terça-feira, 4 de outubro de 2016

Esponjas de sol - XX

584. Senhor, a tua face ensangüentada eu busco. Por que estaria limpo o meu rosto? Faz da lágrima humana gota de suor divino. Por que é salgado o choro e o trabalho? Senhor, este teu silêncio me amedronta. O teu silêncio me angustia até a medula, me faz desesperar o espírito em dores de morte. Tu, Oleiro, sabes que mais que pó eu sou caco -- caco de um vaso pelo Mundo quebrado, caco esmigalhado pelas pedras do Inimigo furioso. Por que silencias? Senhor, se tu te ausentas da minha visão carnal, se tu te escondes destes meus olhos materiais, inda assim tua presença é notada. És permanente Ser-e-Estar. Na penha da alma eu te vi pelas costas. Não saiu de ti virtude? Tu és Pai -- tu que arrancastes as rodinhas da minha bicicleta e, mudo ao lançar-me no reino terreno, disseste-me: “Vai, filho! Vai pedalar no meu Caminho. Vai, filho! Vai ser livre na minha Verdade. Vai filho! Vai existir na minha Vida.”

585. O arco dispara sem flecha quando o ardil é injusto. / Confusa é toda queixa lançada contra o justo.

586. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança” dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

587. “Por que desejo ser um escritor?” Quero ser escritor porque quero ser íntimo do Logos, porque quero deitar a cabeça no peito da Palavra e ouvir sua respiração, e ouvir sua pulsação -- a substantiva Pneuma divina, a adjetiva sístole e diástole Verbal. Quero escrever porque Deus escreve. 

588. Ouço Bob Marley e sou contrário à liberação da maconha. Leio Nietzsche e não sou ateu. Canto a Marselhesa e sou monarquista. Recito o Kol Nidre e não sou judeu. Dialogo com todas as pessoas, bem como com todas as suas idéias e pensamentos. Porém, sempre tendo a racionalíssima verdade do Cristianismo como crivo inerrante, como pedra de toque. Como o apóstolo Paulo, examino tudo e retenho o bem.

589. Da caverna branca poderá sair escuridão? A não ser que o dia se rebele contra o sol e a lua se amotine contra a noite, jamais brotará treva do interior iluminado por Deus.

590. Ajoelha-te, homem! Pede chuva ao teu Deus. / Pede que água desça do céu e ágüe o sertão. / A temporã e a serôdia pede de mãos ao alto. / Que sejam regados todos os canteiros teus. 

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