a Deus.” [20 de dezembro de 2015]

379. Quando nós pensamos em nós mesmos, nos vemos como sendo uma outra pessoa. O nosso eu parece-nos um terceiro: mais ou menos conhecido, para quem labuta nas minas do auto-conhecimento; desconhecido, para quem vive na superfície da persona

380. Horóscopo: copo de Hórus. 

381. Todas as religiões esperavam (algumas ainda esperam) por um salvador panacéico: um robusto herói-messias distribuindo ouro do seu rico saquitel sem fundo, um valente príncipe libertador de todos os jugos e opressões políticas, um guerreiro montado em pomposo corcel branco comando miríades de soldados especialmente adestrados para a guerra, enfim, esperavam um homem titânico ou semi-divino capaz de conduzir exércitos contra seus inimigos de carne e osso, capaz de inaugurar uma utopia terrena de leite e mel para os estômagos. Os judeus, esquecendo-se das antigas profecias, também estavam esperando por uma versão hebréia de Hércules. Entretanto, todas as expectativas foram frustradas: de dois pobres, nasceu o pobre Jesus. Nasceu na paupérrima Belém Efrata. Despido de toda púrpura principesca, não teve o berço esplendoroso que costumeiramente têm os filhos da realeza mundana. Não teve sequer o teto, alugado, de uma hospedaria suburbana. Foi ser ninado com os animais do campo, em manjedoura cheia de capim recém-cortado -- como um cordeirinho recém-nascido. Diplomatas e delegações régias o visitaram? Apenas pobres pastores de ovelhas, como que enxergando o Agnus Dei qui tollis peccata mundi. Apenas magos (não reis), eruditos que seguiram a brilhante estrela que anunciava a fulgurante Estrela da Manhã. Ofereceram-lhe reinos e tronos, mas ele não os quis. Ofereceram-lhe a oportunidade de sublevar Israel contra os romanos, mas ele não aceitou. “Meu Reino não é deste mundo”, dizia. Multiplicou pão e peixe para saciar a fome ocasional daqueles que o acompanhavam, mas advertiu que sempre teríamos os pobres entre nós. A glória dos homens não pôde se aproximar dele: viveu a vida de um operário sofredor e, quando “finalmente” o aplaudiram, humildemente montou num jovem burrinho. Ainda na cruz, jocosamente fingiram reconhecer sua majestade davídica: I.N.R.I, escreveram em latim, grego e aramaico. Coroaram-no também com espinhos. Afinal, morreu Jesus sem levantar a espada dourada e trovejante que os religiosos e revolucionários queriam ver, qual Excalibur, decepando a cabeça dos seus antagonistas. Por que? Porque não foi um homem que nasceu. Nasceu Deus. Deus feito homem. Compreendem, pois, a diferença?

382. Caravaggio fez Teologia com tinta.

383. Quando mais o mundo fala, menos diz alguma coisa. Não há significado no falatório das gentes. O “blá-blá-blá” se enche de vácuo. As palavras vão sendo cacarejadas em profusão, mas são vigorosamente ocas, desprovidas de qualquer sentido maior, são inférteis e contínuos espasmos de tagarelice. O melhor conselho que se pode dar hoje em dia é: Cala-te!

384. Uma vez existindo, não dá para o homem agir fazendo outra coisa senão bem ou mal -- quer dizer: aceitando a Criação ou negando-a através de sua corrupção. Em termos de possibilidades de ação, é impossível extrapolar esses pólos; sequer imaginar qualquer outra possibilidade, mesmo uma de tônus mais “neutral”. Ou fazemos bem ou fazemos mal. Ou somos bons ou somos maus. Então, espiritualmente, ou nos rendemos a Deus ou ao diabo. É por isso que existe apenas Céu e inferno, com suas gradações de galardões e penas, respectivamente: porque podemos ser mais ou menos bons ou mais ou menos maus. Não se pode ser outra coisa: não há alternativa. O homem, portanto, ou obra em favor do Bem (pró-ser, consubstanciado na Vida, logo, aceitador da Criação tal como Deus a idealizou) ou do mal (anti-ser, almejando o não-ser, referenciado pela Morte enquanto possibilidade de não-existência).

385. Se vós amásseis o menino de Belém, que menino neste mudo fome sofreria? Se vós amásseis o menino de Belém, que menino neste mundo dor padeceria? Se vós amásseis o menino de Belém, vós seríeis meninos diante do presépio!

386. Maior que Napoleão foi a parteira de Napoleão, porque ela não ajudou um imperador a nascer; ajudou um homem a nascer. Maior que Júlio César foi o jardineiro de Júlio César, porque ele não cuidou dos jardins de um ditador; cuidou dos jardins de um homem. Maior que Luís XIV foi o vinicultor de Luís XIV, porque ele não engarrafou vinho para um rei; engarrafou vinho para um homem. Maior que Alexandre Magno foi o padeiro de Alexandre Magno, porque ele não assou pães para um basileu; assou pães para um homem. Maiores que quaisquer governantes que já existiram na Terra foram todos os homens que anonimamente contribuíram para a nutrição da vida desses governantes; vidas que, diante de Deus, via de regra constituem-se em debochado escárnio contra a Imago Dei. Qual é a glória de matar e pilhar, erigindo impérios e reinos? Qual é a glória de ter a face cunhada em moedas de ouro e prata, depois sempre fundidas para tomar a imagem de outro homem? Qual é a glória de ser invocado nos monumentos e nos livros pelo nome-epíteto de Magno se no Céu não se alcançou sequer uma auréola de metal pobre e enferrujado? Sic transit gloria mundi... Glorioso, porém, é contribuir para que a vida natural seja normalmente vivida no mundo: e este é o motivo pelo qual o nome de alguém é pronunciado pelos anjos quando eles se põem a conversar.

387. Apenas o santo pode pecar seriamente. Apenas o santo (posto que homem consciente das “coisas visíveis e invisíveis”) pode pecar gravemente. Afinal, uma vez determinado a ceder à carne, ele pode escolher quando, como, onde e por que pecar. Nele sempre haverá dolo. O pecador ordinário, por sua vez, não passa de um mero enfermo submisso às incontroláveis pulsões da carne, de um comum leproso que tanto se atolou nas próprias iniqüidades que mal pode saber qual vício efetivamente deu origem à sua totalizante conspurcação espiritual.

388. Adão permanece calado e neste silêncio de língua pesarosa ele derrama seu furioso lamento aos pés da árvore: “Seca, maldita!”, pensa irritado. Anda de um lado para o outro, balançando ceticamente a cabeça e gesticulando ordenadamente com as mãos, como que organizando e minuciosamente investigando uma lista de causas e efeitos da mordida. Eva pela primeira vez sente no paladar o salgado essencial: são as lágrimas que abundantemente lhe rolam pela face, emergidas de um espírito já não doce de todo. Esmurra frenéticamente o tronco da árvore e, arrancando dela os frutos mais maduros, joga-os contra as amoreiras próximas; e grita, dezenas de vezes grita: “Odeio-te, fruto maldito!” A cobra, vitoriosa por lhe terem esquecido o primeiríssimo papel na sucessão dos fatos, ardilosamente escorrega pelo regato central do jardim e, através do canal que o liga aos quatro rios mundanos, chega à terra, ao lado de fora, de onde se põe a esperar seus futuros companheiros de exílio. Oh, miséria inefável!

389. Só quem escuta o suspiro mais ameno, só quem vê o sorriso mais inexpressivo, só quem degusta o sabor mais encoberto, só quem fareja o perfume mais delicado, só quem sente na pele o toque mais terno: só quem ama pode sentir o amor escondido.

390. Conforme se cresce em santidade, cresce-se em silêncio. Na virtude não há espaço para demonstrações performáticas de fé, que só pode ser vivida com a boca fechada ao falatório especulativo sobre as “coisas de Deus” -- inclusive o teológico. A saturação de milagrismo pirotécnico em certas igrejas outra coisa não é senão barulhento teatralismo pagão. A santidade é avessa ao histrionismo bufão e tagarela dos fariseus. Homem algum poderá ter vida pessoal com Deus se, ao mesmo tempo, pretender festeiramente contar ao mundo aquilo que o Senhor lhe segreda em intimidade. O silêncio é a oração do santo. O silêncio é o penhor da pacificação espiritual obrada pela conversão genuína.

391. Dos píncaros sentimentais da elevação espiritual às baixezas emocionais da degradação moral em poucas horas ou poucos dias: esta é a gangorra existencial do homem que tenta, com suas próprias forças, lutar contra o pecado. “Sem mim nada podeis fazer”, Ele disse.

392. As quatro grandes estruturas teológico-religiosas e o indivíduo

Budismo: O indivíduo deve se diluir completamente no Todo que é o Nada, porque a existência (o ser) é fundamentalmente ruim -- fonte de toda espécie de fardos, dores e sofrimentos. O eu não deve ser.

Islamismo: O indivíduo deve se conformar a um complexo de leis que lhe tolhe qualquer autonomia (mesmo a dos hábitos cotidianos), porque só se pode agir bem pela sharia, uma vez que a liberdade individual sempre dará vazão ao mal. O eu não deve ser o que é.

Hinduísmo/Espiritismo: O indivíduo não existe como entidade histórica una e única (concentrada), porque ele se compõe e recompõe (avançando e retrocedendo, progredindo e regredindo) através da reencarnação, que é impulsionada pelo karma. O eu nunca é um eu.   

Judaísmo/Cristianismo: o indivíduo deve aceitar a existência, vivendo-a integral e plenamente e, então, uma vez convertido pelo Ser Absoluto e resgatado de sua persona sombria, livremente deve ser ele mesmo (o si-mesmo). O eu deve ser o que é.

Qual delas lhe parece real?

[Nota: Todas as demais religiões existentes no planeta são variações dos três primeiros blocos]

393. Não queira ter opiniões sobre o besteirol ideológico que move os parvos deste mundo. Preocupe-se apenas com aquilo que afeta a sua estada na Eternidade. Todo o mais não passa de ar vibrando tolices nas cordas vocais. 

394. Quem ama não se enraivece quando é ofendido. Quem ama se entristece. Afinal, a raiva sempre se manifesta através de impulsos de violência. Pode, pois, ser violento quem ama? Não, não pode. Então, uma vez ofendido, fica-se triste: apenas o coração amoroso se retira para os cantos quando é machucado.

395. A oração do Kyrie é a síntese de todos os gemidos humanos. Nela estão condensados todos os nossos suspiros, todos os nossos anelos, todos os nossos pedidos. Tudo (toda a peleja espiritual humana) se resume a rogar por piedade Àquele que é Senhor -- o Cristo.

396. Todas e cada uma das invenções técnicas e tecnológicas que a Civilização Ocidental produziu durante estes dois mil anos sempre foram, simultânea e imediatamente, assimiladas ao “cotidiano doméstico” contemporâneo de seus povos; ou seja, acostumaram-se existencialmente com cada etapa gradual de acréscimo funcional e aperfeiçoamento modificativo que se foram somando a determinado invento (ou descoberta inventivamente instrumentalizada), orientando sua progressiva evolução estrutural e, ainda, preparando psico-culturalmente o terreno para a inevitável expansão de um modelo de vida fundamentalmente dependente de “apetrechos facilitadores” -- cujo boom irreversível (fiat machina!) veio com a Revolução Industrial. Então, quando nós vemos e usamos qualquer objeto produto desta nossa Ciência, nós não o vemos e usamos com aqueles brilhantes olhos de estupor mágico que os povos mais atrasados manifestam diante de qualquer aparelho por eles desconhecido. Mais: nós tão somente utilizamos qualquer aparelho para determinado e específico fim porque, geralmente, via de regra, nos acostumamos a usá-lo conforme a intenção criadora de quem o idealizou, dada a acima referida “normalização temporal”. Percebem, pois, no que dá entregar uma conta no Facebook e um forno de micro-ondas a um bárbaro líbio cujo estágio de evolução técnico-cultural é inferior até ao de Átila?

397. Nós esperaremos com esperança por cada novo amanhecer. Por mais que pensemos conhecer as leis físicas que controlam o movimento dos astros, nós nunca deixaremos de olhar para o ir-e-vir do sol desacreditando desta verdade: ele só rodopia no firmamento por que Alguém quer. Então, enquanto a aurora se renovar no ocaso e a claridade do dia se manifestar também nas trevas noturnas, esperançosos nós esperaremos pela luz -- pelo caminho guiado no tempo.

398. Os calendários não trazem novidades existenciais. Os dias passam e se acumulam em semanas e depois em meses e, então, se fecham no ciclo dos 365 dias que contabilizam um ano. Esta é a convenção científico-social. Portanto, por si mesmas estas “marcações” de fins que principiam e começos que terminam não significam muita coisa: hoje é 31 de dezembro e amanhã será 1º de janeiro. Elas (as marcações) apenas adquirem significação por que o homem, mirando o tempo utilizado por sua respiração, resolve fazer suas contas com o passado e, avaliando o presente, decide marcar data para mudar a vida ou mudar de vida, pontuando rumos mais definidos (e geralmente mais esperançosos) para o futuro. Assim, as datas se tornam acontecimentos verdadeiramente “litúrgicos”, propícios para um íntimo ou público cerimonial de juramentos para os dias que virão após elas. Eis o que acontece com o nosso “ano novo”. A rigor, como já dito, trata-se de uma simples alteração numérica na contagem das décadas, séculos e milênios. Mas, é só isso? Não, não é só isso. Vai além se, uma vez decididos a uma nova atuação existencial, a celebração do ano novo para nós se converte em possibilidade de reformas: novo planejamento, nova tentativa, novo impulso, nova alternativa, novo [re]começo. Desejar “feliz ano novo” é desejar “feliz oportunidade”.

399. No passado os amores geravam suas relíquias. Flores que as meninas guardavam entre as folhas dos livros e diários; e cujas pétalas, secando, permaneciam intactas na cor. Mechas de cabelos que os meninos guardavam em seus baús de tesouro pirata; e cujos fios, afinando, permaneciam intactos na cor. Botões sem terra e cabelos sem cabeça que retinham ainda (décadas após) a tonalidade original quando já a seiva e a melanina tinham abandonado o jardim e a pele de onde tinham sido arrancados. As cartas, escritas com esmerada letra caligráfica, eram particulares mas oficiais declarações que mereciam gavetas especialmente destinadas para acomodá-las, como se pergaminhos de Alexandria fossem. A menina ia em excursão com as amigas até a praça da igreja, onde, no jardim principal, erguia-se o tronco-obelisco no qual o cavalheiro esculpira o nome do casal envolto por um coração de linhas tortas atravessado por uma flecha igualmente torta -- amor reto, porém. O menino ensaiava um discurso engrolado e pedante, mas sincero, para, com buquê e anel, pedir solenemente a mão de sua querida ao pai dela, enquanto os amigos ensaiavam serenatas espanholas ao pé da janela, esperando pelo protocolar “sim, eu os abençôo”. Meninos e meninas que eram adultos, porém: eram homem e mulheres. Coisas do amor ingênuo e algo religioso de antanho, quando, mais inocentes, acreditávamos que pegar na mão e trocar beijos comedidos eram as maiores ousadias entre enamorados que esperavam pelo altar.

400. A música tirada das gaitas de foles sempre me pareceu mágica. Ouvi-a pela primeira vez aos cinco anos de idade. Que toque trevoso e iluminado era aquele? Que instrumento era capaz de unir assim as penumbras de um som antigo às luzes do meu espírito de menino cheirando a leite? Era como se um cabrito multi-centenário mas recém-desmamado berrasse, elegantemente afinado, cantigas de terras distantes e tempos longínquos. Até que um dia descobri: o fole é feito de pele de cabrito. É escatológico que a pneuma humana assopre através de um cabrito imolado e ele berre “Gu bràth!”

401. Alguns poucos homens são inatamente incapazes de viver o meio termo de mediocridade inofensivamente cambaleante entre o Bem e o mal que pauta a existência acional da grande maioria da humanidade. Eles só podem ser santos do Senhor ou aristocratas do inferno. Nasceram polarizados: ou dedicam-se com espírito, alma e corpo às virtudes ou aos vícios. Assim, eles se integralizam apenas num dos dois arquétipos morais, ou seja, são modelos existenciais quase que “puros” de uma das duas [únicas] alternativas metafísicas: a Vida ou a morte.

402. Toda susceptibilidade, tirânica por natureza, surge de questões mal resolvidas -- geralmente, da função inferior da personalidade, irrigada pelo inconsciente. Toda pessoa demasiadamente arisca e ciosa de seus calos e pontos frágeis está, portanto, amedrontada consigo mesma. Descontar nos outros é apenas um mecanismo de defesa.

403. Se a existência te atordoa como outrora te atordoava o girar louco do Chapéu Mexicano no parque de diversões, é bom sinal. Sinal de que o giro louco do planeta te comove as entranhas de adulto, enquanto a maioria daquelas crianças que contigo berravam no brinquedo infantil está, inamovível como as linhas de Nazca, presa no eixo do [auto]conformismo. Apenas os ébrios de álcool e os que muito pensam não se apercebem do rumo dos próprios passos e, suspensos da gravidade newtoniana através da gravidade espiritual, dão de cara com as paredes do mundo. Mas, atenção! Se deixarmos a queimadura vingar sua dureza no nosso barro, viramos tijolo. Se deixarmos o ambiente cinzento destilar sua temperatura coagulante no nosso pó, viramos cimento. Se deixarmos aos outros a missão de organizar nosso livre caminhar, o pedreiro coletivo nos transforma em parede. E há coisa mais presa ao chão raso e mais entranhadamente neutra no balançar dinâmico dos entes do que uma parede? É certo que quem, já atordoado pela existência, tromba com uma parede fica irremediavelmente mais atordoado. Porém, pode-se trombar até que ela caia; até que ela caia como caíram os ímpios paredões de Jericó. Regra áurea: cabeça nas nuvens em muro de “realidade” tanto tromba até que derruba. O atordoado é, antes de tudo, um vivo.

404. Quando os velhos gritarem e os jovens sussurrarem, quando a noite dourar-se e o dia em negror dormir, quanto as lesmas correrem e os coelhos se arrastarem, quando o poeta entregar-se e o soldado versos esgrimir: a trombeta de prata soará e o universo em paz se desfará.

405. Psicanálise das avózinhas: misérias atrozes que um pouco de chá e um bolo de nozes resolvem já.

406. O edifício cultural erigido por uma fé dá conta do valor de sua base metafísica, enfim, de sua realidade transcendente frutificando no imanente -- “Pelos seus frutos os conhecereis”, afinal. Então, em qual regaço de liberdade teológica superabunda belamente a música, a arquitetura, a poesia, a literatura, a dança, a escultura, o teatro e a pintura?

407. A Religião é tão monumental no invisível que levanta monumentos visíveis mesmo quando seu “caldo espiritual” é instrumentalizado pelos descrentes mais renitentes e ranhetas, hipocritamente crentes num falso gênio criador emancipado do espírito imortal. Sequer a moderna “l’art pour l’art” subsiste autônoma: consciente ou inconscientemente, ela sempre toca na orla das vestes da religiosidade que, costumeiramente, nega. Afinal, não existe e jamais existirá um “Simbolismo Laico” e não existe e jamais existirá Arte que não se expresse através de símbolos -- sempre e sempre fundamental e originalmente religiosos na sua fonte criadora. Logo, ao artista descrente só resta optar por uma das duas únicas vias antagônicas deste simbolismo: o positivo (que é o da divindade -- boa) ou o negativo (que é o da anti-divindade -- ). Se sua relação pessoal com a religião é de dúvida sincera (que o mantém ao menos cultural e socialmente ligado aos valores comuns de uma fé), geralmente o artista optará por criar através do simbolismo positivo. Se sua relação é beligerante e traumaticamente ideológica, enfim, antagônica à religião em si, o artista se valerá da simbólica negativa, que é aquela que, desde o âmago da própria estrutura religiosa, faz guerra a Deus, logo, é de temática satânica. A impossibilidade de se criar um simbolismo neutro reside justamente na impossibilidade de se criar símbolos sem valor anterior que os defina, dado que o ser humano não é capaz de criar valores ex nihilo -- eles simplesmente existem aderidos ao Bem ou ao mal.

408. O diabo é muito menos poderoso do que se imagina por aí. Ele é um espírito fraco que se utiliza de homens espiritualmente fracos, mas ainda assim substancialmente mais “fortes” do que ele por serem espírito-alma-e-corpo atuantes-na-existência, ou seja, por agirem diretamente sobre a Criação (atividade da qual ele é incapaz).

409. Versos para um repente sobre a Parúsia: Quando o Senhor descer à Terra / Trará todo o Céu consigo. / Dará fim à luta e à guerra, / Tirará do homem o umbigo.

410. Não é preciso “falar sério” sobre o que é sério. Antes, é preciso alegrar-se à beça quando se fala daquilo que é realmente sério. Idéias que não se podem tratar com “felicitude” não são dignas de seriedade -- que é um respeito digno à [possibilidade da] realidade. O bom humor é seríssimo. Quando se fala do Céu, p.ex., alguns teólogos logo põem uma máscara de sisudez de velório para tratar “respeitosamente” (com as honras próprias de um funeral de chefe de estado, quero dizer) de um assunto que é, antes de tudo, o maior, o mais doce e o mais retumbante motivo para um homem sorrir com o espírito, rir com a alma e gargalhar com o corpo até lhe doer a barriga: Deus, conosco pela Eternidade. Só confunde reverência com “cara fechada” quem nunca recebeu um carinhoso cafuné do Painho lá de Cima.

411. Serão as “línguas estranhas” o idioma do Éden?

412. O único empirismo confiável é o empirismo laboratorial da alma.

413. Ideologia é uma redoma de vidro grosso e blindado que cobre e protege cacos finos e quebrados.

414. O amor que vale a pena -- Só vale a pena se não estiver à disposição nas vitrines dos açougues de grife, se o “dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três” dos leiloeiros não puser preço, se equipes de marketing não trabalharem para dourar a pílula, se não for a última tendência das modas morais, se não estiver encastelado nas nuvens de fumo dos cabarés, se os estudiosos o desdenharem taxando-o de sentimentalismo piegas e barato, se as multidões o considerarem demasiado cerebral e frio, se se puder tê-lo como quando se toma a água da chuva direto no copo, se tudo se consumar no silêncio rural das casas de campo e das grutas praieiras, se ele se alternar entre os remansos diurnos e as tempestades noturnas, se as últimas rugas forem beijadas como as primeiras, se um amém piedoso for dito no altar, se a casa se encher de crianças correndo pelos longos corredores rabiscados, se a imensidão dos oceanos e o pico das montanhas não forem o motivo maior de se perder a fala, se poemas infantis destronarem os sonetos shakespearianos, se o comum for incomum e a rotina prorromper em explosões de encantamento, se bolo de chocolate e suco de limão nas tardes de sábado substituírem os petiscos e o álcool das noites de sábado, se imperceptivelmente se conversar horas a fio dando sentido à teoria da relatividade, se a gargalhada for tão espiritual quanto o sorriso, se o lar for o sacrário da verdade plena e aberta até aos ouvidos dos vizinhos, se as bodas sucessivas prescindirem de anéis equivalentes mas não de promessas e juras outras vezes repetidas, se os domingos forem consagrados ao Senhor, se não se olhar para os lados não porque não há o que ser olhado ou não se deve olhar mas porque simplesmente não se consegue olhar, se os grãos de sal das mútuas loucuras forem venerados, se no final estiver um porto azulado aquecido pelo sol da face de Deus.

415. A periculosidade intelectual de uma ideologia pode ser medida pela quantidade de palavras do vocabulário médio do homem comum de sempre que ela nega. Ideologias costumam colocar palavras em desuso de significado, inutilizando-as semântica e ontologicamente. O Socialismo, p.ex., nega os pronomes possessivos que toda criança pronuncia acerca dos seus brinquedos tão logo sua língua se equilibra com o cérebro.

416. Dá-me, Senhor, a graça de passar pela vida despreocupado das ocupações que movem os poderosos da terra. Dá-me, Senhor, a graça de ser como o camponês que por milênios lavrou suas plantações às margens do Nilo, enquanto as dinastias e as pirâmides se sucediam em esplendor e ruína. Dá-me, Senhor, a graça de ser como o carroceiro que por milênios trafegou pelas estradas romanas, enquanto os césares e os coliseus se sucediam em loucura e crueldade. Dá-me, Senhor, a graça de ser como o aldeão que por milênios carregou o esterco dos cavalos dos reis e príncipes do mundo, enquanto eles se assassinavam nos campos de batalha. Dá-me, Senhor, a graça de ter a perene ocupação dos homens que valentemente ganham o pão de cada dia, desdenhando os troféus e glórias que agitam o coração dos senhores. Dá-me, Senhor, a graça de ser como os pastores, como os ferreiros, como os estalajadeiros, como os lenhadores, como os pescadores, como os carpinteiros, como os oleiros, como os jardineiros, como aqueles trabalhadores cujos pensamentos criadores sempre estiveram depositados na obra das próprias mãos. Dá-me a graça de ser imperceptível aos olhares dos que governam, dos que empunham cetros, dos que cingem coroas, dos que se assentam em tronos e têm as efígies estampadas. Dá-me, Senhor, a graça de passar pela vida despreocupado das ocupações que movem os poderosos da terra.

417. No final das contas, tudo se resume à velha peleja entre o Bem e o mal. Todos os pensamentos, sentimentos, percepções e intuições humanas movem-se (por maiores que sejam seus complexos desvios e falsos caminhos alternativos) em direção a Deus ou em direção ao diabo, em direção ao Ser ou em direção ao anti-ser-que-não-quer-ser. Vida ou morte -- eis o este termo de todo o mover humano.

418. Vós não estais conscientes da vida. Se estivésseis, vós saberíeis quão grandioso é o vosso espírito, quão poderosa é a vossa alma, quão potente é o vosso corpo. Vós não estais conscientes da vida. Se estivésseis, vós seríeis humanos o suficiente para amar a Humanidade como o próprio Deus a ama, a ponto de tornar-Se pequeno, fraco e impotente no espírito, na alma e no corpo -- como vós tendes sido.

419. Que maldita idéia saída do miolo mole de qualquer filósofo niilista é capaz de fazer uma criança sorrir? A alegre inocência dos pequenos é a pedra de toque de toda e qualquer filosofia. Só nos presta intelectualmente aquilo que, na vida adulta, nos puder manter feliz e radiantemente ligados à Realidade. Só nos presta humanamente aquilo que, na vida adulta, não nos negar o gozo e o júbilo da infância. 

420. Uma das grandes belezas do amor entre um homem e uma mulher consiste na sua dupla “hierarquia”, que se anula e funde em pura igualdade: quem ama faz-se “servo” da pessoa amada, logo, amando-se mutuamente, ambos são ao mesmo tempo “senhores” e “servos” -- iguais, pois.

421. A Verdade não precisa ser atraente. Pode ficar quieta e silenciosa no canto, mas sempre estará presente: ela “incomoda” por si mesma. É a mentira que precisa se embelezar, se encher de balangandãs retóricos, enfim, se adjetivar com “luzes” para seduzir quem se deixa seduzir por versões trevosas da Realidade.

422. A memória é a nova chama do velho Prometeu.

423. Fato inquestionável: nós amamos a Deus. O problema: nós também amamos outras coisas -- coisas indignas de amor, coisas contrárias ao Amor.

424. Quantos pecados meus não foram trampolins para a santidade? O pecado é uma oportunidade de santificação.

425. Apenas pessoas que não se relacionam sentem-se solitárias e ficam entediadas. O relacionamento está na base do ser. Deus, por isto, jamais ficou entediado ou se sentiu solitário (como dizem alguns teólogos): Ele se relacionava, intra-e-entre-Si, desde a Eternidade. O relacionamento está na estrutura do próprio Ser.

426. Com uma só nota musical, através das marcações de tempo, pode-se compor infinitamente. Com duas notas, pode-se compor eternamente; compor eternamente e, ainda, gerar outras notas. Eis o que é o amor.

427. Amarra meu pé direito com uma corda -- corrente de seda ou fio de ferro -- e então ata-a a um balão cujo gás seja o sopro de um anjo ou a tosse de um sábio. Leva-me a mais alta montanha da terra e, de lá, solta-me em direção ao sol mais dourado do dia. Espera. Voltarei quando a lua mais fulgurante caiar de prata a terra noturna. Quando o balão se aproximar da montanha, apanha o teu arco feito da madeira antiga de uma harpa grega e mira a flecha, o osso esmerilhado de Adão. Acerta o balão e vem me receber no cume. Contar-te-ei, então, a verdadeira História da Humanidade. Principia com “Era uma vez” e termina com “E viveram felizes para sempre.”

428. Ouvi hoje: “Beleza não põe mesa, mas ajuda a digerir.” Recordei da feiúra retorcida do bacon tostado e da lindeza estética do coração da alcachofra. Oh, deliciosa fealdade! Suma: Não usarás metáforas gastronômicas para justificar tuas congestões amorosas.

429. Deixa o galo subir o Everest e fazer o dia do mundo, João Cabral! Um galo solitário que suba (sem saber) no topo do planeta e cante (sem ser ouvido) por todos os outros galos. Deixa o pobrezinho cantar e, depois, sentir que o alvorecer da luz independe dele!

430. O que é o Homem na Eternidade, Senhor? Um coração inquebrável palpitando sem parar uma mesma verdade irrepetível? Um cérebro indestrutível faiscando sem parar uma mesma verdade irrepetível? Um tempo em que todo instante é interminavelmente etéreo? É o pé caminhando trilhas sem começo nem fim? É o olho mirando o movimento estático do relógio de areia, quando já não existem desertos e tudo é oásis? É ouvir sinfonias que Beethoven teria composto se tivesse vivido um milênio? É admirar os quadros que Van Gogh teria pintado se tivesse vivido dez milênios? É tocar nas estátuas que Rodin teria esculpido caso dominasse a coagulação da matéria original? Uma liberdade tamanha que escolhe não mais escolher o Mal? Uma alegria tamanha que extravase gargalhadas sônicas no vácuo sideral? Uma significação tamanha que aniquile a vacuidade que nos acompanha desde as cavernas? O que é o Homem na Eternidade, Senhor?

431. Ódio religioso e ódio à religião vazam no mesmo esgoto: o medo de estar errado.

432. A Igreja está postada às próprias portas. Afinal, ela não é apenas a Noiva de Cristo, que marcha no tapete vermelho da Eternidade para as Bodas. Ela é também a porteira de Sião. Então, é antes porteira de si mesma -- do seu átrio, da sua nave, do seu altar. É a porteira da embaixada do Céu na Terra. Por isso, a Igreja vigia às suas portas para que as portas do Inferno não prevaleçam, como disse o Cristo. Todo cristão é chamado a ser porteiro. Todo porteiro tem uma chave. Não a vês, tão dourada e preciosa? Não a vês, tão opaca e singela? Eis a cruz!

433. O Ser criou o ser para que o ser parisse o Ser.

434. Deus gerou o Homem no útero do Tempo. Até que um dia apareceu Maria, gerando a Eternidade no ventre humano. 

435. Não terás medo de ter medo, nem terás medo do medo do teu próximo. 

436. Antigamente, quando as guerras eram uma constante na vida masculina, os homens costumavam exibir, como verdadeiros troféus, as marcas e cicatrizes que ganhavam nos campos de batalha. Hoje, na falta de conflitos bélicos mais geográfica e etariamente “generalizados”, eles se gabam dos infartos a que sobreviveram; cheios de orgulho, mostram os rasgos do bisturi como se fossem ferimentos resultantes das espadas, baionetas, tiros e estilhaços da guerra. A questão latente é que, mesmo que os tempos sejam outros, um homem nunca deixará de se orgulhar de ter sido ferido e ainda estar de pé. Pelejar contra a morte (contra o aço e a pólvora ou contra a gordura nas coronárias) e sobreviver trazendo no corpo as marcas do corajoso combate equivale a ser condecorado, summa cum laude, pela vida. 

437. Se olhares para perto, verás coisas que te parecem distantes. Os pequenos gestos do grande amor, sobretudo. Verás que por detrás das mansas repetições da rotina encontra-se o carinho que se renova permanentemente. E queres, oh alma ingrata, as mais aberrantes explosões emocionais! Percebes os levíssimos sorrisos diários daqueles que visceralmente te amam? E queres, oh alma desnaturada, a algazarra das gargalhadas corporais, as quais atribuis sinceridade maior! Olha ao teu lado. Olha e compreenderás que os distantes é que exageram expressões de afetos -- afetos não sentidos, afetos que são “modos”.

438. Por que nos irritamos com o próximo que erra contra nós simplesmente por ser tão falho quanto somos e não nos irritamos com o próprio Satã, aquele que nos induz a pecar e, vinte e quatro horas por dia, labuta para que com ele dividamos seu condomínio infernal? De acordo com a terminologia militar, isso se chama “fogo amigo”.

439. Está aí o planeta girando, afetado pelo sol e pela lua e por todo o cosmo. As sementes que nele semeamos são, naturalmente, afetadas em seus ciclos de germinação, crescimento, floração e frutificação pelos ciclos astronômicos. Então, resta a pergunta: é-me lícito crer no aldeão que sabiamente olha para a lua (se nova, crescente, cheia ou minguante) antes de trabalhar sua terra ou é melhor acreditar no ateísmo ontológico da Monsanto, que laboratorialmente despreza a constituição real e o tempo propício das coisas?

440. Desconfia muito de quem muito desconfia.

441. A idade deforma toda beleza que se expressa através da vulgaridade.  

442. A dialética da ideologia: o perseguido perseguirá, o oprimido oprimirá, o atacado atacará, o violentado violentará, o torturado torturará, o ofendido ofenderá. Dentro da estrutura pagã de justiça, quase impossível que a vítima não se torne bandida na busca do revide. Apenas o Cristianismo quebra este ciclo de crueldades (expondo toda a estrutura psicológica de causas e efeitos da agressão) ao propor: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”

443. O peixe no pão: Cristo na palavra. Ichthys é Logos. Os cestos: os altares e púlpitos.  

444. Quando citam textualmente as Sagradas Escrituras, os católicos valem-se de vírgulas (,) como que apontando uma hierarquia entre capítulos e versículos e indiciando a idéia de sucessão teológica externalizada, logo, de acréscimos contínuos e dinâmicos à Revelação. Não é esta a base de toda Tradição Católica? Os protestantes, por sua vez, usam dois pontos (:), como que pondo em igualdade capítulos e versículos e pontuando a idéia de comunicação fixa internalizada, logo, de permanência no já Revelado. Não é esta a base do princípio reformado da Sola Scriptura?

445. Não precisamos de mais professores de religião e teólogos. Nós os temos em excesso; um excesso vulgar que tediosa e cruélicamente corrompe o Mistério. Faltam-nos profetas e místicos. Faltam-nos muitos profetas e místicos que, em proporção, hão se ser poucos diante das multidões do mundo; uns poucos que se devotem a nos falar do Mistério sem torná-lo enfadonho (com giz e lousa) e dissecável (com equações e silogismos). Pode-se falar e especular muito de Deus sem conhecê-Lo.

446. Os homens convergem no comportamento e divergem no pensamento. Ora, qual é a religião e/ou filosofia cujo “pensamento teórico” se baseia neste comportamento convergente, enfim, está unido à realidade a todos comum? O Cristianismo! Todo o resto se assenta sobre paralaxe cognitiva e dissociação.

447. Quase todo ateu ideológico é teomaníaco.  

448. O Comunismo foi escrito com o sangue negro do diabo para derramar o sangue vermelho do Homem. Ler os escritos de Marx é ler os contos da carochinha que a Serpente sibilava nos ouvidos de Eva. 

O que aprendi com Jung


Estes vultos que esperneiam no íntimo,
Fantasmas que nos chamam pelo nome,
São os nossos eus no escuro esquecidos.
Sibilam silvos e gritam ais no tímpano,
Perguntam sobre os vícios mortos e idos.
São as sombras que ainda gemem fome. 

Para minha lembrança [parte 2]

Não vá contar aos outros
Os teus ideais de criança.
Deixa tudo ser lembrança
No baú dos antigos ouros.

Os sonhos mais queridos
Nós deixamos sombreados,
Como as nuvens escuras
Guardam os luzidos raios.

Se soubessem o mistério
Que teu coração constrói,
Não te diriam impropério,
Sequer a palavra que dói.

Os anjos serão bons aios:
Carregarão as estruturas
Dos teus planos dourados,
Ainda no berço sonhados. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Para minha lembrança

Sê sutil, pequeno sonhador.
Sutil como a aurora morrente
Que traz ainda o lastro da noite.
Sutil como as folhas invernais
Que caem frias solenemente.

Por que haverias de berrar
Diante dos homens do mundo?
Sê sutil como os monges calados,
Que percorrem dolorosos valados
Sem resmungar um só chiado.
Faz da tua boca um altar.

Sê sutil, moço de velha fronte.
Sutil como o pardal transeunte
Que sendo pobre escapa do bote.
Sutil como os lírios celestiais
Que a mão de Deus fia no monte. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Dadaísmo Significante -- I

[exercício de versificação]

Saltimbancos assaltam bancos
Nas ruelas rudes da Venezuela.

Tolo é o estupor de supor poder
Por susto no estúpido rei surdo.

Anátema contra seres animados!
Amálgama das reses dos pobres.

Perdizes perdedoras asseguram:
Mentes a dor e agrura que dizes!

Collor coloria frascos de colônia.
Eu colava cacos e ria dos fiascos.

Mortificai as vossas carnes cruas.
Cruel e nua é a tosse de Mordecai.

As imensidões solitárias regulam
As medidas e réguas do sol sicário.

Extraviaram-se as malas velhacas
Das vacas de talas extravagantes.

Normalizada a situação, o sítio
De azarada sorte acionou acintes.

Advogados rogam pela revogação
Das togas inadvertidas em voga.

Conselhos novos aos cílios e sírios
Que se queimam nos velhos círios.

Debulhar as bruxas em fogueiras
E burlar os trouxas das frias eiras.

Silêncio no cio dos entes silvícolas:
Eles reverenciam dentes e incêndios.

Acordei de um sonho que ardia
Acordes de Nárnia no coração.

A doçura de Mariana amargou.
Mara agora é o nome do açude.

Sem marcas nem cartas rápidas,
O marquês escrevia glosas áridas.

Berravam os menestréis as estréias
Dos aberrantes pastéis da Benfica.

O buraco no chão e o vácuo no alto.
Asco de pão chamuscando no álcool.

Entre o lirismo e o cinismo ele morreu,
Entregando um lírio roído ao mulherio.

Farto de pão, amassou farpas afiadas
E assou dardos nas brasas das harpas.

Dona Maria será martirizada em Marte:  
Seu Mário faz serão nas nuvens de Vênus.

Se um piano piar quando a lua sumir,
Debussy se arrepiará no dia sem ano. 

Robinson Crusoé quebrou o velho oboé azul
Do filho de Roberto perto do Cruzeiro do Sul.

Stat crux

A terra está fixa, senhores.
Esquecei do signore Galilei.
Ela está presa pelos pregos
De uma cruz de 300 libras.

O planeta está fito, Hubble.
Esquece dos astros do céu.
Ele está preso pelos cravos
Forjados nas minas ocultas.