domingo, 24 de julho de 2016

Diário em Midgard -- VII

Não há biblioteca municipal ou pública por aqui. Todas as bibliotecas são caseiras. Mas, nem por isso pode-se dizer que sejam propriamente particulares. Ainda que cada uma delas pertença fisicamente à cada família que as custodia em cômodos especiais em seus lares, as prateleiras são livres e abertas aos amigos, aos caminhantes amigos e aos vizinhos amigos. “Vem e lê”, anuncia, a propósito, uma tabuleta afixada no umbral da porta lateral de uma grande cabana.

Estou numa dessas. A da casa da pintora de afrescos. Sua biblioteca é, como a maioria, especializada. Trata de Arte e Filosofia da Arte, sobretudo. Há alguns manuscritos muito antigos de Vitrúvio, Dante, Xenócrates e Xie He. Porém, há outros livros-assuntos preciosos. Observo uma iluminura do Liber Divinorum Operum de Santa Hildegarda de Bingen. Leio uma página do Temporum Ratione de São Beda, obra magna do século VIII: “A redondez da Terra, não sem razão chamada ‘o orbe do mundo’ nas páginas das Escrituras Sagradas e da literatura ordinária. É de fato, como uma esfera em metade do universo inteiro.”

Saio para o jardim. Carrego comigo um pequeno volume caligrafado do Eclesiastes. Já não quero lê-lo. Encontro Helena no caminho e, entre a leitura de Salomão e a prática dos conselhos por ele escritos, decido pelas vias de fato com a existência: gozar a vida com a mulher que amo todos os dias da minha vida vã, os quais Deus me deu debaixo do sol. 

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