domingo, 21 de agosto de 2016

Diário em Midgard -- VIII

As cerejeiras não querem florescer enquanto o vinho não acabar no banquete. As taças espumam e os cálices transbordam. Bebedeira? Nenhuma. Embriaguez? Que é isto, afinal? O sábio Khayyām está escandalizado: quer correr ao lagar e comer o mosto das cólicas do espírito.

Ensinaram os prussianos a empunhar pincéis orientais? Ensinaram-nos a carpir os campos de batalha e chorar longe dos jardins? Os reis são estalajadeiros e os nobres servem pães de cevada aos camponeses. O 777º barão de Shim’on é um dos melhores jardineiros da aldeia.

Os cães comem grandes bocados de pão-de-ló e os gatos lambem o mel que escorre da colmeia do nonagenário Napoleone. As cerejas estão maduras e cozidas no vinho dos vales altos? Mas... onde estão as flores?  Comamo-las antes que se tornem sementes-em-broto.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Covardia

Se eu tivesse um cantil,
Partiria para o deserto.
Seria soldado da legião,
Seria eremita solitário.
Seríamos eu e a areia.
Mas não tenho cantil.
Uma cabaça nortista?
Não, não é de metal.
O cantil de Napoleão.
O cantil de Foucauld.
Se eu precisar de chá,
O cantil vai ao fogo.
A cabaça queimaria.
Sem cantil, nada feito.
Nem tiro, nem retiro.

Bilhete à Ela [trecho do quase acabado conto “Sob o Sol do Inverno”]

Que clichê, dirás, é falar da luz do olhar. Mas que outra coisa poderia eu dizer destes luzeiros de alma vibrante que destilam paz em minha alma? Que te poderia dizer senão os versinhos antigos, as riminhas infantis e os sussurros de sempre? O amor é igual desde o Éden, Helena. São iguais as juras entre o casal de Verona e as promessas que te fiz sob o ipê branco. Estas palavras usadas pelos românticos e pelos parnasianos surradas, são as melhores. Se não são refinadas em literatura, são apuradas para o coração. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

The Two Towers

Calvo calcário das frias praias inglesas,
Onde Cromwell molhou os pés de Darwin.
Quem, afinal, é bípede? O ogro puritano
Ou o cético anglicano? À confusão vim,
À marchar contras as singelas purezas.

O cavalo manso e o Natal com maçãs doces.
O caco de porcelana azul e a concha barroca.
A carga de cavalaria arruinou a mesa pronta.
A proporção áurea abandonou a mística idéia.
Ser a criança que galopava sobre os campos?
Ser o menino colecionando as sobras do mar? 

Quarta tardia

I. 
Interpretas o símbolo com oriental denodo, mestre?
O ocidente que é senão a alegoria da velha metáfora?
Se lêssemos todos os pergaminhos perdidos no fogo...
Talvez mais débeis seríamos agora. Mais atonteados!
Deixa que os gregos componham haicais na porcelana
E que os magiares mastiguem os brioches palacianos.
Estas idéias que purgam o mundo são pústulas de luz,
São cinzas que, tão gloriosas, servem-nos de esterco.
É um jogo de paciência concentrar-se na expectação.
A tosse de um querubim há de dar cabo do ré menor.  


II. 
Quanto consolo o barulho cheio do ônibus pode trazer
Às almas que silenciaram sem motivo, no vazio coletivo.
Se contemplares a multidão no contado tempo esvaído,
Quando as chaminés apitam esfumaçado ranço noturno
E os proletários picam cartão para que durmam os filhos,
Entenderás porque silenciam certas almas sem gemido.
Entenderás que só há motivo quando dele se apercebe,
Quando um fato cai na cabeça e não a mói em lentidão. 


III.
Preocupam-se os mordomos com o negro verniz dos sapatos.
Alguém tem que dilacerar o couro dos bezerros berlinenses...
Não são dourados os cascos, nem tão fúlgidos quanto o altar.
O incenso pagão e o protocolo burguês veneram o rei Minos,
Arrastam sobre nós nuvens de sândalo e borrões de graxa.
O tempo cromou a cronologia: se te atentares para o símbolo,
Verás que de novo nada há neste deserto de ídolos reinantes. 


IV. 
Dos gritos sobrou o chiado pulmonar, a bronca aguda.
De tanto conjurar os povos, de tanto exortar as tribos,
A voz desesperada minguou na noite de Corpus Christi.  
Quem quer ouvir profecias na praça central da cidade,
Contristar-se entre cinzas e rasgar as vestes preciosas?
Ao deserto silencioso, ao manjar de mel e gafanhotos,
Ao sono frio das cavernas de Sião, à tosse da aflição.