quinta-feira, 23 de junho de 2016

"A Terceira Margem do Rio" e o seu paralelo com o Terceiro Setor [especulação e reflexão]

[FIPA]


A terceira margem do rio é o próprio rio, é a água corrente que intermedeia as margens direita e esquerda -- para o lado de cá e para o lado de lá do aqui (para quem está na terceira margem) e do ali (para quem está na primeira e na segunda margens, conforme o ponto de vista geográfico ou das idéias). A terceira margem é onde a canoa está; então, é onde o homem que está na canoa também está. É onde a água cobre a terra, na ralidão espraiada das beiras ou no profundo leito central. A terceira margem do rio é onde o pó não é seco, porque não mais apegado à terra; é o pó molhado, é o barro-argila do qual se serve o Oleiro que forma todos os homens -- tanto aqueles cujo pó seco chora lágrimas de mar salgado no rio doce quanto aqueles cujo pó molhado chora lágrimas de rio doce no mar salgado. A personagem principal do conto parece ser um estóico membro desta primeira cepa, a dos introvertidos.    

O homem (o pai) fugiu para lá (para a terceira margem, a qual passou a pertencer) como se fora um Robinson Crusoé às avessas, que não saiu da Civilização para, na crueza natural primitiva, reconstruí-la na medida das suas possibilidades: é o homem que foge da pouca civilização da sua aldeia para a caverna sem segundas-terças-quartas-quintas-Sextas-Feiras-sábados-e-domingos, a caverna atemporal da qual não gostaria de ter saído -- espécie de sacra e superior “barbárie primordial” destituída do khrónos convencionado, onde há o fazimento de um kairós capaz de encaminhá-lo para o aíôn; foge-se do movimentado relógio da sociedade criando-se uma oportunidade (fluvial, no caso), capaz de conduzir o homem ao intemporal-estático, à negação da entropia coletiva que apodrece os homens em conjunto na grande placa de petri do Mundo, quando ele, indivíduo atomizado, quer é se desfazer com a Natureza, como uma manga amolecendo madura e passando à terra que a irrigou na mangueira, sendo descumpridor, desordeiro, natural...

Este exílio, porém, pode ser mais: uma espécie de “meta-estado de natureza” no qual, feito um voltaireano bon sauvage, ele poderia conviver apenas consigo mesmo, como único indivíduo-para-si num monólogo dialético e silencioso com seu espírito arcano. Daí, como ser membro da espécie abdicando do calor e conforto gregários? Ele parece não querer ser membro da espécie. Como desdenhar da descoberta do fogo, adorado até pelos neanderthais? Ele parece não querer guardar do frio a própria carne ou mesmo assar a carne dos animais a fim de obter alimentação mais protéica (e, decorrentemente, ganhar gordura para se guardar do frio). É tudo cru e nu. Todo engenho, técnica e arte humanas sucumbem à esta auto-infligida solidão.

Ou teria ele, como Nabucodonosor, enlouquecido? Do rei de reis babilônico a Escritura Sagrada semelhantemente atesta: [...] e foi tirado dentre os homens, e comia erva como os bois, e o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceu pêlo, como as penas da águia, e as suas unhas como as das aves.” (Daniel 4:33). Eis um homem-bicho, um proto-lobisomem, um bípede ruminador que quer andar com as próprias pernas, alguma coisa bruta porém consciente (um esquizóide je ne sais quoi existencial?) caída entre o sapiens e o sapiens-sapiens -- um elo perdido não da evolução biológica hominídea, mas da alma não mapeável que envolve as cadeias do DNA humano. 

Por que não um grito de liberdade tão drástico que quis se libertar não apenas do rolo compressor dos poderes mundanos constituídos (das “diversas sensatas pessoas”), mas ainda se liberar de qualquer vínculo com a opressão oriunda das próprias impressões do homem (dele, do pai) acerca do mundo desde sempre instituído? Sartre provavelmente diria que ele estava condenado a ser livre (vide “O Ser e o Nada”), todavia bem se pode afirmar que nós nos livramos de todo peso condenatório quando simplesmente aprendemos o que é condenação e o que é liberdade, ou seja, aprendemos o que é absolvição e o que é escravidão. Talvez aqui esteja a linha-mestra do mistério que arrebatou o sujeito para a canoa, para o rio, para a sua consciente diluição nos Quatro Elementos: uma busca algo panteísta e libertária por redenção, que, infelizmente, por sua própria natureza anti-logos, lançou a personagem na vacuidade absoluta do caos.

Dito isto, comparar a Terceira Margem do Rio ao Terceiro Setor é, em efeito espelho, dizer que o Terceiro Setor (que é aquele emancipado do Estado Coletivista e do Privatismo Particular; por influência deste último, inclusive) é a realidade almejada pelo Primeiro Setor através de oficialismo burocrático e pelo Segundo Setor através de certo “egoísmo positivo”[1]. Diz-se “realidade” porque o Terceiro Setor é aquele que se propõe a, livremente (note-se que a Liberdade é um valor do Segundo Setor), realizar/oferecer serviço (que é a missão governamental do Primeiro Setor) em prol do Bem Comum.  

O Terceiro Setor é uma terceira margem porque corre, como o rio e como a canoa com o pai, entre duas margens opostas, antagônicas até -- a margem do coletivo e a margem do individual. O Estado vive do rio: arrecada impostos dos peixes pescados e vendidos, das canoas que pescam os peixes e dos pescadores. A Iniciativa Privada vive do rio: pescadora, ela pesca e vende os peixes, bem como fabrica, compra e vende canoas. O rio, porém, tudo realiza; é na terceira margem que nascem os peixes, é nela que os peixes são pescados, ou seja, é dela que surge a sardinha frita para os lares ribeirinhos e a enlatada (taxada pelo governo) nos supermercados. O Primeiro e o Segundo Setores acabam sendo, portanto, subsidiários e, por que não?, intrusos. Afinal, o rio liberalmente tudo oferece.



[1] Acerca do assunto, pronunciou-se a Dra. Felícia Ayako Harada: “O terceiro setor surgiu com a deficiência do Estado em atender questões sociais nos mais diversos segmentos, quer sejam filantrópicos, culturais, recreativos, científicos, de preservação do meio ambiente e outros. Em regra, o terceiro setor é constituído por organizações sem finalidades lucrativas, não governamentais, gerando serviços de caráter público. O primeiro setor é o governo e o segundo setor são as empresas privadas.”

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