segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Esponjas de sol - XIV

449. Certamente é herege o homem para quem tudo é heresia.

450. Não há processo de secularização (a-religiosa, teoricamente) que não produza profanação (anti-religiosa, factualmente).

451. Perguntas a um jovem político “promissor”: Plantarás e colherás o trigo ou o taxarás? Criarás cavalos ou mandá-los-á à guerra? Serás padeiro ou assarás a carne do povo? Correrás no haras ou marcharás no desfile? Comungarás na igrejinha ou usarás ópio? Escreverás poesia ou discursarás à massa? Ajoelharás no teu quarto ou no parlatório? Lerás livros antigos ou manifestos atuais? Dançarás com ela ou rodopiarás quadrilhas? Criarás filhos ou terás descendentes genealógicos? Aprenderás tango ou sapatearás publicamente? Acrescentarás dourado ao brasão ou ouro ao cofre? Terás o nome escrito no Livro da Vida ou no panteão da pátria? Pensarás nas futuras gerações ou nas futuras eleições? Ganharás medalhas de xadrez ou comendas estatais? Ensinarás moral silenciosa ou ética estridente? Cantarás no chuveiro ou decorarás jingles? Pagarás teu caixão ou os impostos dos pobres o farão? Assoviarás aos pássaros ou às embaixatrizes lascivas? Dormirás tranqüilo ou terás pesadelos partidários?

452. Tu não te achas tolo? Pois eu me acho tolo. Mais: sei-me tolo. Profundamente tolo. Visceralmente todo. Inquestionavelmente tolo. Um homem tolo gerando sua tolice -- cheio de parvoíces, pleno de chocarrice. Um austero bufão, um pomposo bobão regado de azedume e orgulhoso dos seus rasos cumes. Todo homem é tolo, é débil. Sou tolo, sou débil. Bendito seja Terêncio, que me consola ao por nua sua tolice: “Sou um homem: nada do que é humano me é estranho.” Existo, logo sou tolo. Tu realmente não te achas tolo? Eu me acho tolo, romanticamente tolo.

453. Política é disputa por poder. E quem disputa poder torna-se por ele obsessivo, irremediavelmente. Não começou tal disputa quando do putsch de Satã? Poder é a suprema obsessão maligna. Não é lícito ao cristão disputar poder. Afinal, para obtê-lo e mantê-lo sempre será necessário valer-se de ardis trevosos... Quem disputa poder, disputa domínio sobre os outros; e apenas quer dominar os outros quem é dominado pelo mal. Uma fé verdadeira jamais se refestelará na pocilga da realpolitik.  

454. Teus passos provocarão espantos. O mundo quer gritos, não cantos. Caminha em direção ao horizonte e descansa, dorme sobre o monte. Constrói catedrais de oração e fé, dilata o império da luz, sobe a pé em direção às nuvens que águam o deserto onde as vidas mínguam.

455. Senhor, dai-me a graça de amar apaixonadamente o mundo, amar o leproso e beijar o imundo, amar o doente, o preso e o caído, amar servindo a todos os homens.  Amar o pobre que grita com fome, amar o desesperançado que some, amar o bêbado que não tem nome, amar desgastando-me pelos homens. Amar quem não merece ser amado, amar o louco que grita desvairado, amar o bandido, o réu abandonado, amar orando por todos os homens. Amar o solitário que não tem amigo, amar o maltrapilho, o pão sem trigo, amar o brutal com amor mais meigo, amar sacrificando-me pelos homens. Amar em nome do Cristo crucificado, amar até esquecer-me e ser abraçado, amar até ser pelos reinos condenado, amar labutando por todos os homens. Senhor, dai-me a graça de amar!

456. Deus não é mágico. Milagre não é passe de mágica. Milagre é a ação de Quem tudo pode dentro de um sistema onde não se pode tudo.

457. Perdoa-me, Pai, porque sou fraco. Fraco como é fraco o pé sem par do seu Zé, que toda vida passou na cadeira de rodas. Faz-me forte como foi forte o pé de São José, que passou a fronteira e caminhou valoroso até o Egito. Sou fraco como é fraco o muro de arrimo do quintal do meu primo. Faz-me forte como foram fortes as muralhas da China, porque o leão que anda em derredor é “mongol”. Sou fraco como o telhado do barraco de lona esfarrapada que vi na antiga favelinha no Teu ano de 1995. Faz-me forte como é forte o teto da grande basílica de Bizâncio. Sou fraco, Senhor. Fraquejo de dentro para fora. Trinco e racho à toa, feito os potes de barro não cozido que a mulher sudanesa deixa cair no caminho, quando lhe fraqueja o estômago, derramando a rala água nele guardado... Não quero ser soberbo como a porcelana inglesa. Deixa-me sendo barro dos brejos caipiras: é o que eu sou. Mas, tu és o Oleiro! Molda-me outra vez e queima meu barro no teu forno eternal. Faz-me forte, Senhor.

458. O poderoso destino humano é uma epopéia de fraquezas escolhidas pelo acaso humano? Não. O poderoso destino humano é a fraqueza humana amparada e assumida pelo querer soberano da onipotência divina. 

459. Filosofia não é telescópio nem microscópio. Filosofia é periscópio.