segunda-feira, 27 de junho de 2016

"Sotto il velame delli versi strani"

O esquisito frear no cênico
Mundo. De louco e médico...
A má letra é doença fatal,
Febril. Li temperatura feia.
O gelo acusar na jacuzzi
De Marat. Shema, Dreyfus!

Eu ri pelo destino
Das letras eternas.
Pitaco nas ágoras?
O cheiro que espero
Dos números
É bolor material. 

Só crateras na lua?
Sabedoria: château en Espagne
Como perder nisto consolo?
O sol é plebeu. 

domingo, 26 de junho de 2016

Esponjas de sol - XVIII

541. Se Jesus Cristo não é Deus, Deus não existe.

542. Não existe o tal “inconsciente-sombra” teorizado por Jung. Existe, isto sim, uma contra-consciência dialética, cuja potentíssima mola propulsora é [via de regra] o medo arrebatado pela memória. Os cristãos, mais realistas, com razão a chamam simplesmente de “a carne.”

543. Deus da Eternidade te mira perdido na vacuidade, do Seu “Eu-Sou-O-Que-Sou” te olha com Significado, te admira quando não sabes para onde irás fatigado. Deus te contempla como tu contemplas Van Gogh nas galerias empoeiradas dos museus acinzentados. Deus, o Quem que desbastou o informe vazio do Caos, te chama ao Logos, às águas vivas da Realidade, à pura estrutura do Ser -- Imagem e Semelhança. Contempla a tua consciência dizendo o que é e o que não é; percebe depois tua carne gritando louca contrariedade. Vem repousar nas colinas de Sião, vem dormir sossegado nas praias quentes da Luz Inacessível. Vem sem demora! Ele te quer encarar face à face, para que se espelhem os sorrisos, para que se encontrem o Pai, o Filho e o Espírito Santo com o espírito, com alma e com o corpo.

544. Quem é capaz de entender os tempos? Quem será capaz de compreender os tempos? Quem lerá a escrita que está na Parede do Mundo e na particular parede de cada homem? Lá, está a mesma mensagem: "Mene, mene, tequel, ufarsim." Sempre o mesmo dito escrito pela mesma mão -- os dedos de Deus. Na parede do teu quarto, na parede do teu escritório, na parede do teu banheiro, na parede da tua sala, na parede da tua cozinha, nas paredes todas tuas e nas paredes todas do mundo que os teus olhos acompanham pelos caminhos da existência individual e coletiva. Lá está o dito, julgando-te e julgando-nos: "Contou Deus o teu reino, e o acabou. Pesado foste na balança, e foste achado em falta. Dividido foi o teu reino, e dado a outros." A escrita está na parede, para bárbaros e civilizados! Quem lê, entenda. 

545. Quando o martelo for batido e for a última noite da tua vida, quando o anjo da morte vier te arrancar da cama quentinha, quando mastigares tua saliva nos corredores do hospital, quando as luzes se apagarem porque teus olhos se apagaram, quando a multidão gritar “gol!” e o jornal publicar teu obituário, quando teu suor for espoliado e quatro velas forem acesas... Para onde vais, afinal? Como estás com teu Deus? Escolhe já, agora, antes que seja tarde demais, porque a ponta da tua língua não será molhada...

546. “Eu sou quem sei?” -- perguntou o recém-nascido, não o sábio ancião de barbas brancas.

547. O ato-falho não expressa uma realidade inconsciente. Expressa, isto sim, uma crença do consciente (geralmente, arraigada -- situação mental que, todavia, como dito, não expressa necessariamente uma realidade de fato) que a memória “deixou” (daí, lapso) vir à boca ou ao pensamento.  

548. A ideologia de Satã? O anti-Logos: almeja safar-se das estruturas inamovíveis e eternas da mente e dos conteúdos que substanciam e das formas que consubstanciam o Ser.

549. Oh, vós, mentes inquietas do passado que inquietastes as mentes do futuro -- este presente inquieto sem eternidade. A inquietude diante da resposta final que é, senão dúvida trevosa e doentia? Vós, céticos e niilistas das eras introdutórias! Vós, pessimistas e descrentes primevos! Vós sois os algozes do nascer do sol, vós sois os carrascos da comum verdade!

550. Nos primórdios da Igreja, os teólogos excessivamente alegoristas e simbolistas assim o eram porque também eram excessivamente místicos -- ou seja, credulíssimos. Hoje em dia, são alegoristas e simbolistas justamente os teólogos mais descrentes, aqueles para os quais tudo é “linguagem mítica” e “arcaica”, aqueles que fingem ter fé em Deus quando precisam fazer valer o salário que a congregação lhes paga pelos sermões domingueiros mas que, tão logo se afastem do púlpito, começam a cusparar nas Sagradas Escrituras com a fétida saliva gestada na boca de Zaratustra. Com razão dizem os italianos: “Certuni si fanno scrupolo di sputare in chiesa, e poi ucciderebbero il prete in sacrestia.”

551. Oh, Flor de Luz e Sapiência, / Dourado Lírio da Revelação, / Revela em nós tua Verdade: / A doce candura da Iluminação.

552. Entre a inteligência íntima e a indigência pública, o ego.

553. Não é a descrença dos ateus e céticos de todas as escolas, mas é a crendice estúpida dos “crentes” sem Credo o maior inimigo da boa Apologética. Na contramão da recomendação petrina, eles se negam a estar “preparados para responder com mansidão e temor a qualquer” que lhes “pedir a razão da esperança” que há em nós. Por isso, respondem com violência e medo a todos aqueles que tentam com eles estabelecer um debate, desperdiçando, conseqüentemente, a oportunidade (uma “propícia plenitude”) de racionalmente semear as Boas-Novas. O verdadeiro crente crê porque sabe -- nele operou-se a metanoia.

554. Relendo Darwin, outra vez percebi isto: que a Vida prescinde dos seres viventes, na medida em que há um dinâmico impulso que objetivamente impele o indivíduo a reproduzir-se, com seu próprio sacrifício quando não há “destinação moral” em seus miolos (daí, freudianamente, Eros pare Thanatos), em benefício não só da própria espécie, mas de todas as outras espécies (que, por sua vez, assim também operam). Em outras palavras, há uma poderosa idéia-vontade mantenedora da Vida “custe o que custar”, mesmo que sobre o cadáver dos vivos. Paradoxo: eis aí um argumento contra quaisquer materialismos -- científicos ou filosóficos. Afinal, “algo” obriga que a Vida exista apesar daqueles que vivem. Aí está o rastro da questão: existirá Vida mesmo que não existam os vivos? É o que o Darwinismo sugere.

555. O Cristianismo é a religião do ordinário. Em suma, ele pertence ao cotidiano. Ideologia, porém, é aquilo que se distingue do dia-a-dia.

556. Pensamento: forma. Sentimento: conteúdo.

557. Nada me tira das idéias este vislumbre: a memória é um caracol, meticulosamente estruturado pela proporção áurea.

558. Primeiro os homens fizeram jaulas para si próprios. Só depois vieram as gaiolas para os pássaros. Nós nos aprisionamos antes de aprisionar um animal.

559. O instinto é um estilingue natural que a cultura mundana pode transformar numa metralhadora mortífera e que a fé cristã mantém sendo apenas um estilingue -- pragmaticamente útil para quando for moralmente útil utilizá-lo.

560. Coragem é corar (de medo ou de vergonha) mas agir. 

561. O Homem é um núcleo de caos e logos -- carne e espírito. O processo de ordenação da Terra também se opera naquele que é pó da terra. 

Carta à Ela [trecho do inacabado conto “Sob o Sol do Inverno”]

Helena,

Quando pela primeira vez te vi, na disparada dos últimos minutos da despedida coletiva, não digo que te amei “à primeira vista”. Não se ama à primeira vista porque a primeira vista nada é senão um choque apresentativo -- uma parusía da qual talvez não se tenha muita consciência -- para quem poderá amar verdadeiramente no futuro. É na segunda vista que as coisas podem começar a acontecer, que o coração pode romper com seu gládio sentimental qualquer precaução mental e, então, o anjo cupido dos nossos comuns anseios pode operar sua missão: gerar um casal.

Pois nós nos revemos segunda vez. E outra vez, e mais uma vez e ficaram sendo uma rotina estes “encontros”. No convívio, àquela estrutura de imagens e idéias se somaram detalhes gestuais, corporais e faciais que vieram desaguar num... “aí, como ela é bonita!” Progrediram as descobertas, especializando-se mais: o sorriso comedido diante de uma gentileza, o riso um pouco forçado quando da piada que eu sabia tosca, a gargalhada livre e aberta arejando o maçante calendário; o raro sussurro com semi-confidências, a fala venial para o trato público, o dominante grito arisco que põe “ordem no coreto”.

O caminho foi se estendendo e, medrado por não sei o quê de venturoso, criou para nós dois percursos idênticos na vocação e no ideal. Dois percursos que cada um de nós dizia querer trilhar para o mesmo lugar, mas inda assim eram dois percursos, enfim, duas trilhas que, não obstante paralelas, não se expunham a cruzar-se no horizonte; tampouco parecia possível uni-las numa estrada única...  Poderiam assim verdade e vida caminharem em caminhos outros que não “o-um caminho”? Via, veritas et vita, Helena, é o triunvirato da felicidade proposta pelo próprio Cristo.

Não poderia (e não queria) supor que aquela fosca arruela prateada era uma aliança de compromisso. Ah, talvez um velho anel de uma velha avó viúva! Não era. “Que pena!”, queixei-me chateado. Afinal, obedecia e obedeço à Lei. Resolvi voltar para o meu lugar, para o canto destinado ao reverente observador de pássaros raros, aquele que quer ver a ave voando em liberdade celestial. Se lestes “Quadrilha”, poema de Drummond, entenderás o que falo. Se lestes “O Lírio do Vale”, romance de Balzac, compreenderás o que digo. Nem sempre se pode ter correspondido um amor. Nem sempre a boa mulher vai descansar nos braços do homem que verdadeiramente a quer e deseja. Melhor fosse que, matematicamente, se equacionasse o amor; permitindo-se que um homem não se interessasse por moça noutro sujeito interessada ou que, mesmo não interessada em seu par oficial, obrigada à uma relação já permanentemente estabelecida. Seriam as coisas mais fáceis. Seria o mundo muitíssimo mais agradável. Muitos pobres coitados ainda haverão de valsar estes versos: “E os olhos / Escuros / Tão puros, / Os olhos / Perjuros / Volvias, / Tremias, / Sorrias, / P’ra outro / Não eu!”

Eis o fato próximo: vou-me embora para a Lingüística. Talvez também para a Filologia. Disseram-me os entendidos que um doutorado na área poderá me ajudar nas pesquisas teológicas que bem sabes consomem todo o tempo que eu desejaria consumir contigo. Gênesis é-me claro quanto às implicações do “crescei e multiplicai-vos.” Imaginava-te mais religiosa. Pois... Viver é preciso e navegar é viver. Espero ao menos, naquela fria rigidez berlinense, aprender a escrever versos etílicos às louras bávaras. Tu, morena! Por que o dulçor deste nosso idioma não te comoveu quando cantado? Por que fui eu quem tantos poemas cantou? Se escrevesse de ti “chove nela graça tanta, que dá graça à formosura”, ainda me deixarias ir ao degredo? Pois igual a Camões escrevi, moura lusitana. Versejarei muito neste outubro que se avizinha. Há entre os germanos muita festa em outubro... E tu gostas tanto de festas!

Escrevi-te o suficiente.

Com o coração pensando e com o cérebro sentindo,

Eu. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

"A Terceira Margem do Rio" e o seu paralelo com o Terceiro Setor [especulação e reflexão]

[FIPA]


A terceira margem do rio é o próprio rio, é a água corrente que intermedeia as margens direita e esquerda -- para o lado de cá e para o lado de lá do aqui (para quem está na terceira margem) e do ali (para quem está na primeira e na segunda margens, conforme o ponto de vista geográfico ou das idéias). A terceira margem é onde a canoa está; então, é onde o homem que está na canoa também está. É onde a água cobre a terra, na ralidão espraiada das beiras ou no profundo leito central. A terceira margem do rio é onde o pó não é seco, porque não mais apegado à terra; é o pó molhado, é o barro-argila do qual se serve o Oleiro que forma todos os homens -- tanto aqueles cujo pó seco chora lágrimas de mar salgado no rio doce quanto aqueles cujo pó molhado chora lágrimas de rio doce no mar salgado. A personagem principal do conto parece ser um estóico membro desta primeira cepa, a dos introvertidos.    

O homem (o pai) fugiu para lá (para a terceira margem, a qual passou a pertencer) como se fora um Robinson Crusoé às avessas, que não saiu da Civilização para, na crueza natural primitiva, reconstruí-la na medida das suas possibilidades: é o homem que foge da pouca civilização da sua aldeia para a caverna sem segundas-terças-quartas-quintas-Sextas-Feiras-sábados-e-domingos, a caverna atemporal da qual não gostaria de ter saído -- espécie de sacra e superior “barbárie primordial” destituída do khrónos convencionado, onde há o fazimento de um kairós capaz de encaminhá-lo para o aíôn; foge-se do movimentado relógio da sociedade criando-se uma oportunidade (fluvial, no caso), capaz de conduzir o homem ao intemporal-estático, à negação da entropia coletiva que apodrece os homens em conjunto na grande placa de petri do Mundo, quando ele, indivíduo atomizado, quer é se desfazer com a Natureza, como uma manga amolecendo madura e passando à terra que a irrigou na mangueira, sendo descumpridor, desordeiro, natural...

Este exílio, porém, pode ser mais: uma espécie de “meta-estado de natureza” no qual, feito um voltaireano bon sauvage, ele poderia conviver apenas consigo mesmo, como único indivíduo-para-si num monólogo dialético e silencioso com seu espírito arcano. Daí, como ser membro da espécie abdicando do calor e conforto gregários? Ele parece não querer ser membro da espécie. Como desdenhar da descoberta do fogo, adorado até pelos neanderthais? Ele parece não querer guardar do frio a própria carne ou mesmo assar a carne dos animais a fim de obter alimentação mais protéica (e, decorrentemente, ganhar gordura para se guardar do frio). É tudo cru e nu. Todo engenho, técnica e arte humanas sucumbem à esta auto-infligida solidão.

Ou teria ele, como Nabucodonosor, enlouquecido? Do rei de reis babilônico a Escritura Sagrada semelhantemente atesta: [...] e foi tirado dentre os homens, e comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pêlo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves.” (Daniel 4:33). Eis um homem-bicho, um proto-lobisomem, um bípede ruminador que quer andar com as próprias pernas, alguma coisa bruta porém consciente (um esquizóide je ne sais quoi existencial?) caída entre o sapiens e o sapiens-sapiens -- um elo perdido não da evolução biológica hominídea, mas da alma não mapeável que envolve as cadeias do DNA humano. 

Por que não um grito de liberdade tão drástico que quis se libertar não apenas do rolo compressor dos poderes mundanos constituídos (das “diversas sensatas pessoas”), mas ainda se liberar de qualquer vínculo com a opressão oriunda das próprias impressões do homem (dele, do pai) acerca do mundo desde sempre instituído? Sartre provavelmente diria que ele estava condenado a ser livre (vide “O Ser e o Nada”), todavia bem se pode afirmar que nós nos livramos de todo peso condenatório quando simplesmente aprendemos o que é condenação e o que é liberdade, ou seja, aprendemos o que é absolvição e o que é escravidão. Talvez aqui esteja a linha-mestra do mistério que arrebatou o sujeito para a canoa, para o rio, para a sua consciente diluição nos Quatro Elementos: uma busca algo panteísta e libertária por redenção, que, infelizmente, por sua própria natureza anti-logos, lançou a personagem na vacuidade absoluta do caos.

Dito isto, comparar a Terceira Margem do Rio ao Terceiro Setor é, em efeito espelho, dizer que o Terceiro Setor (que é aquele emancipado do Estado Coletivista e do Privatismo Particular; por influência deste último, inclusive) é a realidade almejada pelo Primeiro Setor através de oficialismo burocrático e pelo Segundo Setor através de certo “egoísmo positivo”[1]. Diz-se “realidade” porque o Terceiro Setor é aquele que se propõe a, livremente (note-se que a Liberdade é um valor do Segundo Setor), realizar/oferecer serviço (que é a missão governamental do Primeiro Setor) em prol do Bem Comum.  

O Terceiro Setor é uma terceira margem porque corre, como o rio e como a canoa com o pai, entre duas margens opostas, antagônicas até -- a margem do coletivo e a margem do individual. O Estado vive do rio: arrecada impostos dos peixes pescados e vendidos, das canoas que pescam os peixes e dos pescadores. A Iniciativa Privada vive do rio: pescadora, ela pesca e vende os peixes, bem como fabrica, compra e vende canoas. O rio, porém, tudo realiza; é na terceira margem que nascem os peixes, é nela que os peixes são pescados, ou seja, é dela que surge a sardinha frita para os lares ribeirinhos e a enlatada (taxada pelo governo) nos supermercados. O Primeiro e o Segundo Setores acabam sendo, portanto, subsidiários e, por que não?, intrusos. Afinal, o rio liberalmente tudo oferece.



[1] Acerca do assunto, pronunciou-se a Dra. Felícia Ayako Harada: “O terceiro setor surgiu com a deficiência do Estado em atender questões sociais nos mais diversos segmentos, quer sejam filantrópicos, culturais, recreativos, científicos, de preservação do meio ambiente e outros. Em regra, o terceiro setor é constituído por organizações sem finalidades lucrativas, não governamentais, gerando serviços de caráter público. O primeiro setor é o governo e o segundo setor são as empresas privadas.”

sábado, 18 de junho de 2016

Diário em Midgard -- VI

Será o luar mais forte que a própria lua? O luar, sabei, persiste sendo coisa do sol. O sol, ignoto por doze horas, ainda assim dá as caras. Então, que é a lua senão o espelho refletor de uma glória que não a sua? A fogueira que aquece nossos pés e assa nossas batatas é, por si, mais refulgente que a adorável rainha noturna.

Ah, quereis saber qual é a particular glória da lua? É a humildade, crianças. A lua é uma virgem ajoelhada diante da hóstia galáctica, é como aquele profeta que descia do monte com o rosto resplandecendo -- um poucochinho -- Ele.

Todavia, quem ousará dizer que a lua é inferior à estas fagulhas natimortas ou mesmo de qualidade severamente mais modesta que qualquer espirro das anãs negras? A lua nos está sorrindo, radiosa como o grande prato de latão do ourives da aldeia, porque também esta fogueira nos ilumina a face. 

Eterna entropia

Dentro da caixinha, uma galáxia.
Dentro do frasquinho, um oceano. 
Todo líquido escoando pelos anos.
Toda matéria gastando-se solitária.  

O sol mirrando no horizonte.
A mirra escorrendo na fronte.
A hora esvaindo-se pelo dia.
A soledade gotejando a noite.

As estrelas têm ainda um nome?
Já se evaporaram os sete mares?
Toda água, terra, fogo e ar: adeus.
Todas as coisas voltam para Deus. 

Corajosa constância

Um velho torreão
[açoitado pelo mar,
negro da luz solar]
Anuncia solidão.

Hirto sobre o penhasco
[emudecido pela névoa,
granito cheio de nódoa]
Enche o bruto de asco.

Que heróico canto
[que canção tão boa,
que maré pulmonar]
Esconde o pranto. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Diário em Midgard -- V

O dente-de-leão se vai, empurrado para o Oriente por uma lufada de ar quente saída da boca do cordeirinho. Atrás, as pétalas das orquídeas se dispersam para o Oeste, forçadas pela disparada das mariposas-esfinge. As roseiras e as açucenas permanecem hirtas e hieráticas, no centro do promontório.

Tenho sono. Em poucas horas (três, talvez) poderei descansar por todas as semanas passadas. O tempo me toca com a leveza da brisa matutina, lentamente consumindo a pele seca dos meus pés e o orvalho fresco no qual eles se banham. Vinte e quatro horas fluem como vinte e quatro séculos. O tempo, impassível, frui do cenáculo da Eternidade?

Floresce a fauna, segundo sua espécie, pela sementeira da Inteligência na terra espargida. E a erva -- grande e pequena -- pela aurorada libido da luz enche os campos. As crianças, brincando aos pés da amendoeira florescida, cantam: “No ano que vem, aqui no além!”

terça-feira, 7 de junho de 2016

Aquila Non Generat Columbam

Com quais penas quis subir Ícaro aos céus?
Depenou uma águia e falsas asas costurou!
Eis ali a libélula que Leonardo engendrou.
Eis aí a passarola que Gusmão idealizou.
Mas o teu sonho não foi o de singrar os ares…
Jogaste-te do pináculo do templo:
O anjo caído te deu as asas da soberba.
Quiseste subir ao alto não como pomba
Que humilde se eleva até a quieta alba.
Babel se erigiu e ainda domina a tua alma.
Não deixaste de olhar para os cumes,
Para as alturas que não se devem alcançar.
Não te contestas com o ninho na caverna
E queres para a montanha tua casa levar.
Ah! Tu és louco, carnal semi-deus!
Olha o caldeu primeiro, depois o persa.
Na rocha, na argila, no estandarte: a águia.
O pequeno coração de Ciro se engrandeceu
E fez seu igual deus o empíreo do próprio eu.
Teus braços e peito de prata o Céu derreteu!
Das Sete Colinas o aquilifer se ergueu.
Marchaste pelo mundo dilatando a tirania,
Pisando o fraco, aniquilando o forte,
Conquistando sem paz Jerusalém,
Expedindo mártires para o além.
Por mais tempo se prolongaram
Os batizados sob as frias penas.
Os pintainhos debaixo das quentes asas
Da galinha protegidos se ajuntam…
Sacro é o império? Russo vitupério!
Pisaste o lírio da Virgem. Douradas
Flores-de-lis da alva bandeira arrancaste.
O pavilhão de Ninrode tremulou
E o Corso, despido das asas da abelha,
Em cesáreo trono aquilino se assentou.
Balançaste o berço do filho de Satã.
Que infernal potestade a Adolfo armoriou?
O sangue de Sem impiamente correu,
Mas mil anos o terceiro reino não viveu.
Ave maldita, é gancho tua ária cruz!
Voltaste para a Babilônia ancestral
E Saddam amou-te com obsessão triunfal…
Mas no Ocidente levantou vôo a tua rival.
A heráldica natural esganou-te na terra:
A sábia cã americana venceu a guerra.
Queres ainda no escudo estampar tal mal?
Cunharás no dinheiro o teu vício animal?
Subirás um pouco e então muito cairás:
O abismo outro abismo invocará. Rirás
Ainda do Bem que te iguala a todo alguém?

Publicado originalmente aqui: https://catanduvanaoesquece.com/2015/02/17/aquila-non-generat-columbam/