sexta-feira, 6 de maio de 2016

Diário em Midgard -- I

No horizonte a luz transborda compaixão. As águas estão pacificadas, brancamente espumando na perpétua peleja contra as rochas. O sol é caloroso como o abraço paterno. O mar é paciente como o braço quebrado do avô. As rochas romperam o osso, mas os raios amáveis sossegaram a dor.

Se eu morresse agora, deitado na areia quente, morreria embalado pela cantiga do materno ventre: o útero de minha mãe tão igual conforto me provia. Se eu morresse agora, silencioso comigo o mundo -- não Deus --, seria parido para fora do firmamento.

A vida continuaria vertical, como o fio único da última aranha do velho castanheiro. Se uma gota de água fosse afilada pelas próprias Moiras, não ficaria tão reta e pura, tão espelhada e nua, como o cordãozinho de prata que entre a terra e a última folha do último galho estendeu a roca da viúva. A Eternidade resplandece nesta linha. Uma corda da harpa que dedo algum ousa tanger. Seda para tecer a túnica inconsútil. 

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