sábado, 21 de maio de 2016

Esponjas de sol - XVII

514. Os piores endemoniados são tão lúcidos quanto Lúcifer. Eles babam mentira através de palavras bem polidas, não saliva enquanto berram com voz grave e tenebrosa.  

515. Toda ilusão tem seu prazo de validade. Toda ilusão, quando no auge da adrenalina cerebral com seus ímpetos psíquicos de “novidade”, um dia se acaba. A tendência natural da alma é volver à sua originalidade, é voltar ao eu verdadeiro e primário, é reencaminhar-se para o que se é desde que se é. Toda ilusão há de acabar maçante, penosa e enjoativa. Não se pode comer glutoriosamente todo dia. O “buffet” jamais é prazer que se perpetua. Sorvete com chocolates diariamente? Bacon no café da manhã cotidiano? Carnes gordas todo almoço? Manjares gastronômicos sempre e sempre à hora do jantar? O verdadeiro prazer é aquele que se dilui na rotina dos cardápios honestamente previsíveis -- algo padronizados. Toda ilusão acaba depois que a primeira congestão procede ao primeiro empanturramento. Toda ilusão nos empurra de volta para o café com pão e manteiga, para o arroz com feijão, para a sopa de legumes... Chassez le naturel, il revient au galop!

516. As traves desta cruz, virai-as: / Crucificai-me paralelo à terra! / Se Pedro inverteu-a, de cabeça, / Quero o martírio como o sono: / Deitai-me sobre o solo doloroso.

517. O cordeiro calado -- a ovelha muda -- era o leão tosquiado.

518. Senhor, tu és neste mundo o livre guia do destino dos homens para que, no mundo vindouro, nós sejamos obrigatoriamente libertos.

519. É preciso ser verdadeiro. É necessário ser verdadeiro. Antes de tudo, ser verdadeiro. Ainda que se seja um tolo consumado, mas é preciso que se seja um tolo visceralmente verdadeiro. Ainda que seja um bocó zé-mané, mas é preciso que se seja um zé-mané entranhadamente verdadeiro. Sem afetações. Sem vernizes. Sem dourar pílulas. Sem polir com cuspe os excrementos congelados da alma. Ser verdadeiro: eis a meta de todo homem que ousa olhar no fundo dos próprios olhos quando se encontra diante do espelho.

520. A condição humana condena os homens a condenarem a Humanidade.

521. A letra -- lenta pedra na terra lançada como meteoro na poça.

522. Pela conversão o homem alça possuir espírito glorioso ainda em carne caída. Pela ressurreição, o espírito glorioso se despe do corpo doente e ressurge, integrado, em corpo glorioso.

523. Uma das muitas definições de sonho: “eco inverso” do consciente narrador no inconsciente poeta.

524. Oriente e Ocidente são o bemol e o sustenido de uma só e mesma (e única) nota: a Civilização.

525. Duas perguntas a serem feitas a todo teólogo antes de dar-lhe qualquer atenção. Primeira: “É puro o teu coração?” Segunda: “És temente a Deus?” 

526. Tão ou mais importante do que saber o que se é, é saber o que não se é. Os nãos costumam ser mais seguros, permanentes e fáceis de encontrar que os sins.

527. Os hinos da liturgia judaica são, de longe, os mais belos da Antiguidade. O espírito humano se derrama completamente nestes cânticos tão densos que parecem surgir da garganta da terra e ao mesmo tempo tão elevados que ousam roçar os escabelos dos Santos Pés. São cânticos que nascem contrastando seu ardor afetivo e sua serenidade intelectual. É uma polifonia unitária: a congregação canta alternando-se em notas e palavras, mas o faz como se fosse um só e único homem. Divino paradoxo.

528.  Todo medo traz consigo uma carga arquétipa que modula a realidade em favor de sua concretização.

529. O mistério maior é que convivem, pari passu, os antônimos, os antagonismos na potência e no ato, enfim, os opostos que, chocando-se, nos lançam em estado de suspensão do ser. Na raiz da existência humana está o Nada; afinal, tudo o que foi criado não existia, portando, começou a ser no tempo com um “gosto” de não ser. O Ser não tem começo; os seres têm, logo, contêm o lastro do surgimento ex nihilo.

530. O maior chefe de estado do século XX foi, na verdade, a maior chefe de estado do século XX: Guilhermina da Holanda, a rainha que cantava seu hino nacional sorrindo e com os olhos cerrados.

531. A Trindade não têm tripla personalidade.

532. Se todos os homens fossem fundidos, material e imaterialmente, absorvendo-se uns aos outros: Adão. Se todas as mulheres fossem fundidas, material e imaterialmente, absorvendo-se umas as outras: Eva. Todos os genótipos e fenótipos, todas as mentalidades, enfim, todas as distinções da individualidade se encontrariam essencialmente resumidas no primeiro e fundamental casal, no Homem e na Mulher, no Pai e na Mãe.

533. Se uma fruta eu devesse apontar como aquela que teria sido o “fruto proibido”, enfim, como aquela que pendia da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal” no centro do Éden, diria que é a uva, o fruto da vide -- da videira. Por isso, só poderia ser o vinho a celebrar liturgicamente a redenção da felix culpa. Do veneno, o antídoto. Deus -- Pai da Simbólica.

534. Volúpia. A vontade do lobo não é encurralar, num canto da caverna, a carne crua. A vontade do lobo é sentar-se à mesa e mastigar com pompa e circunstância, com talher de ouro, o bife à point do pecado. 

535. Não quero ver as marmóreas carrancas gregas no Paternon. Falsa brancura -- colorido chic-kitsch dos helenos pagãos! Quero ver as flores de cerejeira iluminando o chão de tijolo do terreirão. Civilização não cria imponência e bravura suicida, não incinera na pira a carne jovem dos mitos. Civilização gera cadeiras de balanço e velhice sagrada, contando causos à beira da fogueira.

536. A Filosofia se re-inaugura toda vez que uma criança pergunta “por que?”.

537. Gabam que a águia à mais vertical altura se eleva; que, das nuvens, ela vê a formiga junto ao formigueiro. Mas, dizei-me quem lembra que a imperial ave não atravessa as fronteiras da terra onde nasceu? Quem já terá visto suas afiadas asas rompendo os sete mares? Toda ave tem sua glória e limitação. A águia bem conhece (como ninguém, na verdade) seu restrito habitat e o vigia do cimo atmosférico. Porém, seus olhos veem tudo ao que se limitam.

Onde está, Senhor,
A águia sobre o mar?
É a pobre andorinha
Que o irá singrar...

A andorinha, de olhar símplice, se não alcança o topo do mundo e não pode discernir a formiga operária do pedrisco que guarda a craterazinha que é a entrada da colônia, domina, contudo, horizontalmente o planeta. Ela deixa a árvore ancestral e atravessa os continentes. Cortando os oceanos, vai ver as outras penas alfa-ômegantes da Criação, vai voar para o além-ninho.

538. Agoniza a Civilização como um leão ferido de morte, moribundo no mais profundo e escuro rincão da caverna platônica. Não foi estocada de lança guerreira que o prostrou, nem batalha campal entre declarados inimigos familiares: o rugido sequer sucumbiu a um miado ideológico. É lepra auto-imune.

539. O megalomaníaco: espécie de pseudo bonsai de sequóia. 

540. Deus não mandou amar a “Humanidade”. Mandou amar o próximo. Amar um coletivo etéreo (em termos da qualidade de um relacionamento puro e direto; de valor pessoal, quero dizer) é fugir das responsabilidades para com o indivíduo que está ao nosso lado -- que é concreto. A Humanidade, para os idealistas [que são ideólogos] modernos, é um conceito poético altamente abstrato para o qual se apela quando se quer parecer afetiva e efetivamente humano. O indivíduo nos afronta e confronta. A Humanidade, contudo, em termos de possibilidades de real “conflituação”, nada é senão uma torre-forte para a mais dissimulada misantropia. 

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