domingo, 24 de julho de 2016

Diário em Midgard -- VII

Não há biblioteca municipal ou pública por aqui. Todas as bibliotecas são caseiras. Mas, nem por isso pode-se dizer que sejam propriamente particulares. Ainda que cada uma delas pertença fisicamente à cada família que as custodia em cômodos especiais em seus lares, as prateleiras são livres e abertas aos amigos, aos caminhantes amigos e aos vizinhos amigos. “Vem e lê”, anuncia, a propósito, uma tabuleta afixada no umbral da porta lateral de uma grande cabana.

Estou numa dessas. A da casa da pintora de afrescos. Sua biblioteca é, como a maioria, especializada. Trata de Arte e Filosofia da Arte, sobretudo. Há alguns manuscritos muito antigos de Vitrúvio, Dante, Xenócrates e Xie He. Porém, há outros livros-assuntos preciosos. Observo uma iluminura do Liber Divinorum Operum de Santa Hildegarda de Bingen. Leio uma página do Temporum Ratione de São Beda, obra magna do século VIII: “A redondez da Terra, não sem razão chamada ‘o orbe do mundo’ nas páginas das Escrituras Sagradas e da literatura ordinária. É de fato, como uma esfera em metade do universo inteiro.”

Saio para o jardim. Carrego comigo um pequeno volume caligrafado do Eclesiastes. Já não quero lê-lo. Encontro Helena no caminho e, entre a leitura de Salomão e a prática dos conselhos por ele escritos, decido pelas vias de fato com a existência: gozar a vida com a mulher que amo todos os dias da minha vida vã, os quais Deus me deu debaixo do sol. 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Esponjas de sol - XIX

562. Mais de Deus e menos dos deuses. Mais do Céu e menos das ideologias. Mais da Fonte e menos das garrafas térmicas. Mais da Lenha e menos do propano. Mais da Ferramenta e menos das máquinas. Mais da Palavra e menos dos gramáticos. Mais da Lua e menos dos néons. Mais do Conforto e menos da arquitetura moderna.

563. Cativo é o homem da própria imaginação, arrastado pela imagem que lúdica se revela. A Realidade? É a brisa da tarde quente de verão, é o sopro cálido do vale da loucura que enleva. Quão leves são as pedras! -- pétreas nuvens de ilusão. Construirás castelos de não densa percepção?

564. A isca no anzol sempre carrega uma verdade para o peixe: a nutrição da mísera porção de comida no mortífero metal enganchada.

565. Moisés com o rosto radioso e eu com as faces sujas com as cinzas do carvão da queima do Bezerro de Ouro. Calvino.

Pedro crucificado de cabeça para baixo e eu com as duas chaves amarradas à cintura rasgada do hábito. Lutero.

Jeremias chorando por Jerusalém em chamas e eu regando com lágrimas os cardos frios da Escócia. Knox.

566. A Madalena arrependida foi, antes de ser a Madalena adúltera, uma Madalena traída.

567. Todos os “grandes crimes” da História foram praticados no mínimo com o placet do Estado. Os crimes que mais mataram foram os crimes no qual o Estado foi o assassino. A estrutura que quer impedir um homem de ser o lobo de outro homem freqüentemente é o lobo da Humanidade.

568. Entre os soldados americanos que libertaram o Campo de Dachau certamente havia membros anti-semitas da Ku Klux Klan. Assim como, possivelmente, vários dos oficiais generais alemães criam, no íntimo, na igualdade racial entre os homens. Alguns destes americanos receberam comendas e talvez até tenham os nomes inscritos no memorial Yad Vashen, enquanto que alguns daqueles alemães foram mortos pelo Mossad. O agir-pensamento estatal dos EUA e da Alemanha nunca foi o agir-pensamento de todos os indivíduos “ianques” e “nazistas”.

569. Conforme se afasta da terra, da madeira e das pedras dos campos rurais (meio mais natural), encastelando-se no piche, no aço e no concreto das grandes cidades (meio mais artificial), menos conservador o homem se torna -- mais culturalmente libertino, então. O habitat coopera para determinar o pensamento: do livre-arbítrio da floresta à livre-agência do zoológico. Impedido pelo meio de ser o que se é, o homem mutilado nas suas potências passa a agir mirradamente, enfim, uma vez deformado, atua deformando o mundo, enchendo-o de vazio, de nada. O peixe nada na água, que é líquida, mas não pode nadar em qualquer líquido. O natural trás significado e impele à uma existência mais próxima das necessidades corporais do homem, saneadoras das necessidades mentais. O artificial, por sua vez, retira do homem o meio que lhe propiciaria contato íntimo com estas necessidades. O homem não sente o próprio suor, não sua; não sente forme através da fadiga do trabalho, não tem apetite. Até que ponto os grandes centros não são o nosso zoológico? Não tendo que lidar com as suas questões mais primárias, o indivíduo fica restrito a simulacros, a caricaturas, a deformações secundárias. É uma crise de significados, em suma.

570. Quem ainda sabe o que é sede e o que é fome? Poucos as sentem. Dada a abastança de substâncias líquidas e nutrícias para o corpo, a rotunda maioria das pessoas que conheço tem, no máximo, apenas vontade de beber e de comer, ou seja, trata-se de habitual volição concatenada a prazer. É preciso, alguma vez, padecer seca sede e dolente fome para, efetivamente, dar-se valor à água e à comida. Assim poderá saber-se o que é e como é o frescor mais natural aliviando a boca até à garganta e o que é e como é ter farto o estômago mamífero.

571. Ou nós viemos da lama ou do pó da terra. Compreensível que os evolucionistas tanto se apeguem à lama e, nas suas conjecturas algo artísticas, nos desenhem escorregadiamente saindo dela. Afinal, a lama parece-se muito com aquela “sopa protéica” de lodo genético que eles teorizam como sendo nossa fossa ancestral. Difícil mesmo seria, dentro desta lógica materialista, imaginar que do tão asséptico pó da terra (tão mais infértil que a mais fina areia!) pudesse ser formado o ser humano -- tão para além do húmus.

572. Preocupa-te com os fiapos e terás inteiro o tecido. Não disseram os antigos que o Mundo era a grande tapeçaria de Deus? Ele nos quer fiando mesmo os nossos trapos e panos mais imundos: será novo o tecido velho pelo qual passar linha nova. Um sudário de luz brotará da imundície das vestes rotas. 

573. A Arte sempre deforma, mesmo que suavemente, a Realidade. Afinal, a Realidade nunca será um símbolo, que é um elemento semi-descritório da abstração do real, logo, é incompleto e não totalizante porque não pode (e não consegue) abranger a completude total da própria Realidade -- inapanhável na sua integralidade, seja por tinta, por palavra, por pedra, etc.

574. Platão, ao falar das idéias universais, falava sem saber do processo criatório divino ex nihilo. Toda primeira coisa que Deus criou foi a idéia-da-coisa (essência primordial) depois reproduzida nos seus exemplares posteriores. Pena que o filósofo não pôde ler sequer o Pentateuco!

575.  Atenção gera tensão.

576. Eu falo muito com Deus. Muita besteira, certamente. Deus fala pouco comigo. Muito pouco. Mas, quando fala...

577. A Sincronicidade da qual fala Jung não existe como estrutura autônoma de significação, enfim, como “avisos coincidentes” que tendem à manifestar determinado significado verdadeiro acerca da Realidade. Trata-se de mera emanação do nosso pessoal e dirigível “núcleo de logos.” Eventos mentais ou fáticos sincronísticos são um muco metafísico da nossa consciência-credulamente-em-volição, seja ela pautada pelo real ou pelo irreal, pela verdade ou pela mentira, pelo que é pelo que não é, pelo substancial existente ou pelo ilusionismo imaginativo.

578. Não existe inconsciente. Existe apenas consciência. Neste sentido, os sonhos são apenas reações oníricas voláteis emanadas (como descrição cênico-imaginativa) da nossa consciência igualmente volátil. Todo sonho é a narração de uma crença (permanente e/ou impermanente) consciente.

579. Atração sexual existe apenas entre homem e mulher. O resto -- todo o resto das perversões -- não passa de reação sexual auto-centrada.

580. Desventurado para o mundo, porque sou pobre de espírito; mas meu é o reino dos céus. Desventurado porque choro, mas serei consolado. Desventurado porque sou manso, mas herdarei a terra. Desventurado porque tenho fome e sede de justiça, mas serei farto. Desventurado porque sou misericordioso, mas alcançarei misericórdia. Desventurado porque sou limpo de coração, mas verei a Deus. Desventurado porque sou pacificador, mas serei chamado filho de Deus. Desventurado para o mundo, porque sofro perseguição por causa da justiça; mas meu é o reino dos céus...

581. Adão era analfabeto. De que lhe serviria leitura e escrita, afinal? A necessidade pós-edênica de ambas é para nós uma patente recordação da imperfeição humana.

582. Pecado é tudo aquilo que atenta contra o ser e o Ser.

583. Como provar a existência do imaterial abstrato? Ora, todo o concreto goteja um substrato cuja composição é estranha à sua aparente fonte material. Espírito? No cérebro subsistem sonhos, pensamentos, visões, imaginações, etc. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Uma breve apologia da Advocacia Cristã

Nem todos crêem no “Pecado Original”. Nem mesmo boa parcela dos advogados. Entretanto, para além de qualquer questionamento de ordem teológica ou filosófica, crer ou descrer da existência desta mácula carnal (e espiritual) não afeta este poderoso fato: ele existe. Existe sob vários nomes e titulaturas ideológicas, metafísicas ou não, mas existe como existe o átomo invisível e ao mesmo tempo visível; invisível como entidade teórica individual subjacente a todas as coisas que se albergam no Universo e visível como o próprio Universo e as próprias coisas por ele custodiadas. A questão, a dura e final questão acerca deste desmoronamento do ser -- no dizer de Santo Agostinho -- que é a natureza adâmica, é tão simples quanto complexa: trata-se do Mal imanente, a despeito de quaisquer explicações transcendentes. Quem, ateu ou crente ou agnóstico, poderá negar que o Mal existe imediatamente ao homem e que ele é mau? A pálida razão do mais obtuso dos homens jamais lhe poderá ocultar os sofrimentos e crueldades que operam neste nosso planetinha. Ecce mundus!

No mediato mundo científico do Direito, a materialidade do mal é facilmente identificável quando expressões tais como crime, pena, infração, ato ilícito, dolo e contravenção, p.ex., emergem dos textos normativos. Por mais que se esforcem os puristas kelsenianos e os mais renitentes positivistas ao postularem neutralismos lógicos e axiológicos, a própria terminologia jurídica denuncia que há algo de podre no Reino da Terra. O Direito não é puro: é sujo e conspurcado pela natureza humana, revelando-a como ela é: nuamente imperfeita como Adão e Eva após a última mordiscada no fruto proibido. Teorias puras, portanto, são abstrações sanitaristas da assepsia laboratorial de teóricos encapsulados em bunkers de marfim.

Mas, que é também o Direito enquanto instituto social senão um logos que pretende transformar o caos em cosmos? Não é, pois, um refletor daquele processo de Criação ordenada (funcional: com sentido) a partir da “bagunça” (disfuncional: sem sentido) descrita por praticamente todas as religiões? Não é o retrato da peleja entre desordem e ordem, esta mantida pela lei? E o que são os “operadores do Direito” senão serviçais daquela vidente cegueira que, nos pratos de sua balança, ordena Justiça, enfim, re-ordena temporalmente (daí, o khrónos como instrumento do logos) a Realidade com medidas proporções de ajustes na desordem das coisas?

Neste contexto, que é o advogado senão o único destes operadores que se insurgem pela Justiça em favor (e a partir) da Sociedade e do Indivíduo, contra a entropia do “estado de guerra” promovido pela ausência de Lei, seja na presença (lei positivada) ou na ausência (lei natural) do Estado?

O advogado é mais que um terceiro chamado para defender alguém perante o juízo. O advogado é o primeiro homem chamado – convocado como pessoa e invocado como profissional -- para defender a Justiça Humana diante de um juízo de homens. Na contramão da Trasímaco, ele critica a justiça não porque teme sofrê-la, mas porque receia praticá-la. Afinal, trata-se da atividade virtuosa e positiva da Justiça, enfim, de um cristão “faze aos outros o que queres que te façam” e não de um negativo confuciano do tipo “não faze aos outros o que não queres que te façam.” Quem advoga a causa alheia deixa de ser moral e pessoalmente neutro, de modo que, na defesa do ofendido (esteja ele onde estiver no que diz respeito à dialética posicional das partes), o advogado torna-se ofendido, incorporando em si todas as tensões humanas próprias da condição de injustiçado.

Afirmar isto é dizer que o advogado lida com os efeitos do Pecado Original mesmo que, como aludido, para ele tal “pecado” não passe de convenção social e culturalmente estabelecida em função dos vínculos gregários que colaboram para a manutenção harmônica da espécie e dos membros da espécie num determinado habitat. Afirmar isto, portanto, é dizer que o advogado exerce certo sacerdócio diante de Deus, diante Daquele que a Sagrada Escritura chama de “Justo Juiz”. Ora, que se dirá do homem que gira na funda suas pequenas pedras e as lança contra as potestades mundanas que querem no altar mamônico sacrificar os órfãos e as viúvas? É um sacerdote, um guerreiro mitrado. Que se dirá de toda uma classe de homens que erguem suas espadas e se lançam contra os inimigos do Caminho, da Verdade e da Vida? É uma tribo, é uma tribo de Levi -- mesmo quando se pretender “laica.” Tu serves a Deus, advogado! A propósito, certamente diria São Josemaría Escrivá: “Dios os llama a servirle en y desde la tareas civiles, materiales, seculares de la vida humana.” Curiosamente, o católico travestiu-se de um marco singularíssimo da “filosofia luterana”: o supremo valor dos simples ofícios diários. Que disse o grande reformador a um sapateiro que lhe indagou acerca do serviço a Deus? Isto: “Faze um bom sapato e vende-o por preço justo.” O ordinário medra o extraordinário. 

“Excesso de lirismo e mitificação de uma profissão dada às banalidades e pragmatismos do dinheiro e da desvirtuação malcriada dos ideais”, dirão alguns destas palavras minhas. Piegas? Um pouco, assumo. Não nego que aqui prego um ideal e que os desacertos dos sucessores de Santo Ivo são tão claros e evidentes como é claro o sol e evidente sua luz. Não nego que trevas e borrões maculam o espírito de não poucos bacharéis inscritos na Ordem. Porém, como predicar em favor da Justiça (e às vezes, por isso, contra o Direito) se não valer-se de palavras encharcadas de certo “pedantismo de estilo”? Um salmo não seria um salmo se pudesse ser lido como bula de remédio ou manual de instruções, se usasse de expressões vulgares e comuns a qualquer inicial, contestação ou réplica desalmada... É preciso falar e escrever com o coração na mão. É preciso, então, ser abobalhado e falar e escrever crendo naquilo que o establishment descrê: na metanoia, na mudança de mentalidade que nos faz crianças diante do Senhor e, por isso, nos muda também o vocabulário -- dando-nos palavreado infantil, ingênuo, inocente.

Citei esta palavra: Ordem. Palavra que remete à significação medieval e, por isso, cristã do termo. Um exército de soldados-generais, eu diria da nossa OAB. Ao menos, deveria ser. É? Creio que sim. Nela, em rígida igualdade entre um e todos, superam-se as hierarquias sociais do protocolo fuori le mura para assentarem-se os homens numa távola redonda. É assim? Creio que sim. Aqui, outra vez, predico e, ao predicar, faço a apologia de uma função social a partir da qual um homem decente pode trazer para sua mesa o pão nosso de cada dia e, ao mesmo tempo, colaborar ativamente para que o agricultor, o moleiro (“Ainda há juízes em Berlim!”, afinal), o comerciante e o padeiro vivam tranqüilamente mesmo quando, entre si ou contra os outros, querelas se avivarem sobre os respectivos caminhos do trigo em suas vidas. 

Aos advogados todos que me lerem, espero que me leiam acreditando naquele fato que deu início a este simulacro de artigo: o Pecado Original. Saibam que a simples crença numa ação originária afeta poderosamente a forma de se lidar com sua reação decorrente. Quem discerne a má causa melhor pode dar cabo do mau efeito. O cancro existe; é um fato. Porém, como operar o devido diagnóstico com o subseqüente tratamento específico se o elemento gerador da doença é desdenhado ou descrido? Só lhes posso dizer isto: apenas o Cristianismo pode explicar o mistério da Injustiça e apenas um advogado cristão poderá lutar, com armas efetivas, por Justiça -- que vai além do palavrório com que todos terminam seus pedidos de “deferimento” na peça processual... 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O tempo

O tempo -- útero da vida.
Carregado de ponteiros,
De setas castelãs e poeira,
Descasca o lábio da moça.

O tempo -- cal sobre o corpo.
Escoadouro de luz e areia,
Atira calendários no templo
Na arca da eternidade.

O tempo -- movimento puro.
Adornado de louros romanos
E de apoteoses gregas,
Enverniza o tronco podre.