terça-feira, 3 de maio de 2016

O obscuro e o oculto no homem médio: loucura e crime esporádicos [especulação e reflexão]


[FIPA]

“A alma primitiva do homem confina com a vida da alma animal, da mesma forma que as grutas dos tempos primitivos foram freqüentemente habitadas por animais antes que os homens se apoderassem delas.”  ~ C. G. Jung


Que é a loucura? A rainha entre os deuses e genitrix de todas as alienantes dádivas psíquicas, conforme o elogio de Erasmo? Talvez o grano salis das almas? Ou será a cessação das potências unificadoras (não dissociativas) da Razão-na-Mente, conforme reza a Psiquiatria clássica? De onde vem, para onde vai a loucura, qual corvo de E. A. Poe, tão “veloz y fatigada”, de olhar tão angustiado, “sin paz ni abrigado que la vio partir”?

Se por um lado pode-se genericamente chamar indistintamente de loucura toda uma série indeterminada de patologias psíquicas, por outro é prudente não “bater martelo” acerca de suas origens ou talvez de sua Origem -- a depender da ideo-metodologia interpretativa que se queira adotar. A loucura (permanente, esporádica ou eventual), em termos de explicação, é e tem sido de gênese mais ou menos misteriosa. Distinguir causas diversas para efeitos idênticos é missão cientificamente hercúlea; e tal é o critério investigativo que se deve adotar acerca de todos os distúrbios constantes do capítulo quinto do Catálogo Internacional de Doenças (CID-10)...

Entretanto, é preciso notar que tormentos mentais são comuns a todos os homens. Todos “babamos” quando o cérebro se embebe de hormônios pró-ilogicidade no hipotálamo. O que nos difere dos loucos do Pinel e dos doidos do Juqueri é tão somente o tempo de permanência e a profundidade crônica destas crises psicóticas suspensivas da razão. Naqueles que se vêem diariamente envoltos por camisas-de-força, via de regra a sandice é linear e cronologicamente constante; nos demais -- nós, os ditos normais -- ela goteja rara e espasmodicamente. Mas, ainda assim é [tudo], lato sensu, loucura; ou seja, um descontrolado tempo de desconhecimento de si, com ou sem diagnóstico psiquiátrico, com ou sem anamnese no divã. Vide as fugas disfarçadas pela rotina agressivamente estressante do dia-a-dia... Os chás de erva-doce com mel silvestre para “dormir melhor” e os meios comprimidos de Rivotril já no início do dia para “não estressar demais” a muitos salvam não só das insônias e eventuais obsessões paranóicas: eles também abafam o berreiro dos monstros que habitam as sombras da inconsciência daqueles que  existem logo pensam.

Todos os homens, vez ou outra na vida, perdem completamente as estribeiras, abraçando apaixonadamente (palavra que muito revela, afinal, deriva do grego πασχω -- sofrimento) a tal loucura, que os faz renegar os prudentes cálculos que amenizam as reações antes mesmo que ocorram efetivamente as ações... Portanto, lícito dizer que a loucura, por sua própria natureza irracional, costuma produzir males sócio-morais, enfim, costuma produzir o mal. O mal é irracional, a loucura é irracional: eis aqui uma completa e acabada afronta à organização ontológica do Mundo, um verdadeiro dueto de aflição existencial.

Ateu ou religioso, qualquer pessoa percebe que há na base da natureza humana[1] um resíduo da evolução animal (em termos mais físico-biológicos) e um pecado original (em termos mais metafísico-teológicos) que arrasta os homens para a prática do mal, seja ele encarado pelas lentes do microscópio evolucionista ou pelos olhos nus do senso comum. Desvio de conduta segundo a ética laica ou iniqüidade contra a Lei de Deus para os religiosos, é à mesma prática anti-existência (ataque ao corpo) e anti-vida (ataque à mentalidade) que damos o “nome” de Mal. Se para São Paulo todos “pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23), para Richard Darwin “O homem ainda traz em sua estrutura física a marca indelével de sua origem primitiva.”

A maldade que provém do louco, porém, é a maldade do incapaz, a maldade de um ser humano que orbita o [micro]cosmos da inconsciência. É da maldade do homem médio que a Justiça e o Direito cuidam e tratam com seus preceitos, leis e normais, afinal, presume-se nele um contato mais efetivo com a Realidade. O homem médio pode enlouquecer e endoidar sob os efeitos temporários da própria passionalidade ou sob o agir de substâncias que lhe alterem o funcionamento cerebral, todavia, este seu mau agir é exceção; jamais regra, como sucede com os loucos. Propriamente criminoso é o homem médio – que é capaz. Doutra forma, há que se perscrutar a presença de patologias mentais: o criminoso serial ou volitivo é, geralmente, um doente.

Neste homem médio (o homem são, por assim dizer, já que conceito em consonância com sua já referida estabilidade sócio-cultural e médico-psíquica) o que há de mais animalesco e pecaminoso fica submerso no dia-a-dia, bloqueado pela equilibrada repetição da rotina; em outras palavras, fica obscuro e oculto até que relâmpagos de fúria e frêmitos de ira arranquem a fera da caverna e o espectro do esconderijo. Obscuro, porque escuramente confuso a mente. Mas quando desobscurecido, surge rasgando com trevas o até então límpido céu da consciência. Oculto, porque ignoravelmente escondido dos olhos. Mas quando desocultado, surge tremendo na planta dos pés e, de súbito, ribombando em todo o corpo até virar o globo ocular. De repente, acontece o frenesi. Num abrir e fechar de olhos, ocorre o “rapto” do homo sapiens histórico pelo hominídeo antropófago da pré-história, fazendo com que até mesmo o mais civilizado lorde britânico se atire sobre o Mundo com o mesmo ímpeto bárbaro com que os neanderthais, com as mãos limpas, caçavam mamutes pela madrugada.

Mas, qual é o estopim dos cataclismas de loucura no homem médio? Que vulcão interior lhe “ferve o sangue”, turvando cérebro e turbando coração? Ora, cada um sabe onde lhe aperta o calo. Todo adulto capaz de recitar para si, em silêncio, o próprio nome compreende bem que Aquiles não foi o único homem a ter um calcanhar mortalmente fraco. As fragilidades dos filhos de Adão e Lucy são tão múltiplas e plurais quanto é múltipla e plural a mentira. Apenas a verdade, que é racional e boa, é una e singular. Assim, como sucedeu ao orgulhoso Nabucodonosor, qualquer coisa e todas as coisas nos podem por, num mal cronometrado instante, para de quatro pastar, feito bestas-feras, sobre os campos da irrealidade. Entretanto, uma vez sabedor da loucura e do mal, é imperativo que o gênero humano lute aguerridamente para ser racional e bom. Afinal, como bem escreveu C. S. Lewis nas suas Crônicas de Nárnia: “E, como a raça de Adão trouxe a ferida, que a raça de Adão trabalhe para saná-la.”

Não será um tal rompante de loucura momentânea, suscitado por brio e honra subjetivamente maculados (a gota d’água...), que levou Alfredo José dos Santos a manter refém e a ameaçar de morte a juíza Tatiane Moreira Lima, fazendo-lhe mal?



[1] Aristóteles enunciou, a propósito, no livro II da sua Política: “Os homens são facilmente induzidos a acreditar em um mundo maravilhoso em que todos podem ser amigos uns dos outros, especialmente quando alguém é ouvido denunciando os males agora existentes nos estados, fatos sobre contratos, condenações por perjúrio, lisonjas de homens ricos e similares, que dizem surgir fora da posse da propriedade privada. Estes males, no entanto, são devidos a uma causa muito diferente -- a maldade da natureza humana.”

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