quinta-feira, 31 de março de 2016

"Wir sein pettler. Hoc est verum."

Perdido como uma folha em alto mar,
Indaguei: existe a grande árvore?
Esvaziado como um poço milenar,
Perguntei: existem fontes do abismo?

Quando o silêncio não é ausência de som,
Mas um nada que se escuta lancinante.
Quando o rastro é poeira sobre a estante,
E não a escrita que se revela na imensidão.

Volta ao ramo, ao galho e ao tronco
E da seiva visceral outra vez beberás.
Espera a noitinha e, quando o sereno
Dormir, recolherás oceano do deserto. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Farol

Luz eterna dos meus olhos de carne e tempo,
Sopro de carinho que no ventre é vento.
O amor é esta tocha de imensidão
Que do pulmão consome todo ar
E, inda assim, permite-nos respirar.
Toda cabana é para nós bom lar,
Definitivo regaço de quieta paixão.
Tua íris refulge o carinho sem lamento,
A dádiva colhida no fruir de um contratempo. 

Liberdade para amar [letra de música]

Quero o infinito escrito no papel,
Como as arararas beijando o céu.
Tu também não desejas ver
Os cavalos livres do carrossel
E os pombos voando do dossel?

Pede ao Senhor a tua liberdade
E Ele te fará cortar as grades.
Pede ao Senhor a tua felicidade
E Ele te contará uma boa piada.

Escolhi a pena mais colorida.
Escreverei poesia à minha menina.
Não é preciso laçar o Pégaso alado:
Os arreios ele pacificamente aceita,
Porque tem a pena dos pardais. 

Pede ao Senhor a tua alforria
E Ele te mandará lutar por ela.
Pede ao Senhor uma gargalhada
E Ele te ensinará como sorrir. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

Esponjas de sol - XV

460. Que é a ilusão? Serão estas espessas muralhas que na mente me cercam? A Realidade está em guerra aqui dentro, não lá fora. Oxalá que minhas questões fossem muros sobre a terra, muros que me limitassem tão somente o ir e vir dos pés. Uma muralha de matéria é que é ilusória. Nossas cadeias mais concretas sempre são abstratas.

461. Heróis. Não os vejo. Onde os [re]conheci senão nas páginas das Sagradas Escrituras, das hagiografias e das biografias, enfim, em livros há muito escritos? Onde os encontrei senão no encontro das minhas idéias presentes com seus ideais passados? Onde o futuro?

462. Eu te quero contemplar, Santa Cruz. Eu te quero contemplar, luminoso lenho, no eclipse do Calvário. Eu te quero contemplar, radiosa árvore, estacada na terra do meu coração. Eu te quero contemplar, fulgurante altar vertical, quando as trevas vierem escurecer a noite da minha alma. Eu te quero contemplar, Santa Cruz.

463. A Civilização: aluvião do Eufrates. 

464. O amor caloroso das avozinhas que tricotam meias: o sangue dos pés aquece o coração.

465. Todo exagero deve ser menosprezado.

466. Se o céu fosse vermelho / os homens seriam azuis.

467. Nós temos preferido os suntuosos palácios que construímos sobre a areia às coloridas casinhas de madeira que o próprio Deus edificou para nós sobre a Rocha de Sião.

468. SOPHIA. Enquanto os teus olhos brilharem, o mundo será menos trevoso. Cada abrir e fechar, cada cintilar da íris é luz que tinge o vácuo com a pureza da visão. O teu coração, da carne das estrelas, pulsa silenciosamente a explosão arquitetada. Equacionas sentimento e emoção? O sangue também tem o seu número. Sabes quão subjetiva é a lógica do pensamento e o quanto ele se deixa afetar pelos movimentos do estômago? Encontrei uma pepita de água. Martelei um anel de argênteo vapor. O ouro pesaria muito e nos tolheria a leveza necessária para o vôo final. Tu preferes uma tonelada de papel rabiscado por um único homem a uma só folha assinada por todos os outros. A sabedoria, disseste-me em prantos, está no amor que discerne sem ser discernido.

469. Um cristal de neve caiu, por acaso, no inferno. Atravessou as espessas e pétreas camadas do planeta e, hirto e rígido, desceu zombando dos cálidos portões diante dos quais a humanidade pecadora deixa suas esperanças. Pairou sobre a atmosfera dos nove círculos e foi pousar na fronte vermelha do próprio Satã. Imediatamente a “gelada harmonia” lhe queimou a crosta que tinha por pele, corroendo sua carne sulfurosa até ir romper-lhe no draconiano coração. O Caído gritou, gemeu e desmaiou. Ao mau todo refrigério é tortura.

470. Quem escreve regularmente só pode ser prolífico, prolixo ou profícuo.

471. O institucionalismo acovarda os homens.

472. Capitalismo entre povos não cristãos é inferno. Socialismo entre povos cristãos é inferno. A Liberdade só pode ser integralmente fecunda numa terra que se nutre da Verdade.

473. A Direita e a Esquerda são caricaturas da Dextra e da Sinistra. Quem lê, entenda.

474. A certeza do medroso o torna violento.

475. Fazer um risco (riscar à toa) é fácil; imitá-lo é difícil. Eis a essência de toda a chamada “Arte Moderna”, que é complexa justamente por consistir na imitação conceitual (e estilizada) daquilo que, em si, é simples.

476. Eu sou o que vou sendo.

478. Tu és Absconditus quando estou alegre ou triste. Tu és Revelatus quando sou feliz e turbável.

479. Se eu pudesse subir às estrelas ainda em carne, respiraria cada vapor cósmico sem fazer alarde: meus pulmões se nutririam da poeira ancestral, meu sangue se irrigaria da velha proteína eternal.

480. Em Política, fazer algumas coisas boas é pressuposto para fazer muitas coisas ruins.

481. Virtude é qualidade. Vício é quantidade. O pecador é aquele que troca qualidade por quantidade.

482. As minorias autoritárias sempre “ganham no grito”.

483. Há poucas coisas tão patéticas (e diabólicas) quanto um canalha tentando dar ares de seriedade racional e serenidade emocional ao seu discurso inflamado como um sanatório em chamas.

484. Se tu levas a sério tua vida (ou seja, queres manter para com ela uma atitude propositada em valores permanentes), ela mesma te esmagará entre afagos, te esganará entre abraços, te constrangerá entre pequenas e grandes sinceridades -- na alegria e na tristeza. Se tu levas a sério tua vida, prepara-te para ser por ela tratado como um arlequim embriagado. A vida não te leva tão a sério.  

485. A ausência é presença quando quer ser notada.

486. Creio em levitação. O espírito também tem sua “Lei da Gravidade”. O leve age para cima. O pesado, para baixo.

487. Sabes a pergunta que até os energúmenos fazem? É ela a mais importante questão para o Homem. Se os tolos e os débeis se põem a palpitar sobre determinado assunto, ele é importantíssimo. A questão que é demasiadamente especializada não é, via de regra, pergunta ou assunto elevado. É o problema que invoca (democrática e universalmente) a atenção de todos os homens que é realmente importante -- quase sempre um enigma ou mistério, por mais popularesca que seja sua disseminação em falatórios tolos.

488. A religiosidade afirma-se na negação do pecado. O Evangelho afirma-se na afirmação da virtude.

489. Louvado sejas, meu Senhor, pelas minhas debilidades mais medíocres, pelas minhas tolices mais sem-sabor, pelas minhas angústias mais irreais, pelas minhas ilusões mais ingênuas. Louvado sejas, meu Senhor, porque sou pobre de espírito, porque sou uma criancinha, porque sou um pequenino impressionável. Louvado sejas, meu Senhor, pelas minhas quedas mais inofensivas, pelas singelezas que me escandalizam, pelas bagatelas que me alucinam, pelas superstições que invento. Louvado sejas, meu Senhor, porque sou carente do teu amor, porque sou um chorão incontinente, porque sou um zé-ninguém pretensioso. Louvado sejas, meu Senhor!

490. Toda timidez cessa entre os amantes tímidos quando eles contam e revelam, um ao outro, sua timidez. Então, eles atravessam o umbral da intimidade e amam-se na mais completa nudez sentimental. 

História de um enigma

O pedigree dos pés cinzas:
A lepra do rei de Jerusalém.
O turbilhão das angústias:
A cabeça de Albert Camus.

Ao além da Cidade da Paz,
Procura pela antiga notícia.
Está lá o prateado quinhão,
Onde jaz o capuz de Judas.

O imenso ventre insaciável:
A digestão do Sire de Sade.  
O livro para uma só leitura:
A santa dúvida de Hipona.

O Céu rompe o véu dos céus!
Encontrarás as boas novas.
Está aqui o prego dourado,
Marcado no linho do sudário.

domingo, 20 de março de 2016

Ônus & Bônus

"Si la lumière est le premier amour de la vie, 
l'amour n'est-il pas la lumière du cœur?" 
                                                                                                                                     ~ Honoré de Balzac

A escuridão revela a fotografia.
A dúvida gotejando como a torneira
Do banheiro o sono atormentando.

A sombra aformoseia a pintura.
A pergunta implicando como o mosquito
No ouvido tagarelice zumbindo.

A treva persegue o rastro da luz.
A questão enervando com câimbras
O cérebro que se acalma pensando. 

Invocação do frio

O cio do céu.
O ciclo da chuva.
O inverno -- a mão na luva.
O véu branco das nuvens.

O prumo no muro.
O cimento na terra.
O outono -- a pêra cortada.
O sol morno e alaranjado. 

Pensamentos agrestinos

O agreste não é agressivo.
É agridoce como a seriguela
No prato fundo de arroz
Da velhinha benzedeira.

O agreste é um anão altivo
Comandando a tropa à guerra.
É valente feito o índio
Que abraçou o canhão.

O agreste mistura toda luz.
O dia flameja na fogueira,
A noite ilumina no lampião.
Festa perpétua de São João!

sábado, 19 de março de 2016

Dadaísmo Significante -- II

[exercício de versificação]


As badaladas dos sinos
Sinistros nos abalam.  

Uma estátua está erigida
Na tua alma fixa: estática.

Abarca todo o mar com teu barco.
Com tua nau, navega sobre as vagas.

Alucina o gênio hoje.
Alucinógeno no jejum.

Inépcia e perspicácia não pouparão
Do controverso o inerte e o perverso.

Helena de Tróia ressuscitou suando
Quando suscitaram a Perestroika.

Estereótipos são ótimos sistemas
Para tematizar o ópio dos outros.  

Comi guloseimas para glosar a gula.
O açúcar engolido coagulou: gosma.

O carrapicho grudou no piche do carro.
O carrapato sugou o couro do sapato.

O polvo, monstro marinho, da terra tem medo
Enquanto a guerra medeia o povo dos mares. 

Turva turba são os pensamentos.
Mentes pensando. É turbulência.

Água para alagar a tara
De molhar o pé da mulher.

Mordor acinzentou a dor do amor.
Agora o ódio domina a cor da ágora.

O são não será santo se não
Servir sins no antro do louco.

Não tema o trema! Pão da terra,
Trigo da guerra, trio da trégua!

Letrados lentos e tarados, sonolentos
E solitários, inventam lerdos invernos.

Provoco o vocacionado a vocalizar
As vozes ocas dos ocos irracionais.

A temperatura da gordura
Ardia na frigideira dura.

O lobo no cio vai balindo sua astúcia.
Eia, SUS! O povo acendeu o fio-pavio.

Árdua e dura pedra que medra
O caminho de quem tem medo.

Exaurir os rins com risos,
Rindo do siso do rinoceronte.

Mijando no milho molharás
A tísica pipoca dos políticos.

O cão ladrava contra o cachorro que latia.
A ladra roubava sozinha o pão do encontro.

Imitação da Ressurreição

Um lírio lívido
Repousava no ataúde.
O alaúde e a lira
Embalavam o embalsamado.
Desperto o corpo, livre a alma. 

Desmatamento

Detinha-me o viço
Das árvores caídas.
O verde sanguinolento
Do machado escorria
Para o morto regato.

Corpos de lenho carnal!
Esqueletos de cerne corporal!

O sol morreu antes de escurecer.
A noite acinzentou com luto a lua.
Amanheceu e a madeira crepitava:
A pilha se reduzia à pó na pira.
A terra de toda vida é cripta. 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Hino ao Senhor dos Novos Céus e da Nova Terra

Os campos se deixaram iluminar
Pelos passos mansos do Cordeiro.
Onde estão os lobos que balem
Astúcia quando a noite vem cair?

Se um clarim ressoar tranqüilo
E uma trombeta atormentar o dia,
O mundo se inundará de alegria,
O céu jubilará os cânticos de Sião.

A luz atravessa os vitrais coloridos
Clareando o corredor da paróquia,
Polindo com raios eternos o cálice
Da aliança entre Deus e os homens.  

As rachaduras do piso planetário
Unem-se cimentadas pelo Sangue:
Outra vez é uma e perfeita a terra.

As nuvens volvem ao seio original,
Infiltrando-se nas fontes do abismo:
Outra vez é límpido e acessível o céu. 

quarta-feira, 16 de março de 2016

Laetitia sine spinis

"Una rosa es inalcanzable si te preocupa salir
herido por las espinas." ~ Angelo Mera

Se é acúleo o pensamento e nos causa tanto ferimento,
É tão sedoso o sentimento -- para o coração um alimento.
Cultiva sem espinhos a rosa, rega-a com nutridora prosa.
Não haverá flor mais viçosa nem amor tão digno de glosa. 

Réquiem para Napoleão

O cavalo, manco e doente, avança
Sobre a artilharia -- rija e potente.
A Arte o pôs correndo hirto e forte,
Na imensa tela cortesã pincelado.

Agnello di Dio, che togli i peccati del mondo, abbi pietà di noi. 

Vai ter com Louis em Waterloo. 
Em Santa Helena o casebre é château
E é na jovem galinha que anarquiza 
As peças do xadrez 
Que se usa o bastão generalício. 

Agneau de Dieu, qui enlèves le péché du monde, prends pitié de nous. 

Onde o chá dos beys egípcios 
Com mel adoçado (as abelhas...)
E em porcelana china servido?
Bebe chá inglês em louça inglesa, 
Adoçado com o poeirento açúcar 
da Martinica. Iure uxoris.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis. 

domingo, 13 de março de 2016

Tu és oleiro

Não desprezarás teus trincos.
Um deles, solitário, pôs ao chão
As muralhas de Constantinopla.
A rachadura cresce silenciosa
Em árdua e constante obra.

Tu és para Deus o que é para o sábio japonês sua vasilha mais íntima: quando trinca a porcelana pelo uso constante, pelo trabalho que diariamente a desgasta, ele repara com o ouro mais puro a fresta, a greta, a fenda -- o fio radicular de vácuo. 

Daímonkratía

Dos homens o poder
Não pode humanizar.
Tudo é ter -- nada ser.
Tudo é alçar -- nada dar.
Contempla o Leviatã
Nadando no copo d’água.
Ali há tempestade.
Meio cheio ou meio vazio,
Na líquida realidade
Ele respira. 

Individuação

Espera. Tem esperança.
Sê real, não carranca
De facetas da personalidade
Na anamnésia descrita.
O eu não se expressa em lista,
Sequer dele se faz caricatura.

Doma o altivo pardal que és.
A águia não conhece o caminho
Das formigas nem o gosto do trigo:
Vovó dizia que elas fazem bem
Para a visão e que só pão sustenta. 

sexta-feira, 11 de março de 2016

What hath night to do with sleep?

O sol solapou minha noite:
Pariu o dia ateando luz
À macia escuridão do meu quarto.
A teofania das partículas [pó e pó da pele]
Que suspensas bailam feito micro-fadas,
Iluminadas pelos raios que se esgueiram
Através da persiana.
O conforto do colchão, do travesseiro...
Ah, é túmulo adiantado
O inconsciente prazer dado por Morfeu! 

Coisa almada

"Wir kommen nie zu Gedanken. 
Sie kommen zu uns." ~ Heidegger

Se não pensar eu pudesse,
Pedra inerme eu seria,
Rocha inerte na pradaria,
Cera derretendo no deserto,
Vela sem chama sobre o escuro ermo.
Das entranhas do cerebelo,
No sonho e no pesadelo,
Relampeia a faísca da alma,
Ergue-se o espírito sobre a lama.
Se não pensar eu pudesse,
A oquidão primeva seria meu termo. 

Exílio & Fundamentalismo

Hortelã no café e no chá. Sunnah?
Tenha fé. A noite é quente com lã.
Avelãs para Sua Majestade o Xá.
Está quente em Teerã. Lá é verão.
Verifique o crachá, sr. segurança.
Charutos na rica caixa de marfim.
O sarcófago de Ciro está no Cairo.
O luto segura a lança, abd Allah!
Seu gesto é mau, aiatolá Khomeini.
Komneno foi vingado. Deus imperat!
O vasto mar não tem fim, Ali Paxá.
Assalamu alaikum wa rahmatullah

Filosofia brasílica

Pia como a coruja, sabiá.
Cora já de sabedoria
a tua pena tropical.
Cali grafa com cinza
teu colorido animal.

Do sicômoro, canta a grega canção
quando pontear a viola caipira.
À meia-noite invoca o canário:
ele te contará o atlante segredo.
Banha-te no fogo aluarado da fênix
e, sem máscara, baila no teatro
de Ésquilo a sertaneja catira. 

sábado, 5 de março de 2016

Bilhete amoroso à uma linda moça louca

Teu cérebro embebido de adrenalina
Perde a linha quando é advertido:
Não tomarás do cálice da consciência
Que o anjo calado à noite te apresenta.
Morde a língua quando a palavra romper tua alma.
Se te amo, fada inebriada, amo-te quando
O sal da loucura adoça o vinho de fel.
Eu te via quando caminhavas entre as estrelas
E, contrariada, batias boca com os espíritos.