sexta-feira, 27 de maio de 2016

Dez perguntas para se fazer à uma mulher antes de amá-la

I. Da vida, queres o quê?

II. Desejas perpetuar-te em filhos e netos, enfim, em gente por nós concebida nesta terra sob o céu?

III. Que[m] é Deus para ti? Um velho adorável de barbas alvas como as nuvens? Um eco paternal que retumba em cada pulsação do teu coração?

IV. Aceitas “rasgar” a carne deste teu belo dedo, engastando nesta pele branca e lisa uma aliança para nunca mais daí tirá-la? Deixarás este círculo polido de ouro se exibir na tua mão até quando ela se abarrotar de rugas amarelecentas?  

V. Amar-me-ás quando, furioso, eu mentir e disser que talvez não mais te ame?

VI. Se brigarmos (brigaremos, porquê a “implicância que belisca” é órgão vital do amor), quanto tempo durará o mútuo fingimento da ira acesa-mas-apagada e do pecadilho que se joga-na-cara-mas-já-perdoado?

VII. A cidade ou as serras?

VIII. Jogando merecidamente copos pesados e palavras duras nesta minha cabeça imensa, faremos depois os curativos com palavras dengosas e vinho trasmontano?

IX. Quando eu te escrever poemas, guardá-los-á haja o que houver ou à primeira rixa picarás toda a multidão das páginas nem com os dedos quentes pelo sangue quente, mas com alguma fria tesoura cega?

X. Posso amar-te? 

Cançoneta para Helena [letra de música]

improviso para violão e acordeón

Eu te amaria, Helena,
Como a luz ama as mariposas,
Como o copo d’água ri dos desertos.
Eu te amaria como as abelhas
Amam a branca rosa.
Eu te amaria, Helena,
Como a mariposa ama as luzes,
Como o deserto se enciúma dos copos.
Eu te amaria como as rosas brancas
Amam a abelha.
Eu te amaria, Helena,
Que és tantas numa só,
Com toda a luz da alma,
Com todo o frescor do espírito,
Com toda a força do corpo. 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Adiamento

Ela escutava o que eu falava.
Ela ouvia o que eu dizia.
Eu escutava o que ela falava.
Eu ouvia o que ela dizia.
Ambos olhávamos e víamos
Os lábios se movimentando silentes.
Entendíamos a incompreensão,
Mas não compreendíamos
O desentendimento. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Entrada no céu

Entrarei no céu com os olhos fechados,
Vendados por minhas mãos tímidas.
A pele que cobre o globo ocular
E a pele da mão que o recobrir
Não serão, eu sei, capazes de frear a luz
Que de todos os lados do mundo-sem-lado
Acudirão a tocar-me com silencioso amor.
Oh, Senhor, sou um crente envergonhado,
Tímido desde que o parto aqui me lançou.
Entrarei no céu esgueirando-me
Pelas ruas de ouro e cristal,
Pensando no que dizer ao te encontrar,
Acanhado por ter um dia duvidado,
Retraído como as seis asas do serafim.
Entrarei no céu com o coração palpitando,
Com o sangue dourado correndo furtivo
Pelas veias do espírito glorioso.
Entrarei no céu com um novo nome,
Desconhecido da multidão de santos e anjos,
Mas conhecido do teu abraço de bem-vindo.  

terça-feira, 24 de maio de 2016

Diário em Midgard -- IV

A colina é alta. No topo, assenta-se viçosa a mais esplêndida oliveira desta banda do horizonte. Tronco cor-de-pele, folhas cor-de-esmeralda. Imponente como esmerada jóia da ourivesaria micênica. Fantástica como a descida de um anjo flamejante entre os escombros de Atlântida. Subo para lá. Descalços, meus pés se auto-conduzem.

Sete casais de pombos repousam sobre seus lustrosos galhos. Outras aves, de magnífico e colorido porte mas de raça indiscernível, voam e pousam, sem parar, no conjunto de doze raízes que aparece sobre a terra.

Escorado no venerável lenho, contemplo as terras próximas e longínquas. É meio-dia e no céu se podem discernir constelações, algumas inversas na posição em relação àquelas que se viam no outro lado. A Ursa Maior é uma carruagem-arado conduzida por sete sábios.   

sábado, 21 de maio de 2016

Esponjas de sol - XVII

514. Os piores endemoniados são tão lúcidos quanto Lúcifer. Eles babam mentira através de palavras bem polidas, não saliva enquanto berram com voz grave e tenebrosa.  

515. Toda ilusão tem seu prazo de validade. Toda ilusão, quando no auge da adrenalina cerebral com seus ímpetos psíquicos de “novidade”, um dia se acaba. A tendência natural da alma é volver à sua originalidade, é voltar ao eu verdadeiro e primário, é reencaminhar-se para o que se é desde que se é. Toda ilusão há de acabar maçante, penosa e enjoativa. Não se pode comer glutoriosamente todo dia. O “buffet” jamais é prazer que se perpetua. Sorvete com chocolates diariamente? Bacon no café da manhã cotidiano? Carnes gordas todo almoço? Manjares gastronômicos sempre e sempre à hora do jantar? O verdadeiro prazer é aquele que se dilui na rotina dos cardápios honestamente previsíveis -- algo padronizados. Toda ilusão acaba depois que a primeira congestão procede ao primeiro empanturramento. Toda ilusão nos empurra de volta para o café com pão e manteiga, para o arroz com feijão, para a sopa de legumes... Chassez le naturel, il revient au galop!

516. As traves desta cruz, virai-as: / Crucificai-me paralelo à terra! / Se Pedro inverteu-a, de cabeça, / Quero o martírio como o sono: / Deitai-me sobre o solo doloroso.

517. O cordeiro calado -- a ovelha muda -- era o leão tosquiado.

518. Senhor, tu és neste mundo o livre guia do destino dos homens para que, no mundo vindouro, nós sejamos obrigatoriamente libertos.

519. É preciso ser verdadeiro. É necessário ser verdadeiro. Antes de tudo, ser verdadeiro. Ainda que se seja um tolo consumado, mas é preciso que se seja um tolo visceralmente verdadeiro. Ainda que seja um bocó zé-mané, mas é preciso que se seja um zé-mané entranhadamente verdadeiro. Sem afetações. Sem vernizes. Sem dourar pílulas. Sem polir com cuspe os excrementos congelados da alma. Ser verdadeiro: eis a meta de todo homem que ousa olhar no fundo dos próprios olhos quando se encontra diante do espelho.

520. A condição humana condena os homens a condenarem a Humanidade.

521. A letra -- lenta pedra na terra lançada como meteoro na poça.

522. Pela conversão o homem alça possuir espírito glorioso ainda em carne caída. Pela ressurreição, o espírito glorioso se despe do corpo doente e ressurge, integrado, em corpo glorioso.

523. Uma das muitas definições de sonho: “eco inverso” do consciente narrador no inconsciente poeta.

524. Oriente e Ocidente são o bemol e o sustenido de uma só e mesma (e única) nota: a Civilização.

525. Duas perguntas a serem feitas a todo teólogo antes de dar-lhe qualquer atenção. Primeira: “É puro o teu coração?” Segunda: “És temente a Deus?” 

526. Tão ou mais importante do que saber o que se é, é saber o que não se é. Os nãos costumam ser mais seguros, permanentes e fáceis de encontrar que os sins.

527. Os hinos da liturgia judaica são, de longe, os mais belos da Antiguidade. O espírito humano se derrama completamente nestes cânticos tão densos que parecem surgir da garganta da terra e ao mesmo tempo tão elevados que ousam roçar os escabelos dos Santos Pés. São cânticos que nascem contrastando seu ardor afetivo e sua serenidade intelectual. É uma polifonia unitária: a congregação canta alternando-se em notas e palavras, mas o faz como se fosse um só e único homem. Divino paradoxo.

528.  Todo medo traz consigo uma carga arquétipa que modula a realidade em favor de sua concretização.

529. O mistério maior é que convivem, pari passu, os antônimos, os antagonismos na potência e no ato, enfim, os opostos que, chocando-se, nos lançam em estado de suspensão do ser. Na raiz da existência humana está o Nada; afinal, tudo o que foi criado não existia, portando, começou a ser no tempo com um “gosto” de não ser. O Ser não tem começo; os seres têm, logo, contêm o lastro do surgimento ex nihilo.

530. O maior chefe de estado do século XX foi, na verdade, a maior chefe de estado do século XX: Guilhermina da Holanda, a rainha que cantava seu hino nacional sorrindo e com os olhos cerrados.

531. A Trindade não têm tripla personalidade.

532. Se todos os homens fossem fundidos, material e imaterialmente, absorvendo-se uns aos outros: Adão. Se todas as mulheres fossem fundidas, material e imaterialmente, absorvendo-se umas as outras: Eva. Todos os genótipos e fenótipos, todas as mentalidades, enfim, todas as distinções da individualidade se encontrariam essencialmente resumidas no primeiro e fundamental casal, no Homem e na Mulher, no Pai e na Mãe.

533. Se uma fruta eu devesse apontar como aquela que teria sido o “fruto proibido”, enfim, como aquela que pendia da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” no centro do Éden, diria que é a uva, o fruto da vide -- da videira. Por isso, só poderia ser o vinho a celebrar liturgicamente a redenção da felix culpa. Do veneno, o antídoto. Deus -- Pai da Simbólica.

534. Volúpia. A vontade do lobo não é encurralar, num canto da caverna, a carne crua. A vontade do lobo é sentar-se à mesa e mastigar com pompa e circunstância, com talher de ouro, o bife à point do pecado. 

535. Não quero ver as marmóreas carrancas gregas no Paternon. Falsa brancura -- colorido chic-kitsch dos helenos pagãos! Quero ver as flores de cerejeira iluminando o chão de tijolo do terreirão. Civilização não cria imponência e bravura suicida, não incinera na pira a carne jovem dos mitos. Civilização gera cadeiras de balanço e velhice sagrada, contando causos à beira da fogueira.

536. A Filosofia se re-inaugura toda vez que uma criança pergunta “por que?”.

537. Gabam que a águia à mais vertical altura se eleva; que, das nuvens, ela vê a formiga junto ao formigueiro. Mas, dizei-me quem lembra que a imperial ave não atravessa as fronteiras da terra onde nasceu? Quem já terá visto suas afiadas asas rompendo os sete mares? Toda ave tem sua glória e limitação. A águia bem conhece (como ninguém, na verdade) seu restrito habitat e o vigia do cimo atmosférico. Porém, seus olhos veem tudo ao que se limitam.

Onde está, Senhor,
A águia sobre o mar?
É a pobre andorinha
Que o irá singrar...

A andorinha, de olhar símplice, se não alcança o topo do mundo e não pode discernir a formiga operária do pedrisco que guarda a craterazinha que é a entrada da colônia, domina, contudo, horizontalmente o planeta. Ela deixa a árvore ancestral e atravessa os continentes. Cortando os oceanos, vai ver as outras penas alfa-ômegantes da Criação, vai voar para o além-ninho.

538. Agoniza a Civilização como um leão ferido de morte, moribundo no mais profundo e escuro rincão da caverna platônica. Não foi estocada de lança guerreira que o prostrou, nem batalha campal entre declarados inimigos familiares: o rugido sequer sucumbiu a um miado ideológico. É lepra auto-imune.

539. O megalomaníaco: espécie de pseudo bonsai de sequóia. 

540. Deus não mandou amar a “Humanidade”. Mandou amar o próximo. Amar um coletivo etéreo (em termos da qualidade de um relacionamento puro e direto; de valor pessoal, quero dizer) é fugir das responsabilidades para com o indivíduo que está ao nosso lado -- que é concreto. A Humanidade, para os idealistas [que são ideólogos] modernos, é um conceito poético altamente abstrato para o qual se apela quando se quer parecer afetiva e efetivamente humano. O indivíduo nos afronta e confronta. A Humanidade, contudo, em termos de possibilidades de real “conflituação”, nada é senão uma torre-forte para a mais dissimulada misantropia. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Diário em Midgard -- III

O eco retumba as palavras serenas e sussurra (como se estivesse diante de um recém-nascido) as mais violentas. Por que a repetição altissonante quando se escreve “paz” e a gagueira emudecente quando se soletra “guerra”? As palavras que digo ao pé do ouvido da montanha deságuam em todas as fontes do bosque. Cachoeiras tenores, regatos contraltos, córregos barítonos, rios baixos, riachos sopranos.

As macieiras folgam avermelhadas. As amoras estendem os frutos maduros sobre a terra roxa -- ali, a polpa do homem encontra a polpa da árvore do Éden. Os vermes comem a carne verde das maças. Os pássaros colhem os restos sazonados e o delicioso restolho final repousa assado nas tortas das avózinhas do povoado. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Que é o mundo?

Que é o mundo?, perguntaríeis
Se de repente caíssem dos olhos as escamas
E o véu do templo de satanás fosse rasgado.
Que é o mundo? É o grito mudo,
É o olhar cego, é a audição no vácuo?
Que é o mundo senão a palavra dada,
A visão restaurada e o ouvido vibrando?
Que é o mundo senão o Homem
Singrando seus mares de água e ilusão,
Lamentando dilúvios e bibliotecas de ficção?
Sem os velhos escritos dos sânscritos,
Sem o proto-modernismo de Altamira,
Sem o heroísmo dos pagãos e cristãos,
Sem os lamentos de Penélope e Maria,
Sem a tensão das opostas semelhanças
Não há mundo -- limpo e impuro,
Casto e imundo, santo e iracundo!

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Diário em Midgard -- II

Chove luz na terra. O sol se esconde, mas perpassa discreto as gotas de água que descem retilíneas sobre o gramado. O líquido verdeja com as folhas do carvalhal.  

As nuvens são brancas e cinzas, candidamente entremeadas de azul-violeta. Mesmo no trovejar irradiam sossego. Se os deuses antigos martelavam dardos furiosos dos raios, Ele os ondula pelo céu, fazendo-os dançar com a suavidade dos vaga-lumes noturnos.

Os milênios poliram os seixos de quartzo do ribeiro. Nas margens, eles rutilam transparentes, salpicados pela chuva e pela própria correnteza. Quais gotas emergiram das entranhas da terra e quais baixaram do alto? 

domingo, 8 de maio de 2016

Cinco nanocontos -- I

Proprietário da maior rede de supermercados do continente, por compaixão enchia seus estoques comprando nas pequenas vendas das aldeias interioranas.

O velho rabino cantava Hava Nagila enquanto os soldados aqueciam, outra vez, a fornalha ardente de Nabucodonosor. Auschwitz, 1944.

Amarraram Sansão, o cachorro brutamontes, numa das pernas da principal mesa de bilhar do cassino. O cheiro de rosbife que vinha da cozinha do restaurante Paradise...

O infante João, filho de Maria a Louca, amasiou-se com Joaquina, a filha sem infância de Tiradentes. Nasceu, sintetizado, Pedro I.

Para fazer o sinal da cruz sem que os guardas percebessem, durante meia hora espreguiçava-se, coçando vagarosamente a fronte, o peito e os ombros da esquerda para a direita. Kolyma, 1946. 

Pia desideria

Sonha, sonha que acordas do sono
E fias o tecido ensolarado do sudário,
E fias a corda do sino do campanário.
Tu te vestes com o mais roto pano
E queres seda e veludo para o altar?
E queres com lírios o templo exaltar?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Diário em Midgard -- I

No horizonte a luz transborda compaixão. As águas estão pacificadas, brancamente espumando na perpétua peleja contra as rochas. O sol é caloroso como o abraço paterno. O mar é paciente como o braço quebrado do avô. As rochas romperam o osso, mas os raios amáveis sossegaram a dor.

Se eu morresse agora, deitado na areia quente, morreria embalado pela cantiga do materno ventre: o útero de minha mãe tão igual conforto me provia. Se eu morresse agora, silencioso comigo o mundo -- não Deus --, seria parido para fora do firmamento.

A vida continuaria vertical, como o fio único da última aranha do velho castanheiro. Se uma gota de água fosse afilada pelas próprias Moiras, não ficaria tão reta e pura, tão espelhada e nua, como o cordãozinho de prata que entre a terra e a última folha do último galho estendeu a roca da viúva. A Eternidade resplandece nesta linha. Uma corda da harpa que dedo algum ousa tanger. Seda para tecer a túnica inconsútil. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

O obscuro e o oculto no homem médio: loucura e crime esporádicos [especulação e reflexão]


[FIPA]

“A alma primitiva do homem confina com a vida da alma animal, da mesma forma que as grutas dos tempos primitivos foram freqüentemente habitadas por animais antes que os homens se apoderassem delas.”  ~ C. G. Jung


Que é a loucura? A rainha entre os deuses e genitrix de todas as alienantes dádivas psíquicas, conforme o elogio de Erasmo? Talvez o grano salis das almas? Ou será a cessação das potências unificadoras (não dissociativas) da Razão-na-Mente, conforme reza a Psiquiatria clássica? De onde vem, para onde vai a loucura, qual corvo de E. A. Poe, tão “veloz y fatigada”, de olhar tão angustiado, “sin paz ni abrigado que la vio partir”?

Se por um lado pode-se genericamente chamar indistintamente de loucura toda uma série indeterminada de patologias psíquicas, por outro é prudente não “bater martelo” acerca de suas origens ou talvez de sua Origem -- a depender da ideo-metodologia interpretativa que se queira adotar. A loucura (permanente, esporádica ou eventual), em termos de explicação, é e tem sido de gênese mais ou menos misteriosa. Distinguir causas diversas para efeitos idênticos é missão cientificamente hercúlea; e tal é o critério investigativo que se deve adotar acerca de todos os distúrbios constantes do capítulo quinto do Catálogo Internacional de Doenças (CID-10)...

Entretanto, é preciso notar que tormentos mentais são comuns a todos os homens. Todos “babamos” quando o cérebro se embebe de hormônios pró-ilogicidade no hipotálamo. O que nos difere dos loucos do Pinel e dos doidos do Juqueri é tão somente o tempo de permanência e a profundidade crônica destas crises psicóticas suspensivas da razão. Naqueles que se vêem diariamente envoltos por camisas-de-força, via de regra a sandice é linear e cronologicamente constante; nos demais -- nós, os ditos normais -- ela goteja rara e espasmodicamente. Mas, ainda assim é [tudo], lato sensu, loucura; ou seja, um descontrolado tempo de desconhecimento de si, com ou sem diagnóstico psiquiátrico, com ou sem anamnese no divã. Vide as fugas disfarçadas pela rotina agressivamente estressante do dia-a-dia... Os chás de erva-doce com mel silvestre para “dormir melhor” e os meios comprimidos de Rivotril já no início do dia para “não estressar demais” a muitos salvam não só das insônias e eventuais obsessões paranóicas: eles também abafam o berreiro dos monstros que habitam as sombras da inconsciência daqueles que  existem logo pensam.

Todos os homens, vez ou outra na vida, perdem completamente as estribeiras, abraçando apaixonadamente (palavra que muito revela, afinal, deriva do grego πασχω -- sofrimento) a tal loucura, que os faz renegar os prudentes cálculos que amenizam as reações antes mesmo que ocorram efetivamente as ações... Portanto, lícito dizer que a loucura, por sua própria natureza irracional, costuma produzir males sócio-morais, enfim, costuma produzir o mal. O mal é irracional, a loucura é irracional: eis aqui uma completa e acabada afronta à organização ontológica do Mundo, um verdadeiro dueto de aflição existencial.

Ateu ou religioso, qualquer pessoa percebe que há na base da natureza humana[1] um resíduo da evolução animal (em termos mais físico-biológicos) e um pecado original (em termos mais metafísico-teológicos) que arrasta os homens para a prática do mal, seja ele encarado pelas lentes do microscópio evolucionista ou pelos olhos nus do senso comum. Desvio de conduta segundo a ética laica ou iniqüidade contra a Lei de Deus para os religiosos, é à mesma prática anti-existência (ataque ao corpo) e anti-vida (ataque à mentalidade) que damos o “nome” de Mal. Se para São Paulo todos “pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23), para Richard Darwin “O homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva.”

A maldade que provém do louco, porém, é a maldade do incapaz, a maldade de um ser humano que orbita o [micro]cosmos da inconsciência. É da maldade do homem médio que a Justiça e o Direito cuidam e tratam com seus preceitos, leis e normais, afinal, presume-se nele um contato mais efetivo com a Realidade. O homem médio pode enlouquecer e endoidar sob os efeitos temporários da própria passionalidade ou sob o agir de substâncias que lhe alterem o funcionamento cerebral, todavia, este seu mau agir é exceção; jamais regra, como sucede com os loucos. Propriamente criminoso é o homem médio – que é capaz. Doutra forma, há que se perscrutar a presença de patologias mentais: o criminoso serial ou volitivo é, geralmente, um doente.

Neste homem médio (o homem são, por assim dizer, já que conceito em consonância com sua já referida estabilidade sócio-cultural e médico-psíquica) o que há de mais animalesco e pecaminoso fica submerso no dia-a-dia, bloqueado pela equilibrada repetição da rotina; em outras palavras, fica obscuro e oculto até que relâmpagos de fúria e frêmitos de ira arranquem a fera da caverna e o espectro do esconderijo. Obscuro, porque escuramente confuso a mente. Mas quando desobscurecido, surge rasgando com trevas o até então límpido céu da consciência. Oculto, porque ignoravelmente escondido dos olhos. Mas quando desocultado, surge tremendo na planta dos pés e, de súbito, ribombando em todo o corpo até virar o globo ocular. De repente, acontece o frenesi. Num abrir e fechar de olhos, ocorre o “rapto” do homo sapiens histórico pelo hominídeo antropófago da pré-história, fazendo com que até mesmo o mais civilizado lorde britânico se atire sobre o Mundo com o mesmo ímpeto bárbaro com que os neanderthais, com as mãos limpas, caçavam mamutes pela madrugada.

Mas, qual é o estopim dos cataclismas de loucura no homem médio? Que vulcão interior lhe “ferve o sangue”, turvando cérebro e turbando coração? Ora, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Todo adulto capaz de recitar para si, em silêncio, o próprio nome compreende bem que Aquiles não foi o único homem a ter um calcanhar mortalmente fraco. As fragilidades dos filhos de Adão e Lucy são tão múltiplas e plurais quanto é múltipla e plural a mentira. Apenas a verdade, que é racional e boa, é una e singular. Assim, como sucedeu ao orgulhoso Nabucodonosor, qualquer coisa e todas as coisas nos podem por, num mal cronometrado instante, para de quatro pastar, feito bestas-feras, sobre os campos da irrealidade. Entretanto, uma vez sabedor da loucura e do mal, é imperativo que o gênero humano lute aguerridamente para ser racional e bom. Afinal, como bem escreveu C. S. Lewis nas suas Crônicas de Nárnia: “E, como a raça de Adão trouxe a ferida, que a raça de Adão trabalhe para saná-la.”

Não será um tal rompante de loucura momentânea, suscitado por brio e honra subjetivamente maculados (a gota d’água...), que levou Alfredo José dos Santos a manter refém e a ameaçar de morte a juíza Tatiane Moreira Lima, fazendo-lhe mal?



[1] Aristóteles enunciou, a propósito, no livro II da sua Política: “Os homens são facilmente induzidos a acreditar em um mundo maravilhoso em que todos podem ser amigos uns dos outros, especialmente quando alguém é ouvido denunciando os males agora existentes nos estados, fatos sobre contratos, condenações por perjúrio, lisonjas de homens ricos e similares, que dizem surgir fora da posse da propriedade privada. Estes males, no entanto, são devidos a uma causa muito diferente -- a maldade da natureza humana.”

O Juiz e o Inconsciente [especulação e reflexão]

[FIPA]
“A consciência é um juiz que tem um defeito freqüente
nos juízes: adormece facilmente." ~ Louis Legendre

Quem julga, julga o que sente. E sentir é perceber as coisas através dos valores que elas (verdadeiras “radiações” do ser-do-ente) emanam ou, pelo menos, denotam a quem delas se acerca. Então, julgar qualquer coisa é proferir uma sentença de qualificação conforme os valores qualitativos que consciente ou inconscientemente o julgador adota em relação ao objeto de seu julgamento. Conforme já notado en passant, é do ser de um ente que falamos quando o crivamos -- quando o julgamos, pois.

Dos concursos culinários aos tribunais, o árbitro das partes concorrentes é o sujeito responsável por extrair a essência da causa em questão e enquadrá-la nas regras e leis, respectivamente, que a poderão qualificar como boa ou má, certa ou errada, correta ou incorreta, saborosa ou sensaborosa, justa ou injusta, etc. Seja receita de ingredientes ou código de leis, o homem que maneja determinadas normas o faz oficialmente mediante um padrão anteriormente estabelecido num livro de receitas ou de legislação. Todavia, parece-nos claro que entre os textos e sua aplicação há a psiquê humana, que deles extrairá não o conteúdo em si, mas suas interpretações (mais ou menos equilibradas com a voluntas do homem médio). Assim, nasce para os gourmets o paladar e para os operadores do Direito a norma

Todo este processo de emissão de julgamento parece-nos, ao primeiro olhar, basear-se num arcabouço de concepções lógica e sistematicamente organizadas consensualmente, ou seja, as regras estão dadas e cabe apenas a quem as maneja operar a subsunção do fato à idéia regrante. É necessário, antes do mais, propor o seguinte problema: Se é uma convenção (criadora de unidade de entendimentos) que cria a priori as regras que normatizarão fatos a posteri, quem a elas dá forma senão um indivíduo que subjetivamente as [re]escreveu, sentindo-as? Já na concretização da convenção, os convencionados dependem da cognição de um escriba convencionado para fazê-las (as regras) concretas, seja no edital gastronômico ou no judiciário. O indivíduo que põe as regras no papel já as [re]interpreta a partir da interpretação do grupo que, oficialmente, as gerou. Em suma, o consenso social é filtrado por alguém que tenta expressar, através da definititude do “preto no branco”, o tal consenso. Não há aí já um processo subjetivo de julgamento (sentido e pré-ordenado pelo inconsciente) mediante o qual se procura concretizar um processo coletivo consciente? Certamente que há.

Todavia, não é esta a questão que queremos abordar no presente artigo. Serve ela apenas para lançar certos insights antecipadores, moduladores menores da questão maior em apresso. Antes, interessa-nos sobretudo o “caldeirão alquímico” de processos mentais que opera a acima referida filtragem. Interessa-nos o aspecto inconsciente de qualquer julgamento. Mais: interessa-nos, justamente, o aspecto inconsciente do julgamento jurídico, do julgamento dos homens investidos da magistratura, obrigados a implementar a Justiça que, como dizia Romain Rolland, “não permanece sentada diante da sua balança, a ver os pratos a oscilar.”

Há uma centena de anos a Psicologia teorizou o Inconsciente. Freud delineou que o inconsciente é um material psíquico indisponível à consciência do indivíduo, constituindo-se numa espécie de receptáculo de traumas e recalques dotados de impulsos animalescos e, freqüentemente, anti-sociais, tendo seu centro gravitacional no chamado Id. Para Freud o inconsciente é personalíssimo, ou seja, cada um de nós tem no inconsciente apenas conteúdos próprios, gerados a partir de nosso relacionamento com nosso ambiente. Nele atua fortemente o aspecto sexual.

Jung, por sua vez, a quem nos atemos especialmente por sua abrangência, estabeleceu que o inconsciente é nossa base volitiva, fundada em dois níveis: um primeiro, semelhante ao conceito freudiano, no qual predominam conteúdos de origem pessoal; e um segundo, do qual emergem fundamentais arquétipos coletivos, oriundos da nossa ancestralidade comum. Para Jung, nosso inconsciente nos liga à “plataforma” mítica (e algo mística) da Humanidade, ou seja, desvela os conteúdos da nossa psiquê como originados majoritariamente do relacionamento do Homem com o Mundo.

Resta a pergunta: quais as implicações do inconsciente na atividade consciente do julgamento? Para respondê-la, necessário é antes delimitar a atuação do inconsciente, ou seja, apreender as fronteiras entre a Lei e sua aplicação e o quanto o texto legal puro guarda de equivalência com sua instrumentalização casuística. Afinal, dizer que o inconsciente interfere numa decisão não é o mesmo que dizer que a decisão não guarda relação lógico-formal com o diploma legal que a ordena.

A discussão das influências do inconsciente passa, então, mais pela motivação subjetiva de se adotar determinado veredicto do que, propriamente, pelo conteúdo objetivo por ele assumido. Na forma, quase sempre os magistrados se assemelham, afinal, há um escopo legal padronizado e de imperativa aplicação. É, portanto, na formação da decisão internalizada que o inconsciente se envolve conscienciosamente.

Por que determinado magistrado é considerado duro e rigoroso enquanto outro é tido por magnânimo e misericordioso, se ambos julgam praticamente os mesmos acontecimentos (com suas causas e efeitos no mérito) com as mesmíssimas previsões penais e cíveis? Até que ponto o tipo de personalidade do magistrado é a responsável pelo bater pesado ou suave do martelo?  Além: até que ponto seu inconsciente é nutridor de sua personalidade e de suas específicas reações à também específicas ações? Sem maiores determinismos, pode-se perfeitamente averiguar a biografia do magistrado para que nela se descubra sua fonte de ação. Do clássico exemplo do menino injustiçado a um idealismo rigidamente ideológico assumido ainda durante os anos de bacharelado, está registrada na própria vida do sujeito os porquês dos seus julgamentos inflexíveis e o porquê de certas tendências de severidade atavicamente congênitas. Quanto aos piedosos e compassivos, idem. Quanto aos alienados e indolentes, ibidem. Procurai pelos atos e fatos presentes das vidas daqueles que envergam eminentíssimas togas e encontrareis os ecos de um sulcoso passado!

A empatia, por sua vez, é provavelmente o elemento que mais decididamente é capaz de fazer pender a mercê e a severidade de um homem em relação à determinada causa. O simples fato de ter alguém meros elementos de caráter e opinião em comum com outro sujeito já é fator de simpatia, capaz de instilar ações [geralmente subconscientes] favoráveis ao mesmo. Inversamente, possuir elementos discordantes de caráter e opinião é possível motivo de antipatia. Não que o magistrado não seja capaz de aquilatar e perceber sua empatia (ele o é, racionalmente falando), contudo, sempre haverá nele a atuação de tendências primevas (o primeiro nível junguiano) e primitivas (o segundo nível junguiano) de origens mais ou menos obscuras que poderão ou não ser decisivas quando da sentença. Nestes termos, o juiz pode e deve tentar ser honestamente neutro em relação aos pólos da ação, em relação às partes da querela, mas não pode ser neutro em relação a si mesmo, às suas marcas ancestrais, às suas idiossincrasias, às suas propensões mais profundamente arraigadas. O “conhece-te a ti mesmo” (γνῶθι σεαυτόν) socrático deveria, por isso, ser a lanterna dos internos juízos pessoais de quem julga, pelas vias burocráticas do corpo estatal, os atos externos das pessoas.

É na “praça de manobras” da discricionariedade que o querer pulsante do inconsciente se associa ao positivismo acional exigido do consciente.

Todo homo sapiens deste nosso século XXI está, como escreveu certa vez Lya Luft, imerso em “mitinhos bobos que inventou nosso inconsciente medroso, sempre beirando precipícios com olhos míopes e passo temeroso.” As pulsões assombreadas da alma a todos igualmente afetam. Não há quem não prove (sentindo, pensando, percebendo e intuindo) os próprios julgamentos, seja o sujeito um togado, uma vítima, um réu ou um simples homem normal que regularmente exista ao arrepio dos fóruns e às vezes até dos veneráveis Dez Mandamentos da Religião. Que dizer, então, destes membros da espécie humana que tem o dever de julgar seus semelhantes, destes “descavernados” que devem sobrepujar a ignorância predominante para fazer dominar a flamejante tocha lógica do Direito?

O juiz é antes de tudo um homem, constrangido, como todos nós, por sua persona, por sua anima, enfim, pelo seu eu integrado ou desintegrado de si, para si, por si e em si. Ele é um indivíduo, divergente e convergente no consciente e no inconsciente. Julgar é uma atividade eminentemente humana e, como tal, empenha no processo toda a integralidade do próprio ser. Não devemos, pois, nos escandalizar quando percebermos que determinada sentença revela sentimento e que determinado acórdão expõe um acorde do coração. Quem julga, julga o que sente.

Homo sum: humani nihil a me alienum puto...