domingo, 26 de junho de 2016

Esponjas de sol - XVIII

541. Se Jesus Cristo não é Deus, Deus não existe.

542. Não existe o tal “inconsciente-sombra” teorizado por Jung. Existe, isto sim, uma contra-consciência dialética, cuja potentíssima mola propulsora é [via de regra] o medo arrebatado pela memória. Os cristãos, mais realistas, com razão a chamam simplesmente de “a carne.”

543. Deus da Eternidade te mira perdido na vacuidade, do Seu “Eu-Sou-O-Que-Sou” te olha com Significado, te admira quando não sabes para onde irás fatigado. Deus te contempla como tu contemplas Van Gogh nas galerias empoeiradas dos museus acinzentados. Deus, o Quem que desbastou o informe vazio do Caos, te chama ao Logos, às águas vivas da Realidade, à pura estrutura do Ser -- Imagem e Semelhança. Contempla a tua consciência dizendo o que é e o que não é; percebe depois tua carne gritando louca contrariedade. Vem repousar nas colinas de Sião, vem dormir sossegado nas praias quentes da Luz Inacessível. Vem sem demora! Ele te quer encarar face à face, para que se espelhem os sorrisos, para que se encontrem o Pai, o Filho e o Espírito Santo com o espírito, com alma e com o corpo.

544. Quem é capaz de entender os tempos? Quem será capaz de compreender os tempos? Quem lerá a escrita que está na Parede do Mundo e na particular parede de cada homem? Lá, está a mesma mensagem: "Mene, mene, tequel, ufarsim." Sempre o mesmo dito escrito pela mesma mão -- os dedos de Deus. Na parede do teu quarto, na parede do teu escritório, na parede do teu banheiro, na parede da tua sala, na parede da tua cozinha, nas paredes todas tuas e nas paredes todas do mundo que os teus olhos acompanham pelos caminhos da existência individual e coletiva. Lá está o dito, julgando-te e julgando-nos: "Contou Deus o teu reino, e o acabou. Pesado foste na balança, e foste achado em falta. Dividido foi o teu reino, e dado a outros." A escrita está na parede, para bárbaros e civilizados! Quem lê, entenda. 

545. Quando o martelo for batido e for a última noite da tua vida, quando o anjo da morte vier te arrancar da cama quentinha, quando mastigares tua saliva nos corredores do hospital, quando as luzes se apagarem porque teus olhos se apagaram, quando a multidão gritar “gol!” e o jornal publicar teu obituário, quando teu suor for espoliado e quatro velas forem acesas... Para onde vais, afinal? Como estás com teu Deus? Escolhe já, agora, antes que seja tarde demais, porque a ponta da tua língua não será molhada...

546. “Eu sou quem sei?” -- perguntou o recém-nascido, não o sábio ancião de barbas brancas.

547. O ato-falho não expressa uma realidade inconsciente. Expressa, isto sim, uma crença do consciente (geralmente, arraigada -- situação mental que, todavia, como dito, não expressa necessariamente uma realidade de fato) que a memória “deixou” (daí, lapso) vir à boca ou ao pensamento.  

548. A ideologia de Satã? O anti-Logos: almeja safar-se das estruturas inamovíveis e eternas da mente e dos conteúdos que substanciam e das formas que consubstanciam o Ser.

549. Oh, vós, mentes inquietas do passado que inquietastes as mentes do futuro -- este presente inquieto sem eternidade. A inquietude diante da resposta final que é, senão dúvida trevosa e doentia? Vós, céticos e niilistas das eras introdutórias! Vós, pessimistas e descrentes primevos! Vós sois os algozes do nascer do sol, vós sois os carrascos da comum verdade!

550. Nos primórdios da Igreja, os teólogos excessivamente alegoristas e simbolistas assim o eram porque também eram excessivamente místicos -- ou seja, credulíssimos. Hoje em dia, são alegoristas e simbolistas justamente os teólogos mais descrentes, aqueles para os quais tudo é “linguagem mítica” e “arcaica”, aqueles que fingem ter fé em Deus quando precisam fazer valer o salário que a congregação lhes paga pelos sermões domingueiros mas que, tão logo se afastem do púlpito, começam a cusparar nas Sagradas Escrituras com a fétida saliva gestada na boca de Zaratustra. Com razão dizem os italianos: “Certuni si fanno scrupolo di sputare in chiesa, e poi ucciderebbero il prete in sacrestia.”

551. Oh, Flor de Luz e Sapiência, / Dourado Lírio da Revelação, / Revela em nós tua Verdade: / A doce candura da Iluminação.

552. Entre a inteligência íntima e a indigência pública, o ego.

553. Não é a descrença dos ateus e céticos de todas as escolas, mas é a crendice estúpida dos “crentes” sem Credo o maior inimigo da boa Apologética. Na contramão da recomendação petrina, eles se negam a estar “preparados para responder com mansidão e temor a qualquer” que lhes “pedir a razão da esperança” que há em nós. Por isso, respondem com violência e medo a todos aqueles que tentam com eles estabelecer um debate, desperdiçando, conseqüentemente, a oportunidade (uma “propícia plenitude”) de racionalmente semear as Boas-Novas. O verdadeiro crente crê porque sabe -- nele operou-se a metanoia.

554. Relendo Darwin, outra vez percebi isto: que a Vida prescinde dos seres viventes, na medida em que há um dinâmico impulso que objetivamente impele o indivíduo a reproduzir-se, com seu próprio sacrifício quando não há “destinação moral” em seus miolos (daí, freudianamente, Eros pare Thanatos), em benefício não só da própria espécie, mas de todas as outras espécies (que, por sua vez, assim também operam). Em outras palavras, há uma poderosa idéia-vontade mantenedora da Vida “custe o que custar”, mesmo que sobre o cadáver dos vivos. Paradoxo: eis aí um argumento contra quaisquer materialismos -- científicos ou filosóficos. Afinal, “algo” obriga que a Vida exista apesar daqueles que vivem. Aí está o rastro da questão: existirá Vida mesmo que não existam os vivos? É o que o Darwinismo sugere.

555. O Cristianismo é a religião do ordinário. Em suma, ele pertence ao cotidiano. Ideologia, porém, é aquilo que se distingue do dia-a-dia.

556. Pensamento: forma. Sentimento: conteúdo.

557. Nada me tira das idéias este vislumbre: a memória é um caracol, meticulosamente estruturado pela proporção áurea.

558. Primeiro os homens fizeram jaulas para si próprios. Só depois vieram as gaiolas para os pássaros. Nós nos aprisionamos antes de aprisionar um animal.

559. O instinto é um estilingue natural que a cultura mundana pode transformar numa metralhadora mortífera e que a fé cristã mantém sendo apenas um estilingue -- pragmaticamente útil para quando for moralmente útil utilizá-lo.

560. Coragem é corar (de medo ou de vergonha) mas agir. 

561. O Homem é um núcleo de caos e logos -- carne e espírito. O processo de ordenação da Terra também se opera naquele que é pó da terra. 

Nenhum comentário: