quinta-feira, 21 de julho de 2016

Esponjas de sol - XIX

562. Mais de Deus e menos dos deuses. Mais do Céu e menos das ideologias. Mais da Fonte e menos das garrafas térmicas. Mais da Lenha e menos do propano. Mais da Ferramenta e menos das máquinas. Mais da Palavra e menos dos gramáticos. Mais da Lua e menos dos néons. Mais do Conforto e menos da arquitetura moderna.

563. Cativo é o homem da própria imaginação, arrastado pela imagem que lúdica se revela. A Realidade? É a brisa da tarde quente de verão, é o sopro cálido do vale da loucura que enleva. Quão leves são as pedras! -- pétreas nuvens de ilusão. Construirás castelos de não densa percepção?

564. A isca no anzol sempre carrega uma verdade para o peixe: a nutrição da mísera porção de comida no mortífero metal enganchada.

565. Moisés com o rosto radioso e eu com as faces sujas com as cinzas do carvão da queima do Bezerro de Ouro. Calvino.

Pedro crucificado de cabeça para baixo e eu com as duas chaves amarradas à cintura rasgada do hábito. Lutero.

Jeremias chorando por Jerusalém em chamas e eu regando com lágrimas os cardos frios da Escócia. Knox.

566. A Madalena arrependida foi, antes de ser a Madalena adúltera, uma Madalena traída.

567. Todos os “grandes crimes” da História foram praticados no mínimo com o placet do Estado. Os crimes que mais mataram foram os crimes no qual o Estado foi o assassino. A estrutura que quer impedir um homem de ser o lobo de outro homem freqüentemente é o lobo da Humanidade.

568. Entre os soldados americanos que libertaram o Campo de Dachau certamente havia membros anti-semitas da Ku Klux Klan. Assim como, possivelmente, vários dos oficiais generais alemães criam, no íntimo, na igualdade racial entre os homens. Alguns destes americanos receberam comendas e talvez até tenham os nomes inscritos no memorial Yad Vashen, enquanto que alguns daqueles alemães foram mortos pelo Mossad. O agir-pensamento estatal dos EUA e da Alemanha nunca foi o agir-pensamento de todos os indivíduos “ianques” e “nazistas”.

569. Conforme se afasta da terra, da madeira e das pedras dos campos rurais (meio mais natural), encastelando-se no piche, no aço e no concreto das grandes cidades (meio mais artificial), menos conservador o homem se torna -- mais culturalmente libertino, então. O habitat coopera para determinar o pensamento: do livre-arbítrio da floresta à livre-agência do zoológico. Impedido pelo meio de ser o que se é, o homem mutilado nas suas potências passa a agir mirradamente, enfim, uma vez deformado, atua deformando o mundo, enchendo-o de vazio, de nada. O peixe nada na água, que é líquida, mas não pode nadar em qualquer líquido. O natural trás significado e impele à uma existência mais próxima das necessidades corporais do homem, saneadoras das necessidades mentais. O artificial, por sua vez, retira do homem o meio que lhe propiciaria contato íntimo com estas necessidades. O homem não sente o próprio suor, não sua; não sente forme através da fadiga do trabalho, não tem apetite. Até que ponto os grandes centros não são o nosso zoológico? Não tendo que lidar com as suas questões mais primárias, o indivíduo fica restrito a simulacros, a caricaturas, a deformações secundárias. É uma crise de significados, em suma.

570. Quem ainda sabe o que é sede e o que é fome? Poucos as sentem. Dada a abastança de substâncias líquidas e nutrícias para o corpo, a rotunda maioria das pessoas que conheço tem, no máximo, apenas vontade de beber e de comer, ou seja, trata-se de habitual volição concatenada a prazer. É preciso, alguma vez, padecer seca sede e dolente fome para, efetivamente, dar-se valor à água e à comida. Assim poderá saber-se o que é e como é o frescor mais natural aliviando a boca até à garganta e o que é e como é ter farto o estômago mamífero.

571. Ou nós viemos da lama ou do pó da terra. Compreensível que os evolucionistas tanto se apeguem à lama e, nas suas conjecturas algo artísticas, nos desenhem escorregadiamente saindo dela. Afinal, a lama parece-se muito com aquela “sopa protéica” de lodo genético que eles teorizam como sendo nossa fossa ancestral. Difícil mesmo seria, dentro desta lógica materialista, imaginar que do tão asséptico pó da terra (tão mais infértil que a mais fina areia!) pudesse ser formado o ser humano -- tão para além do húmus.

572. Preocupa-te com os fiapos e terás inteiro o tecido. Não disseram os antigos que o Mundo era a grande tapeçaria de Deus? Ele nos quer fiando mesmo os nossos trapos e panos mais imundos: será novo o tecido velho pelo qual passar linha nova. Um sudário de luz brotará da imundície das vestes rotas. 

573. A Arte sempre deforma, mesmo que suavemente, a Realidade. Afinal, a Realidade nunca será um símbolo, que é um elemento semi-descritório da abstração do real, logo, é incompleto e não totalizante porque não pode (e não consegue) abranger a completude total da própria Realidade -- inapanhável na sua integralidade, seja por tinta, por palavra, por pedra, etc.

574. Platão, ao falar das idéias universais, falava sem saber do processo criatório divino ex nihilo. Toda primeira coisa que Deus criou foi a idéia-da-coisa (essência primordial) depois reproduzida nos seus exemplares posteriores. Pena que o filósofo não pôde ler sequer o Pentateuco!

575.  Atenção gera tensão.

576. Eu falo muito com Deus. Muita besteira, certamente. Deus fala pouco comigo. Muito pouco. Mas, quando fala...

577. A Sincronicidade da qual fala Jung não existe como estrutura autônoma de significação, enfim, como “avisos coincidentes” que tendem à manifestar determinado significado verdadeiro acerca da Realidade. Trata-se de mera emanação do nosso pessoal e dirigível “núcleo de logos.” Eventos mentais ou fáticos sincronísticos são um muco metafísico da nossa consciência-credulamente-em-volição, seja ela pautada pelo real ou pelo irreal, pela verdade ou pela mentira, pelo que é pelo que não é, pelo substancial existente ou pelo ilusionismo imaginativo.

578. Não existe inconsciente. Existe apenas consciência. Neste sentido, os sonhos são apenas reações oníricas voláteis emanadas (como descrição cênico-imaginativa) da nossa consciência igualmente volátil. Todo sonho é a narração de uma crença (permanente e/ou impermanente) consciente.

579. Atração sexual existe apenas entre homem e mulher. O resto -- todo o resto das perversões -- não passa de reação sexual auto-centrada.

580. Desventurado para o mundo, porque sou pobre de espírito; mas meu é o reino dos céus. Desventurado porque choro, mas serei consolado. Desventurado porque sou manso, mas herdarei a terra. Desventurado porque tenho fome e sede de justiça, mas serei farto. Desventurado porque sou misericordioso, mas alcançarei misericórdia. Desventurado porque sou limpo de coração, mas verei a Deus. Desventurado porque sou pacificador, mas serei chamado filho de Deus. Desventurado para o mundo, porque sofro perseguição por causa da justiça; mas meu é o reino dos céus...

581. Adão era analfabeto. De que lhe serviria leitura e escrita, afinal? A necessidade pós-edênica de ambas é para nós uma patente recordação da imperfeição humana.

582. Pecado é tudo aquilo que atenta contra o ser e o Ser.

583. Como provar a existência do imaterial abstrato? Ora, todo o concreto goteja um substrato cuja composição é estranha à sua aparente fonte material. Espírito? No cérebro subsistem sonhos, pensamentos, visões, imaginações, etc. 

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