quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Quarta tardia

I. 
Interpretas o símbolo com oriental denodo, mestre?
O ocidente que é senão a alegoria da velha metáfora?
Se lêssemos todos os pergaminhos perdidos no fogo...
Talvez mais débeis seríamos agora. Mais atonteados!
Deixa que os gregos componham haicais na porcelana
E que os magiares mastiguem os brioches palacianos.
Estas idéias que purgam o mundo são pústulas de luz,
São cinzas que, tão gloriosas, servem-nos de esterco.
É um jogo de paciência concentrar-se na expectação.
A tosse de um querubim há de dar cabo do ré menor.  


II. 
Quanto consolo o barulho cheio do ônibus pode trazer
Às almas que silenciaram sem motivo, no vazio coletivo.
Se contemplares a multidão no contado tempo esvaído,
Quando as chaminés apitam esfumaçado ranço noturno
E os proletários picam cartão para que durmam os filhos,
Entenderás porque silenciam certas almas sem gemido.
Entenderás que só há motivo quando dele se apercebe,
Quando um fato cai na cabeça e não a mói em lentidão. 


III.
Preocupam-se os mordomos com o negro verniz dos sapatos.
Alguém tem que dilacerar o couro dos bezerros berlinenses...
Não são dourados os cascos, nem tão fúlgidos quanto o altar.
O incenso pagão e o protocolo burguês veneram o rei Minos,
Arrastam sobre nós nuvens de sândalo e borrões de graxa.
O tempo cromou a cronologia: se te atentares para o símbolo,
Verás que de novo nada há neste deserto de ídolos reinantes. 


IV. 
Dos gritos sobrou o chiado pulmonar, a bronca aguda.
De tanto conjurar os povos, de tanto exortar as tribos,
A voz desesperada minguou na noite de Corpus Christi.  
Quem quer ouvir profecias na praça central da cidade,
Contristar-se entre cinzas e rasgar as vestes preciosas?
Ao deserto silencioso, ao manjar de mel e gafanhotos,
Ao sono frio das cavernas de Sião, à tosse da aflição. 

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