terça-feira, 11 de outubro de 2016

Esponjas de sol - XXI

591. Como se manter coerente diante da incoerência sistêmica? Como se manter racional diante da irracionalidade generalizada? Como se manter lógico diante do ilógico ideologizado? Apenas a fé em Deus e na superioridade da consciência sobre a inconsciência é capaz de nos apaziguar o espírito quando a loucura reina.

592. O poder financeiro tem seu limite em si mesmo, ou seja, o dinheiro bloqueia o dinheiro e, por isso, após comprar "tudo e todos", ele se autodestrói e dialeticamente fortalece justamente a causa oposta e adversa. 

593. A crença em Deus não é propriamente crença. Não é crendice ou crentice ou cretinice ou crentinice. A crença em Deus é uma cegueira profunda causada por um grande choque de luz -- da mais potente luz, a luz que contrai as pupilas e arranca a prata do cognitivo espelho ocular, a luz que Paulo chamou "inacessível". Nós, crentes, apesar de não vermos aquele a quem chamamos Pai, nem por isso deixamos de tocá-lo, assim como um cego toca tateando as faces da pessoa amada. E como o cego serve-se do bastão-guia para trilhar seu caminho cambaleante mas certo, nós temos em nossas mãos trémulas um livro-guia que nos avisa a respeito dos obstáculos da vida -- a Vida que está no Caminho que é Verdade. "A crença em Deus", dizia outro dia um ateu, "é cegueira!" E não é que nós concordamos? Estamos cegos diante do Ignoto e do Abscôndito. Mas, se sabemos que é Desconhecido e que está algo Escondido, já não também sabemos que é Conhecido e Revelado? Deus seja sempre louvado!

594. Não se deve refletir a vida inteira. Há um momento em que a reflexão naturalmente se encaminha para uma ação racionalizada de caráter perpétuo. Deve-se sim pensar durante toda a vida. A todo homem consciente chega o dia em que o perscrutamento das "coisas visíveis e invisíveis" cede lugar à labuta nas coisas "visíveis e invisíveis". As milhares de perguntas arrefecem e são submergidas por algumas poucas mas densas respostas.

595. A Literatura Universal é a mais sólida e vasta reserva de Humanidade. Desconhecê-la e propor-se a ser "ponta de lança" em termos de influência sócio-cultural (e política) é se auto-abortar intelectualmente. Não sai da linha de largada o sujeito que tem idéias e não sabe/consegue ver (e então revelar) nelas a Idéia. Quem não leu Dom Quixote não sabe o que é o Idealismo que moveu cavaleiros andantes e move jovens de bicicleta na Avenida Paulista. Quem não leu Dostoiévski não sabe o que é o Realismo que moveu filósofos no século XIX e move velhos ranhetas que assistem ao Datena. Quem não leu Homero não sabe o que é o Ceticismo que moveu Descartes e move alas conservadoras e liberais em Pindorama, em São Paulo, em Brasília e nos confins da terra. Suma de tudo: quem não lê adequadamente jamais poderá alavancar a Realidade; desperdiçará energia por todos os lados sem jamais mover-se um mísero yoctômetro para além do próprio eu-lugar.

596. Em política, sem sobriedade e certo "accountability", num instante a poça torna-se abismo. Quem não se pautar por idéias e descer o nível (o nível, que é emanação do caráter) vai amargar merecida derrota. O povo é inteligente e sabe discernir gente séria de gente histérica.

597. A obrigação número 1 de quem tem um cérebro é pensar. A obrigação número 2 é impedir que espertalhões pensem por você. A obrigação número 3 é desmascarar estes espertalhões.

598. A verdade é sempre uma e una: "esta caneta bic é azul", portanto. Mas, a mentira é múltipla e polivalente: "a caneta não é azul, é preta"; "não, é amarela"; "é cinza"; "é incolor"; "é da cor do cavalo de Napoleão"; "é azul, mas é Montblanc"; etc, etc, etc, até uma "isto não é uma caneta, é um meteoro de Júpiter". Entenderam? Ou o Cristianismo é a Verdade ou não é nada além de tagarelice de religiosos abestados e medrosos. Ou Jesus Cristo era Deus ou ele era um charlatão ou Elvis Presley ou um curandeiro palestino que tomava o chá do santo-daime ou um alienígena da Galáxia GN-z11 ou qualquer outra coisa que não Deus.

599. Ninguém terá vida enquanto Ele não conceder vida. O homem sem Deus é um zumbi existencial, é um arremedo de átomos organicamente energizados, é um boneco de ventríloquo cuja voz é o eco do urro do Adão caído. Só vive quem é consciente. Só está realmente vivo quem foi despertado para a Realidade. Só detém vida quem foi batizado na Vida. Quão fácil é a idiotia de estar no mundo sem saber o que é o mundo e para onde se vai arrastado com o mundo. Quão fluidamente indolor (e tolo!) é atirar-se para o abismo com a manada que insiste em dizer que alguém falou que o caminho da libertação é "ali"; ali para onde todos os cascos marcham morbidamente acelerados. Ninguém vive se não bebe da água da vida e nela não lava os olhos. Enquanto as escamas não caírem, você será apenas mais um número de RG e CPF à espera da certidão de óbito. Decida-se por Deus e tudo ganhará a cor exata, o significado exato, a luz exata. Você viverá como ser que sabe das "coisas visíveis e invisíveis" e não mais como ente que mal suspeita da própria grandeza.

600. O ser humano vicia-se na medida em que não usufrui de prazeres verdadeiros. Então, não tendo alegria e felicidade puras (que são coisas do espírito), ele se apega às poucas e falsas "delícias" que a carne pode temporariamente fornecer, alienando a alma. O problema é que a matéria não consegue fornecer entretenimento corporal por muito tempo. Chega uma hora em que, para conseguir o mesmo efeito, aumenta-se a dose do álcool, aumenta-se a dose do pó, aumenta-se a dose do sexo, etc. Porém, chega ainda uma outra e já derradeira hora: a hora em que, por mais que sejam gigantescas as doses, elas deixam de produzir o efeito almejado. Então, o prazer acaba e fenece juntamente com os litros de álcool, com os quilos de cocaína, com as perversões todas. Sobra apenas o vício frenético e suas decorrentes loucuras. Por isso, quando o Cristianismo ensina e diz que isto ou aquilo é pecado, ele não o faz porque quer nos arrancar um prazer; antes, o faz porque nos quer conservar sentindo prazeres verdadeiros e perenes (cheios de "potência existencial"), alegria e felicidade que fruem do interior imaterial para o mundo material. A virtude da santidade, ao contrário dos vícios da iniquidade, nos permitem usufruir de todos os prazeres com harmonia e funcionalidade. Quem peca, anula todos os demais prazeres em nome de um que aos demais rapidamente consome e, feito um buraco negro, logo se auto-consome. Sobra o vácuo do insignificado -- da depressão que suspende o sujeito do mundo e o faz provar o inferno ainda na terra.

601. Pode o cristão amedrontar-se diante da morte? Não há, no computo geral da Realidade, verdadeiros motivos para tal, não obstante seja um sentimento do homem natural o encher-se de pavor diante da própria finitude terrena. Mas, cheios de medo ou plenos de serenidade, eis diante de nós o irremediável fato supremo: toda carne, nua como veio, retornará ao pó. É bíblico e histórico: o fruto do Éden em nós frutificou destruição corporal. Contudo, da cruz fúnebre ao sepulcro vazio, eis o Senhor vencendo a morte, aniquilando-a e, por fim, destruindo-a através da ressurreição. Podemos chorar. Devemos chorar. Todavia, Ele nos pacifica o espírito e amorosamente limpa dos nossos olhos toda lágrima. A Vida venceu. Um cristão, portanto, não precisa temer a morte. Ela já não existe, propriamente; trata-se simplesmente do segundo e final parto -- o parto para a Eternidade.

602. A leitura dos clássicos é indispensável tanto para o político quanto para o povo que gera o político. Se todo efeito deriva de uma causa, ao menos no plano físico, tal lei não se aplica rigorosamente às relações sociais -- que vivem de altos e baixos, de sístoles e diástoles psicológicas. Então, consumir a boa literatura ocidental e oriental dos últimos três milênios é um meio razoável para que se compreenda a natureza do poder e o porque dele ser o "doce mel" a que aspiram as gentes. Compreendendo o mecanismo, compreende-se facilmente toda a sistemática política, seja ela democrática (hoje, eleitoral), monárquica (hoje, constitucional e parlamentar) ou aristocrática (quase extinta). Os clássicos são o resumo adensado da alma humana. Sem prestar atenção à esta sábia produção intelectual, tanto povo quanto político se auto-enganam; daí, nascem as aberrações.

603. Um cristão não fica feliz, não rejubila, não exulta com o pecado do seu próximo. Um cristão não sorri, não ri, não gargalha com a queda de quem quer que seja. Um cristão não sente orgulho de qualquer suposta virtude sua, afinal, isto é coisa de fariseus auto-justificadores, de pagãos orgulhosos, de escribas legalistas. Um cristão quer saquear o inferno e não, com o dedo em riste, tomar o lugar de Satã e condenar os homens às chamas eternas. Um cristão deve se parecer com Deus e não com o diabo...

604. Lei inexorável: em qualquer contexto humano, a inteligência virtuosamente utilizada e o preparo mental sempre vencerão a ignorância e a desorganização intelectual dos indolentes. Há um momento em que toda retórica iníqua (sobretudo a do dinheiro) não avança e por si mesma é freada. É aí que, no dizer de Provérbios 21:22, "O sábio escala a cidade do poderoso e derruba a força da sua confiança."

605. Não se pode julgar a qualidade de um vinho pela sujeira do cálice que o acolhe. Semelhantemente, não se pode julgar a qualidade e a veracidade de uma idéia simplesmente pondo os olhos na má conduta de quem a defende. O homem sábio é aquele que sabe discernir a ideologia do ideólogo e o ideal do idealista. Portanto, o Cristianismo não pode ser julgado tomando-se como parâmetro o péssimo exemplo de muitos "cristãos." Que tem o Cristo a ver com os cafetões da Fé que fazem do templo de Deus covil de ladrões e salteadores? Que tem o Pobrezinho de Nazaré a ver com aqueles que iludem corações susceptíveis a ilusionismo simoníaco? Que tem o Deus Crucificado a ver com toda sorte de canalhas que falam em seu nome? Por isso, é indispensável a leitura da Bíblia Sagrada: nela encontramos Ele -- que é Caminho, Verdade e Vida.

606. É mais do que importante: é necessário freqüentar uma boa igreja. O Cristianismo distingue-se das demais religiões justamente por pregar uma vida comunitária -- de comunidade, "de dois ou três reunidos" em Seu Nome. A palavra igreja, aliás, evoca vida organicamente coletiva. Igreja vem do grego ekklesía, cujo significado é "povo". É na igreja que o indivíduo torna-se parte de uma família e, nela, recebe os sacramentos da vida integral. Um cristão não é apenas um batizado que crê em Jesus Cristo. O cristão é aquele que recebe e cultua o Senhor em espírito e em verdade num culto racional e institucionalmente estabelecido. Vá à igreja. Nela reúnem-se os filhos de Deus, os salvos, aqueles que na terra anseiam pelo Reino dos Céus.

607. Saibamos prestar atenção às mensagens de Deus. Ele fala o tempo todo -- seja com silêncio amoroso ou através do megafone do sofrimento. Deus sussurra ao pé do ouvido e brada severamente na alma. Não passa um dia sem que o Senhor nos diga algo, sem que nos mande bilhetes, sem que nos ponha em contato direto com o Céu. Não diga que Deus não fala com você. Você é que é insensível -- surdo, cego e mudo -- à conversa que Ele quer ter contigo ontem, hoje e eternamente.

608. Cristo mandou negar-se a si mesmo. Que quer isto dizer? Certamente, não se trata de uma guerra ao próprio ser, à própria personalidade, àquelas qualidades individuais que nos fazem singulares. Negar-se a si mesmo é negar o ego supremacista, é abjurar aquela parte da alma que nos faz orgulhosos e soberbos. Negar-se a si mesmo é afirmar a plena centralidade da Divindade na formação integral da Humanidade (Gálatas 4:19), afinal, diz a Escritura que somos “imagem e semelhança” dEle. Ao contrário do totalitarismo islâmico, que submete o sujeito à tabula rasa da religiosidade cega e padronizada, o Cristianismo ressalta o eu verdadeiro, resgata a pessoa real da suas personagens irreais, faz subir ao verniz da superfície o âmago do espírito, anula a caricatura culturalmente fabricada em série e exalta a obra-prima celestialmente planejada. Negar-se a si mesmo é, então, não ser o que não se é.

609. Tenho a impressão de que poucos cristãos olham para o céu -- este alto e azulado céu atmosférico -- e ainda se vêem cortando os ares, singrando as nuvens, saltando depois pelas galáxias iluminados por supernovas e anjos com tochas eternas, e enfim chegando ao Terceiro Céu, às portas de Sião, aos braços de Deus. Maranata!, a despeito da incredulidade dos crentes. Maranata!, ainda que os púlpitos não esperancem as almas com vislumbres da Nova Jerusalém. Maranata!, mesmo que o Arrebatamento já não passe de metáfora mística para teólogos ateus.

Nenhum comentário: