domingo, 24 de abril de 2016

Esponjas de sol - XVI

491. O sol permanece quente e estático, obedecendo alienado ao movimento que Deus lhe deu desde o começo. Somos nós, os homens, que o movimentamos. É a esperança de quem respira que o faz girar sobre o mundo, anunciando luz para os olhos. Sístole e diástole para noite e dia.

492. O amor tem os seus gritos de cólica e cólera.

493. O espírito e a idade combatem-se no corpo. / A mão cálida aquece o vinho frio no cálice.

494. Alegra-te, pobre espírito. Alegra-te por caírem esmolas no teu chapéu de trovador medieval. A gaita dos desafortunados faz companhia ao piar da coruja. As migalhas que te alimentam são bocados de maná. Alegra-te, poeta analfabeto. Risca com carvão o piche das ruas e com giz as paredes dos hospitais. Algum anjo poderá discernir as canções à terra vermelha e ao céu azul.

495. Nós apontamos para o calendário e fazemos planos. Pobres tolos que somos! A vida não é uma planície. Onde colocamos os pés as coisas se alteram, os terrenos se mudam, as superfícies se abalam. A Eternidade se ri de nós. Que gargalhada sínica a da equação que propulsiona o movimento arcano a que chamamos tempo!

496. Pródigo coração ferido, que a cada dor suspira esganado amor!

497. Todo homem deve ter consciência de que está imerso numa infinitude de contextos que de tal forma o arrastam mental e espiritualmente a ponto de ele não poder discernir se cada um dos seus pensamentos, idéias e opiniões são de fato “seus”. Por isso, deve ser humilde e tolerante quando ousar erguer o dedo para pregar suas “verdades”.

498. Esperança é esperar como uma criança.

499. O pecado é criador de vácuos. Vácuo é insignificância.

500. Bom dia, Senhor. Outra vez, estou de pé. Está aí diante de mim a mansa rotina com a qual me abençoastes. Há um mundo por fazer e eu nesta obra tomo parte. Vós me criastes para criar. Neste dia, serei outra vez o que planejastes desde a Eternidade. O tempo é a minha ação nele. Eu vos dou graças pelo ordinário. Bom dia, Pai.  

501. Retire-se o verbo ser da linguagem e tem-se a filosofia dita oriental.

502. Se as trevas me acossarem, Senhor, acende para mim uma vela. Se eu em desespero e prantos me achar, acende e segura para mim uma vela. Por menor e mais módica que seja a pequenina chama, das tuas mãos elas refulgirão como mil sóis e a nudez do mundo se me descortinará. Senhor, segura para mim um vela e ponde-a no alto do meu luzeiro, “Porque tu acenderás a minha candeia; o Senhor meu Deus alumiará as minhas trevas”. A tua luz é a minha salvação da caverna, é a minha liberdade diante da minha prisão, é a minha alforria diante do meu grilhão. Senhor, ponde uma vela no centro do meu espírito, para que a minha alma e a minha carne resplandeçam interiormente e as minhas entranhas se banhem no teu fulgor. Resplandece em mim, Senhor.

503. Os fantasmas só existem quando temos medo deles.

504. Homens que nunca se cansam e que exortam asperamente os que fraquejam? Devem ser demônios fingindo indolência. 

505. O tímido é um mímico de si mesmo.

506. A fornalha escura é menos quente. O dia polar, com suas vinte e quatro horas de sol em eminência, é menos frio. É a luz que nos aquece.

507. Harmoniosa quero minha alma, como a linha reta desta palma, como a camada que a superfície exalta, como carne pura na face. Sem a agitação da humana fala, sem o falatório da garganta seca! Quero o silêncio da igreja sem ala, o silêncio sem eco da pobre lojeca. Quero a limpidez da pura calma, a placidez que reinava na selva quando o leão saboreava sua uva e a hiena se fartava na relva.

508. Minha vida, eu te entrego por ti mesma, esperando que uma luz qualquer te retenha guardada entre seus abraços de zelo e paz. Minha vida, eu te abandono por ti mesma, aguardando que o horizonte sorria pelo sol e não me deixe desesperançar da alvorada. Minha vida, eu te desamparo por ti mesma, vigiando o ar que me leva um pugilo de pó toda vez que eu secreto palavras em vão.

509. Apaguem todas as fontes terrestres de luz! Toda e qualquer iluminação produzida pelo engenho humano. Apaguem as luzes de Paris! Apaguem os holofotes dos palcos, as velas de cera e parafina dos altares e funerais! Apaguem os refletores! Apaguem as lâmpadas e lampiões! Apaguem o neón das boates e das igrejas de Mamon! Deixem escurecer para que as estrelas brilhem à noite, como no segundo anterior à descoberta do fogo...

510. Nós chamamos de gênios os “normais” que pintam falsas loucuras (afinal, apenas um sandeu sincero produz autêntica sandice). “É arte”, dizemos. Mas, nós chamamos de loucos os “anormais” que pintam loucuras verdadeiras. Custo a entender o que seja genialidade no contexto da Arte Moderna.  

511. Se se pode almejar a descrição verdadeira e objetiva de certas grandezas, eu não me poria em busca de definições para todas elas (todas as que sei existirem, quero dizer). Apenas a compreensão em palavras do que seja Luz me satisfaria, porque ela (como palavra-signo e conceito) encerra tão múltiplas qualidades que, desvendando-a, facilmente se pode alcançar outras tantas compreensões acerca dos seres e entes que se imiscuem na sua substância. Luz é o que? Uma terminologia prática e tecnicista na sua narração é eminentemente fraca, débil até, para trazer à nossa razão o conteúdo visceral do que é a Luz. A questão é literária -- é da prosa poética no mínimo; nunca da redação científica. Não há proeza maior que escrever sobre o semi-cognoscível (a Luz), porque aquilo que é mistério incognoscível (onde habita a Luz Inacessível) permanece Inaudito, ou melhor, permanece Inefável e, como tal, Indescritível, ou seja, é quinhão metafísico interditado ao palavreado humano. Grande beleza! A rima das idéias é mais elevada que a rima dos fonemas.

512. O melhor lugar do mundo é aquela porção de silêncio que goteja paz no falatório, é aquele lírio desabrochando úmido no auge do incêndio, é a prece infantil no oratório.

513. Os canalhas vêm e fazem “mal me quer, mal me quer” com cada pétala de cada flor do jardim. Pobres diabos! Acreditam mesmo que esmagando alguns efeitos extinguirão a grande causa, a Primavera? O martírio de alguns poucos gera o brado de maranata de todos os outros.    

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