domingo, 26 de junho de 2016

Carta à Ela [trecho do inacabado conto “Sob o Sol do Inverno”]

Helena,

Quando pela primeira vez te vi, na disparada dos últimos minutos da despedida coletiva, não digo que te amei “à primeira vista”. Não se ama à primeira vista porque a primeira vista nada é senão um choque apresentativo -- uma parusía da qual talvez não se tenha muita consciência -- para quem poderá amar verdadeiramente no futuro. É na segunda vista que as coisas podem começar a acontecer, que o coração pode romper com seu gládio sentimental qualquer precaução mental e, então, o anjo cupido dos nossos comuns anseios pode operar sua missão: gerar um casal.

Pois nós nos revemos segunda vez. E outra vez, e mais uma vez e ficaram sendo uma rotina estes “encontros”. No convívio, àquela estrutura de imagens e idéias se somaram detalhes gestuais, corporais e faciais que vieram desaguar num... “aí, como ela é bonita!” Progrediram as descobertas, especializando-se mais: o sorriso comedido diante de uma gentileza, o riso um pouco forçado quando da piada que eu sabia tosca, a gargalhada livre e aberta arejando o maçante calendário; o raro sussurro com semi-confidências, a fala venial para o trato público, o dominante grito arisco que põe “ordem no coreto”.

O caminho foi se estendendo e, medrado por não sei o quê de venturoso, criou para nós dois percursos idênticos na vocação e no ideal. Dois percursos que cada um de nós dizia querer trilhar para o mesmo lugar, mas inda assim eram dois percursos, enfim, duas trilhas que, não obstante paralelas, não se expunham a cruzar-se no horizonte; tampouco parecia possível uni-las numa estrada única...  Poderiam assim verdade e vida caminharem em caminhos outros que não “o-um caminho”? Via, veritas et vita, Helena, é o triunvirato da felicidade proposta pelo próprio Cristo.

Não poderia (e não queria) supor que aquela fosca arruela prateada era uma aliança de compromisso. Ah, talvez um velho anel de uma velha avó viúva! Não era. “Que pena!”, queixei-me chateado. Afinal, obedecia e obedeço à Lei. Resolvi voltar para o meu lugar, para o canto destinado ao reverente observador de pássaros raros, aquele que quer ver a ave voando em liberdade celestial. Se lestes “Quadrilha”, poema de Drummond, entenderás o que falo. Se lestes “O Lírio do Vale”, romance de Balzac, compreenderás o que digo. Nem sempre se pode ter correspondido um amor. Nem sempre a boa mulher vai descansar nos braços do homem que verdadeiramente a quer e deseja. Melhor fosse que, matematicamente, se equacionasse o amor; permitindo-se que um homem não se interessasse por moça noutro sujeito interessada ou que, mesmo não interessada em seu par oficial, obrigada à uma relação já permanentemente estabelecida. Seriam as coisas mais fáceis. Seria o mundo muitíssimo mais agradável. Muitos pobres coitados ainda haverão de valsar estes versos: “E os olhos / Escuros / Tão puros, / Os olhos / Perjuros / Volvias, / Tremias, / Sorrias, / P’ra outro / Não eu!”

Eis o fato próximo: vou-me embora para a Lingüística. Talvez também para a Filologia. Disseram-me os entendidos que um doutorado na área poderá me ajudar nas pesquisas teológicas que bem sabes consomem todo o tempo que eu desejaria consumir contigo. Gênesis é-me claro quanto às implicações do “crescei e multiplicai-vos.” Imaginava-te mais religiosa. Pois... Viver é preciso e navegar é viver. Espero ao menos, naquela fria rigidez berlinense, aprender a escrever versos etílicos às louras bávaras. Tu, morena! Por que o dulçor deste nosso idioma não te comoveu quando cantado? Por que fui eu quem tantos poemas cantou? Se escrevesse de ti “chove nela graça tanta, que dá graça à formosura”, ainda me deixarias ir ao degredo? Pois igual a Camões escrevi, moura lusitana. Versejarei muito neste outubro que se avizinha. Há entre os germanos muita festa em outubro... E tu gostas tanto de festas!

Escrevi-te o suficiente.

Com o coração pensando e com o cérebro sentindo,

Eu. 

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