segunda-feira, 21 de março de 2016

Esponjas de sol - XV

460. Que é a ilusão? Serão estas espessas muralhas que na mente me cercam? A Realidade está em guerra aqui dentro, não lá fora. Oxalá que minhas questões fossem muros sobre a terra, muros que me limitassem tão somente o ir e vir dos pés. Uma muralha de matéria é que é ilusória. Nossas cadeias mais concretas sempre são abstratas.

461. Heróis. Não os vejo. Onde os [re]conheci senão nas páginas das Sagradas Escrituras, das hagiografias e das biografias, enfim, em livros há muito escritos? Onde os encontrei senão no encontro das minhas idéias presentes com seus ideais passados? Onde o futuro?

462. Eu te quero contemplar, Santa Cruz. Eu te quero contemplar, luminoso lenho, no eclipse do Calvário. Eu te quero contemplar, radiosa árvore, estacada na terra do meu coração. Eu te quero contemplar, fulgurante altar vertical, quando as trevas vierem escurecer a noite da minha alma. Eu te quero contemplar, Santa Cruz.

463. A Civilização: aluvião do Eufrates. 

464. O amor caloroso das avozinhas que tricotam meias: o sangue dos pés aquece o coração.

465. Todo exagero deve ser menosprezado.

466. Se o céu fosse vermelho / os homens seriam azuis.

467. Nós temos preferido os suntuosos palácios que construímos sobre a areia às coloridas casinhas de madeira que o próprio Deus edificou para nós sobre a Rocha de Sião.

468. SOPHIA. Enquanto os teus olhos brilharem, o mundo será menos trevoso. Cada abrir e fechar, cada cintilar da íris é luz que tinge o vácuo com a pureza da visão. O teu coração, da carne das estrelas, pulsa silenciosamente a explosão arquitetada. Equacionas sentimento e emoção? O sangue também tem o seu número. Sabes quão subjetiva é a lógica do pensamento e o quanto ele se deixa afetar pelos movimentos do estômago? Encontrei uma pepita de água. Martelei um anel de argênteo vapor. O ouro pesaria muito e nos tolheria a leveza necessária para o vôo final. Tu preferes uma tonelada de papel rabiscado por um único homem a uma só folha assinada por todos os outros. A sabedoria, disseste-me em prantos, está no amor que discerne sem ser discernido.

469. Um cristal de neve caiu, por acaso, no inferno. Atravessou as espessas e pétreas camadas do planeta e, hirto e rígido, desceu zombando dos cálidos portões diante dos quais a humanidade pecadora deixa suas esperanças. Pairou sobre a atmosfera dos nove círculos e foi pousar na fronte vermelha do próprio Satã. Imediatamente a “gelada harmonia” lhe queimou a crosta que tinha por pele, corroendo sua carne sulfurosa até ir romper-lhe no draconiano coração. O Caído gritou, gemeu e desmaiou. Ao mau todo refrigério é tortura.

470. Quem escreve regularmente só pode ser prolífico, prolixo ou profícuo.

471. O institucionalismo acovarda os homens.

472. Capitalismo entre povos não cristãos é inferno. Socialismo entre povos cristãos é inferno. A Liberdade só pode ser integralmente fecunda numa terra que se nutre da Verdade.

473. A Direita e a Esquerda são caricaturas da Dextra e da Sinistra. Quem lê, entenda.

474. A certeza do medroso o torna violento.

475. Fazer um risco (riscar à toa) é fácil; imitá-lo é difícil. Eis a essência de toda a chamada “Arte Moderna”, que é complexa justamente por consistir na imitação conceitual (e estilizada) daquilo que, em si, é simples.

476. Eu sou o que vou sendo.

478. Tu és Absconditus quando estou alegre ou triste. Tu és Revelatus quando sou feliz e turbável.

479. Se eu pudesse subir às estrelas ainda em carne, respiraria cada vapor cósmico sem fazer alarde: meus pulmões se nutririam da poeira ancestral, meu sangue se irrigaria da velha proteína eternal.

480. Em Política, fazer algumas coisas boas é pressuposto para fazer muitas coisas ruins.

481. Virtude é qualidade. Vício é quantidade. O pecador é aquele que troca qualidade por quantidade.

482. As minorias autoritárias sempre “ganham no grito”.

483. Há poucas coisas tão patéticas (e diabólicas) quanto um canalha tentando dar ares de seriedade racional e serenidade emocional ao seu discurso inflamado como um sanatório em chamas.

484. Se tu levas a sério tua vida (ou seja, queres manter para com ela uma atitude propositada em valores permanentes), ela mesma te esmagará entre afagos, te esganará entre abraços, te constrangerá entre pequenas e grandes sinceridades -- na alegria e na tristeza. Se tu levas a sério tua vida, prepara-te para ser por ela tratado como um arlequim embriagado. A vida não te leva tão a sério.  

485. A ausência é presença quando quer ser notada.

486. Creio em levitação. O espírito também tem sua “Lei da Gravidade”. O leve age para cima. O pesado, para baixo.

487. Sabes a pergunta que até os energúmenos fazem? É ela a mais importante questão para o Homem. Se os tolos e os débeis se põem a palpitar sobre determinado assunto, ele é importantíssimo. A questão que é demasiadamente especializada não é, via de regra, pergunta ou assunto elevado. É o problema que invoca (democrática e universalmente) a atenção de todos os homens que é realmente importante -- quase sempre um enigma ou mistério, por mais popularesca que seja sua disseminação em falatórios tolos.

488. A religiosidade afirma-se na negação do pecado. O Evangelho afirma-se na afirmação da virtude.

489. Louvado sejas, meu Senhor, pelas minhas debilidades mais medíocres, pelas minhas tolices mais sem-sabor, pelas minhas angústias mais irreais, pelas minhas ilusões mais ingênuas. Louvado sejas, meu Senhor, porque sou pobre de espírito, porque sou uma criancinha, porque sou um pequenino impressionável. Louvado sejas, meu Senhor, pelas minhas quedas mais inofensivas, pelas singelezas que me escandalizam, pelas bagatelas que me alucinam, pelas superstições que invento. Louvado sejas, meu Senhor, porque sou carente do teu amor, porque sou um chorão incontinente, porque sou um zé-ninguém pretensioso. Louvado sejas, meu Senhor!

490. Toda timidez cessa entre os amantes tímidos quando eles contam e revelam, um ao outro, sua timidez. Então, eles atravessam o umbral da intimidade e amam-se na mais completa nudez sentimental. 

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