quinta-feira, 28 de abril de 2016

Elegia. Ou: Jeremiada precoce

"Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho?" 
(Lamentações 1:12)

Para que a vida seja uma grande linha de chegada,
Para que o fim seja um começo a si mesmo iludido,
Para que a existência seja sua conhecida finalidade.

Não se pode correr quando as pernas querem voar,
Não se pode caminhar quando os pés querem parar,
Não se pode sentar quando os dedos querem saltar.

As nuvens mesmas se rasgam quando a água desce,
Os lírios mesmos se desnudam ao parir seus brotos,
As estrelas mesmas se apagam para admirar o sol. 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Dadaísmo Significante -- III

[exercício de versificação]

O grilo agrícola agride
O copo de coca-cola:
Odeia o gosto, o sabor,
O odor da ceia agridoce.

Rememora a última hora
Em que a roda urgia biles,
Quando remavas embora.

Lágrima doce rola a página,
Esgrimindo voz imaginária.

Suportarás o suor surtado?
Trabalharás embaralhando
As taras e surtos do humor.

É mister que haja mistério
E miséria em todas as eras.

O alho é sobretudo grisalho.
Allium, Allium über alles...!

Joana d’Arc toca piano:
Dó-ré-mi em Domrémy.

Além das alamedas estão
Os medos de Alá -- o Islão:
Um cão que late e morde,
A canção da certa morte.  

Água para a pulga nula.
Anágua para a puta nua.

A fantasia não é tão fantástica
Quanto a realidade da verdade.

Ninrode rodeia os ninhos de Deus:
Ele quer sacrificar os passarinhos
E fincar os sacrilégios do passado
No presente que o leigo apresenta.

Areia e sol para som e caverna.
O ermo é cavado solitário no ar.

Não se queira dizer aos queridos amigos
O quanto os arminhos queimam na eira
Dos operários que desdenham o horário
Enquanto o carrinho pega fogo solitário.  

Puro pus! Pus puro escuro: esquisitice.
Ésquilo purificou a sandice de estilo
Dos puristas encapuzados do teatro.
Teu átrio, zeloso pária, é sítio de bile! 

O guarda da alfândega é analfabeto:
Um pândego cheio de aguardente,
Um feto seco de meio século sujo.

Aliás, alias é um nome que se esconde
Por detrás da fome de se alienar de si.

Olga gabava antigas cantigas escritas
Sem crivo, testava goles de óleo gasto.

Adeus, dúbia panela da favela de Esaú! Adeus.
À tua janta núbia, o favo e o desfavor de Deus.

Normalmente mente o homem normal.
A norma: a semente da mente é alada. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Maranata [letra de música]

para a melodia de "The last Goodbye"

É só uma luz brilhando no céu.
É só uma palavra escrita no papel.
Aqui eu venho para dizer adeus,
Para entregar o pó todo a Deus.
Ser peregrino, andar sobre colinas,
Ser andarilho, caminhar sobre vales,
Erigir-me sobre minha coluna
E enfrentar o frio do inverno
E o calor do verão.
Está na hora de ir e esquecer
Que as ruas estão vazias,
Porque estes caminhos
São novos como a grama
Que brota para o cordeirinho.
A noite não é permanente;
Ela é do dia a semente.
Ouçam, sem chorar,
Os acordes da harpa de Davi.
Quando as trevas combaterem
Raiará a bênção do amanhã.
O lugar da tua solidão
É o encontro com a multidão.
Não deixarás o olhar baixar.
Não deixarás a pena cair.
Todas as gargalhadas do mundo
Sorrirão quando o espelho se partir
E a verdadeira face for revelada. 

domingo, 24 de abril de 2016

Esponjas de sol - XVI

491. O sol permanece quente e estático, obedecendo alienado ao movimento que Deus lhe deu desde o começo. Somos nós, os homens, que o movimentamos. É a esperança de quem respira que o faz girar sobre o mundo, anunciando luz para os olhos. Sístole e diástole para noite e dia.

492. O amor tem os seus gritos de cólica e cólera.

493. O espírito e a idade combatem-se no corpo. / A mão cálida aquece o vinho frio no cálice.

494. Alegra-te, pobre espírito. Alegra-te por caírem esmolas no teu chapéu de trovador medieval. A gaita dos desafortunados faz companhia ao piar da coruja. As migalhas que te alimentam são bocados de maná. Alegra-te, poeta analfabeto. Risca com carvão o piche das ruas e com giz as paredes dos hospitais. Algum anjo poderá discernir as canções à terra vermelha e ao céu azul.

495. Nós apontamos para o calendário e fazemos planos. Pobres tolos que somos! A vida não é uma planície. Onde colocamos os pés as coisas se alteram, os terrenos se mudam, as superfícies se abalam. A Eternidade se ri de nós. Que gargalhada sínica a da equação que propulsiona o movimento arcano a que chamamos tempo!

496. Pródigo coração ferido, que a cada dor suspira esganado amor!

497. Todo homem deve ter consciência de que está imerso numa infinitude de contextos que de tal forma o arrastam mental e espiritualmente a ponto de ele não poder discernir se cada um dos seus pensamentos, idéias e opiniões são de fato “seus”. Por isso, deve ser humilde e tolerante quando ousar erguer o dedo para pregar suas “verdades”.

498. Esperança é esperar como uma criança.

499. O pecado é criador de vácuos. Vácuo é insignificância.

500. Bom dia, Senhor. Outra vez, estou de pé. Está aí diante de mim a mansa rotina com a qual me abençoastes. Há um mundo por fazer e eu nesta obra tomo parte. Vós me criastes para criar. Neste dia, serei outra vez o que planejastes desde a Eternidade. O tempo é a minha ação nele. Eu vos dou graças pelo ordinário. Bom dia, Pai.  

501. Retire-se o verbo ser da linguagem e tem-se a filosofia dita oriental.

502. Se as trevas me acossarem, Senhor, acende para mim uma vela. Se eu em desespero e prantos me achar, acende e segura para mim uma vela. Por menor e mais módica que seja a pequenina chama, das tuas mãos elas refulgirão como mil sóis e a nudez do mundo se me descortinará. Senhor, segura para mim um vela e ponde-a no alto do meu luzeiro, “Porque tu acenderás a minha candeia; o Senhor meu Deus alumiará as minhas trevas”. A tua luz é a minha salvação da caverna, é a minha liberdade diante da minha prisão, é a minha alforria diante do meu grilhão. Senhor, ponde uma vela no centro do meu espírito, para que a minha alma e a minha carne resplandeçam interiormente e as minhas entranhas se banhem no teu fulgor. Resplandece em mim, Senhor.

503. Os fantasmas só existem quando temos medo deles.

504. Homens que nunca se cansam e que exortam asperamente os que fraquejam? Devem ser demônios fingindo indolência. 

505. O tímido é um mímico de si mesmo.

506. A fornalha escura é menos quente. O dia polar, com suas vinte e quatro horas de sol em eminência, é menos frio. É a luz que nos aquece.

507. Harmoniosa quero minha alma, como a linha reta desta palma, como a camada que a superfície exalta, como carne pura na face. Sem a agitação da humana fala, sem o falatório da garganta seca! Quero o silêncio da igreja sem ala, o silêncio sem eco da pobre lojeca. Quero a limpidez da pura calma, a placidez que reinava na selva quando o leão saboreava sua uva e a hiena se fartava na relva.

508. Minha vida, eu te entrego por ti mesma, esperando que uma luz qualquer te retenha guardada entre seus abraços de zelo e paz. Minha vida, eu te abandono por ti mesma, aguardando que o horizonte sorria pelo sol e não me deixe desesperançar da alvorada. Minha vida, eu te desamparo por ti mesma, vigiando o ar que me leva um pugilo de pó toda vez que eu secreto palavras em vão.

509. Apaguem todas as fontes terrestres de luz! Toda e qualquer iluminação produzida pelo engenho humano. Apaguem as luzes de Paris! Apaguem os holofotes dos palcos, as velas de cera e parafina dos altares e funerais! Apaguem os refletores! Apaguem as lâmpadas e lampiões! Apaguem o neón das boates e das igrejas de Mamon! Deixem escurecer para que as estrelas brilhem à noite, como no segundo anterior à descoberta do fogo...

510. Nós chamamos de gênios os “normais” que pintam falsas loucuras (afinal, apenas um sandeu sincero produz autêntica sandice). “É arte”, dizemos. Mas, nós chamamos de loucos os “anormais” que pintam loucuras verdadeiras. Custo a entender o que seja genialidade no contexto da Arte Moderna.  

511. Se se pode almejar a descrição verdadeira e objetiva de certas grandezas, eu não me poria em busca de definições para todas elas (todas as que sei existirem, quero dizer). Apenas a compreensão em palavras do que seja Luz me satisfaria, porque ela (como palavra-signo e conceito) encerra tão múltiplas qualidades que, desvendando-a, facilmente se pode alcançar outras tantas compreensões acerca dos seres e entes que se imiscuem na sua substância. Luz é o que? Uma terminologia prática e tecnicista na sua narração é eminentemente fraca, débil até, para trazer à nossa razão o conteúdo visceral do que é a Luz. A questão é literária -- é da prosa poética no mínimo; nunca da redação científica. Não há proeza maior que escrever sobre o semi-cognoscível (a Luz), porque aquilo que é mistério incognoscível (onde habita a Luz Inacessível) permanece Inaudito, ou melhor, permanece Inefável e, como tal, Indescritível, ou seja, é quinhão metafísico interditado ao palavreado humano. Grande beleza! A rima das idéias é mais elevada que a rima dos fonemas.

512. O melhor lugar do mundo é aquela porção de silêncio que goteja paz no falatório, é aquele lírio desabrochando úmido no auge do incêndio, é a prece infantil no oratório.

513. Os canalhas vêm e fazem “mal me quer, mal me quer” com cada pétala de cada flor do jardim. Pobres diabos! Acreditam mesmo que esmagando alguns efeitos extinguirão a grande causa, a Primavera? O martírio de alguns poucos gera o brado de maranata de todos os outros.    

sábado, 23 de abril de 2016

Teo-ciência à moda pré-histórica

Conheço o fogo na terra. Aqueles pontos de luz no céu noturno devem ser as tochas que iluminam o palácio dos deuses.

Quando me entristeço, caem gotas salgadas dos meus olhos. A chuva deve ser o choro adocicado das deusas.

Matei uma formiga com um cuspe. Esse dilúvio de que nos falam os velhos deve ter sido o escarro de algum deus.

As árvores, quando machucadas, deixam escorrer um sangue esverdeado, mas outra vez brotam e revivem mais viçosas. As árvores devem ser deuses, porque como eles são imortais.

Os grandes acontecimentos divinos ocorrem desde acima de nós, no céu. As aves vivem no céu, donde os deuses deliberam. As aves devem trazer mensagens de lá.

Há muitos homens na terra. Um só deus não poderia cuidar de todos nós em nossas diferenças e divergências. Devem existir muitos deuses para nos escutar.

Conforme o formato da lua no céu, minha lavoura produz mais e melhor. Até meu cabelo fica diferente. Este círculo de prata deve ser um deus.

Uma coruja piou forte sobre a casa do meu vizinho na noite em que ele morreu. As corujas só caçam à noite. Elas nos caçam a mando de algum deus.

Quando estou bravo, minha voz fica potente e grave. Os trovões devem ser os brados de fúria dos deuses. 

sábado, 16 de abril de 2016

διαλεκτική

Do duelo, o dueto.
Desvelo do pensamento,
Novelo do tempo.
Que se pode dizer
Quando nada se quer falar?
Que se pode olhar
Quando nada se quer visar?
Tudo é fina sombra impenetrável,
É grossa e transparente muralha.
A verdadeira alegria é raio
De esperança que amedronta
O bebê no berço e o velho na cama.
Nossas antigas montanhas
Poderão suportar vales
Brancos e floridos?
A Eternidade goteja
No santo lenho...
Da madeira ressequida,
De sangue poeirenta:
Um broto carmesim.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Corpo glorioso

Eu velhinho no redemoinho,
Rodando e girando no breu,
Rindo do vendaval no eu,
Cheirando a nardo no linho,
Rompendo a nado o fio do nada. 

Arbeitskur

Não há muro para se pular
Quando não há jabuticabeira no quintal.
Se a água for morna,
A sede vomitará o líquido que restar.
Não há cozinha francesa
Mais gostosa que a marmita de arroz e feijão
Que se come com fome. 

domingo, 10 de abril de 2016

Além [letra de música]

Ave peregrina
Que singrar
Quer o mar,
Luzida alma
Que quieta
Quer amar.
Canta no arrebol
Sobre o farol,
Sobre a luz
Da terra
Que ilumina
O mar.
Tua asa é fraca:
Não poderás voar
Sobre o oceano
Que quiseras
Conhecer.
Vais imaginar
O que vai além,
O que Ele plantou
Em Jerusalém.
Há uma profecia
Que anuncia
Que um pardal
A pena da águia
Teria afinal.
Será que és
A ave ancestral?
Será que então
Voarás ao eternal?
É o teu ninho
O mundo pequenino.
É o teu cantar
O hino não mesquinho.
Como és peregrina
Se não vais além
Da praça central?
Se és frágil
Como este alguém? 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Outra Quinta

A moça de vestido azul
Olha para o céu do teto,
Vê estrelas na candeia elétrica,
Desfia a longa tapeçaria
De carne que palpita seu pensamento.
O coração vem corar na face --
Branca como leite acanelado,
Quente como linho recém-passado.
Que olhas, com olhar de solitude?
Que miras, quando nada é ausente?
A ausência é presença
Quando quer ser notada.
É mira de flecha não disparada,
É alvo que acerta por querença.
A moça de vestido azul
Sorri com toda a alma. 

domingo, 3 de abril de 2016

Jaculatórias da Criação

I. Tu me criaste, Senhor. Eu não te criei. Cria em mim tua Criação!
II. O Homem é uma criatura que se cria. Por isso fizeste-te homem, Criador?
III. Que eu crie para ti as recriações da tua criação, oh Deus. Recreia-te em mim...
IV. Recria-te em mim, Senhor Jesus. Minha meta é a metanoia -- tua mente de Deus no teu cérebro de homem, tua mente de Deus no meu cérebro de homem.
V. Creio na criatura. Creio no Criador. Creio no Criador que se fez criatura. Credo! 

sábado, 2 de abril de 2016

Durante as aulas de sexta-feira

O jogo do amor
É um tabuleiro de esperteza,
Onde o jogador
Movimenta com presteza
O sentido ardor
Com langor e ligeireza.
Benta lide onde o perdedor
É do louro o ganhador,
Coroado com a beleza
Dum consciente estupor.

Todo filho de Adão
No peito carrega
Um abismo sem chão,
Onde a alma deságua
Sua divina solidão.
É tão frágil que escorrega
Como fio de água
Para dentro da caverna,
Goela e garganta
Da cósmica imensidão. 

Desiderium mimeticum

Nem todas as estrelas brilham.
Algumas apenas estão onde estão.
Esquecidas do nome que o Senhor lhas deu,
Míopes no grande breu do Universo.
Anãs ou com grandeza, elas apenas emitem luz.
Novas ou anciãs, elas apenas aspergem fótons.
Qual é meu mérito se existo porque me fez Alguém existir?
Se os nautas me desenham e apontam em cartas
Ou se aqueço uma atmosfera qualquer,
Assevero-lhes: não é minha culpa.
Nunca brilhei neste meu estatismo.
Nunca escolhi orientar os olhos noturnos                           
Ou prover o planeta de alimento para os pulmões.
Estes cometas que cortam os quatro cantos
Do Inangulável também não escolheram quais rotas tomar.
Ainda assim, desejo singrar o céu como eles,
Deixando rastros instantâneos de luz por onde passar.
Provavelmente, também o Halley quereria descansar
No oásis de um eixo quieto, fixo como o número zero.