quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Testemunho

Meu coração de menino sempre matutava tolices tão sérias que eu me cria adulto já aos sete anos. Eu era (e ainda sou) um zé-mané, eu sei. Por que, então, pensava estas coisas sobre “Como eu vim parar dentro de mim?” ou “Quando o homem pensa em deuses os deuses de fato começam a existir.” Tolices, eu sei. Talvez tomar Biotônico Fontoura depois do danoninho criasse estes insights. Talvez comer batata frita com chocolate criasse ares de dupla natureza: intestinos e intelectuais. Mas, o certo é que eles (os “pensamentos estranhos”) me pareciam as mais fenomenais e misteriosas idéias que um homem poderia ter lhe atormentando e maravilhando, simultaneamente. Por que ter na mente questões metafísicas ao despertar, repentinamente, de um excelente sono infantil? Por que estar empinando pipa no sítio ou jogando bolinhas de gude e, então, de repente, achar-se divagando acerca do Ser? Por que tantas noites de sono sofrivelmente perdidas apenas para debater comigo estas perguntas que dificilmente têm boas respostas? Por que não dava vazão à águia caçadora durante as partidas de futebol ao invés de querelar, feito coruja piadora (um piá tem que piar, oras), com os outros jogadores acerca dos fundamentos racionais do que é torcer por um time? Que chato eu era: toda criança fica insuportável quando suas interrogações podem zunir nos ouvidos alheios sob o formato de “por que?”. Que chato eu sou: continuo perguntando, mas sem importunar tanto como outrora. Porém, melhorei muito: meu coração de adulto ainda matuta tolices tão sérias que eu ainda me creio um menino de sete anos. Dezenove anos depois eu sei que qualquer um pode pensar qualquer coisa e que a vida é tão boa e tão gostosa que não saber o que se gostaria de saber é um dadivoso presente de Deus. Acato e aceito os mistérios como acatava e aceitava que as estrelas cadentes eram anjos brincando de pega-pega, como me contava (sem me iludir) meu avô. 

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