sábado, 29 de outubro de 2016

Esponjas de sol - XXII

610. Nas artes visuais, a Beleza é um conjunto de afetos elevados cuja manifestação dá-se através de uma unidade estética apurada. Doutra forma, que se diria das pessoas notoriamente “feias” retratadas por Rembrandt, p.ex?

611. Enigma. Alva beatitude cantará douradas estrelas -- fervorosas guardiãs, hirtas impassíveis -- jejuando labaredas menores (neófitas!), orbitando pulcras questões sorridentes: tempestades uterinas vergando xistoso zênite. Which killjoy are you?

612. A Democracia é um cadáver pútrido que jorra sangue quente sem parar. É, ao mesmo tempo, vida e morte. Todas as demais alternativas são morte pela morte: um corpo social há milênios apodrecido, com sua seiva vital coagulada friamente em pó na ágora, na corte, no parlamento, no paço, nas arquibancadas políticas -- verdadeiras poças de pó. A Democracia, contudo, banha de calorosa crueza humana a ágora, a corte, o parlamento, o paço, as arquibancadas políticas: o Poder das Gentes é morto enquanto possibilidade de existência acional plena (o fazer através do corpo), mas sua substância vital (o querer da alma) nunca conhecerá sepultura. 

613. O cristão não deve se acovardar diante das vicissitudes. Por isto, ele não quer estar no meio daqueles que correm dos grandes conflitos: o cristão corre desafiadoramente em direção aos conflitos. A coragem de enfrentar o mundo em nome do justo, do correto e da verdade é o penhor da vida de um homem digno da própria humanidade. Atanásio de Alexandria sem dúvida é para nós crentes o arquétipo superior do varão destemido -- um amigo certa vez lhe disse: “Atanásio, o mundo está contra ti!”; ao que ele resolutamente respondeu: “Assim seja, Atanásio contra o mundo.” Dar a cara a tapa não é para homens em cujas veias corre urina em vez do sangue de Adão.

614. Ser consciente é compreender-se no mundo e é poder discernir com certa acuidade as causas e os efeitos dele em nós e nele mesmo. Só é consciente o homem que não é presa de si nem do mundo, que não tem o coração tangido pelos impulsos baixos da biologia nem mesmo pelos supostos quereres altos da ideologia. Só é consciente o homem que é escravo da realidade. Só é consciente o homem que é livre para submeter-se à verdade. Todos os outros guerreiam pelo conforto da caverna escura, pela satisfação frenética e entrópica da alienação, pelo ópio fugaz da diversão que anestesia a alma, pelos vícios em endorfinas existenciais, pela inconsciência que faz do homem um parente despenado do avestruz fujão.

615. Não se deve jamais perder o espírito de criança, mas é imperativo, uma vez que se chegue à “idade da razão”, perder a infantilidade nos afetos. É constrangedor perceber que muita gente adulta faz birra, bate o pé e grita descontroladamente aplicando às questões da existência adulta as emoções e o modus operandi do jardim da infância. Ter o espírito de criança é possuir as virtudes delas -- inocência, candura, ingenuidade, alegria multiforme, etc -- e não os vícios inerentes à raça humana quando ela ainda chupa chupeta e bebe leite morno açucarado na mamadeira. 

616. Quando as Sagradas Escrituras nos dizem que os “tímidos” ficarão de fora do Reino de Deus, elas não se referem à timidez psico-afetiva, enfim, à timidez daquelas pessoas que sentem-se introspectivamente bloqueadas pelo mundo e não conseguem reagir apropriadamente à determinadas situações psico-sociais. A timidez da qual fala a Bíblia é a mesmíssima covardia omissiva que fez Dante Alighieri duramente afirmar que “Os lugares mais quentes do inferno são destinados aos que, em tempo de grandes crises, mantêm-se neutros.”

617. O ateu que passou do primarismo filosófico já não se pergunta se Deus existe ou não. Ele sabe que é impossível provar a inexistência na mesma medida em que é “empiricamente” impossível provar a existência dEle. O ateu sincero é aquele que agora já se pergunta: “Por que deveria ou não existir?” Quem chegou a este ponto (ontológico) está a um passo de abraçar Deus na próxima esquina da Razão, porque passou da lógica materialista songamonga para a intuição espiritual.

618. O conhecimento é um grão de areia (democraticamente encontrável em todos os lugares), a inteligência é uma pedra (menos plural na forma mas igual no conteúdo, tem certa abundância), a sabedoria é uma rocha (só se topa com ela nas jornadas que nos levam para longe do conforto do lar-planície), a humildade é uma montanha (para além do horizonte, só se alcança pela escalada). O grão-de-areia, pisa-se com os pés. A pedra incomoda os pés. A rocha obriga a desviar os pés. Porém, a montanha pisa-se com os pés, incomoda os pés e obriga a desviar os pés; afinal, ela é um todo que agrega as contradições do caminhar humano. Assim é também com o intelecto: apenas a humildade é capaz de congregar saudavelmente as divergências (e diferenças) funcionais da mente sem, contudo, desordenar nossos afetos. A humildade faz do homem um ser conhecedor, inteligente e sábio sem torná-lo vaidoso, orgulhoso e soberbo. É facílimo deter conhecimento, é fácil nascer inteligente, é difícil atingir a sabedoria, mas é dificílimo (uma vez dotado na cognição de certos conteúdos acerca das “coisas visíveis e invisíveis” -- a Realidade) ser humilde.

619. Simplicidade é virtude. Humildade, idem. Simples é o homem “bruto” natural, é a pessoa mais próxima da sua espécie. Humilde é o homem que discerne o seu ser como ele é, sem dourados e vernizes. Ambos os estados nada têm a ver com ignorância ou poucas possibilidades financeiras. Quanto à ignorância, ela só é reprovável naquelas pessoas que não são simples nem humildes, enfim, não são conscientes daquilo que não sabem e por isso supõem saber. Maldito (e perigoso) é o ignorante orgulhoso -- o sujeito que não conhece mas ousa crer sincera e vaidosamente que conhece. Este deve ser combatido, porque é um perigo para os simples e para os humildes, para os sábios e para os conhecedores: é inimigo da atividade do Logos na sociedade.

620. A Pindorama-mirim e a grã-Pindorama nacional só serão desenvolvidas quando Língua, Religião e Alta Cultura forem a base sólida sobre a qual os indivíduos escolherem edificar suas vidas. Língua: além de mera comunicação, instrumento de civilização espiritual e intelectual. Religião: os valores atemporais que nos ensinam que o tempo cessa com a eternidade e que toda ação material tem efeito metafísico -- porque a Salvação vem de Deus. Alta Cultura: vida interior repleta de beleza (e arte), capaz de abastecer plenamente a alma humana de alegria e serenidade.

621. A coisa mais artificial no Éden seria uma biblioteca. Para que livros quando se convivia com Ele? Para que palavra escrita quando se tinha junto de si, pessoalmente, o Verbo? Adão consultaria a Barsa para descobrir se determinado cogumelo o envenenaria e Eva viraria página após página dalgum livro de melancólicas poesias românticas? Para que letra desenhada com o suco das amoras e a pena de um gavião? A necessidade de re-conhecer o mundo provém do pecado. Pecando o homem, do lenho da Árvore do Conhecimento extraímos a celulose para os papiros, para os pergaminhos, para os tomos de papel dos quais necessitamos para chegar à definitiva conclusão: “não há limite para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne.” (Eclesiastes 12:12).

622. A música cristã ortodoxa é cheia de filigranas vocais; cada uma delas carrega o peso do mundo.

623. O átomo está estruturado conforme os quatro pontos cardeais.

624. O indivíduo está para a Humanidade como a caligrafia particular de cada homem está para as padronizadas letras de forma que a ele e à sua classe foram ensinadas no Início, na [proto-]alfabetização.  

625. A noite: metafísica. O dia: físico, materialista. A escuridão das 12 horas sem sol remete à nossa incapacidade de ir além nas veredas da razão, porque a todo período de discernimento alumiador acerca de determinada questão segue-se, sobre o mesmo plateau consciencial, o ensombrecimento das idéias de quando se acorda por outras idéias mais espessas (intuídas) de quando se espera o sono imaginativo -- idéias que repelem qualquer completa coerência das anteriores. A noite subsiste no mesmo terreno em que reina o dia; e como é outra a atuação dos homens, da fauna e até da flora, de todo o mundo, morto ou vivo, neste mesmíssimo ambiente quando as trevas irrompem no horizonte! O observador diurno só pelo dia mede os homens. O observador noturno, idem. Porém, apenas a Revelação concilia empirismo evidente (explícito) à realidade inevidente (implícita) e demonstra a razão de ser das Vinte e Quatro Horas.

626. Para gravar no umbral de toda universidade -- Defende as tuas fronteiras, guarda o trigo mal crescido: porque aí vêm os bárbaros, os midianitas e os hunos. Corre à meia noite pelo campo, tu, escudeiro do grande Leão, e cava fossos sobre o pasto. Incendeia a cabana e a lama, desvia o curso do regato; bebe, soldado de Gideão, e vai comer a carne crua do último gado flechado.

627. Antigamente, toda a energia animal humana era depositada na guerra: o sujeito liberava as tensões biológicas da auto-preservação no enfrentamento direto e massivo contra outros sujeitos. Espada contra espada e as pessoas eram menos violentas no dia-a-dia justamente porque expurgavam sua libido grosseira nos campos de batalha. Hoje, ausentes as pelejas bélicas, os indivíduos mais selvagens (portanto, mais necessitados de briga) descobriram o Facebook e brincam de espadachins uns com os outros gritando “touché!” a cada post imbecil que alcança a incrível marca de meia dúzia de curtidas entre a molecada de meia-idade do “partido político” do MiMiMi.

628. O covarde sempre põe a culpa no outro: “Não fiz, porque fulaninho não deixou!” / “Não agi, porque fui impedido por ciclanildo!” /“Não pude, porque beltranejo fez cara feia!” Um homem digno da própria hombridade não foge ao primeiro “boo!” fantasmagórico que lhe dão na cara. Por a culpa no outro é expediente indigno, sobretudo para aqueles que pretendem assumir qualquer posto de liderança; liderança que é qualidade pespegada à intrepidez, à audácia, à coragem de enfrentar e fazer valer suas prerrogativas. Quem se submete quando deveria se insurgir, sempre que melar as calças (porque sempre as melará) porá a culpa não na própria fricção intestinal intimamente associada ao seu caráter gelatinoso, mas a porá no outro, a porá nos outros. Na vida privada, o covarde é um tolo tolerado pelos que lhe circundam (e protegem, via de regra). Na vida pública, é um perigo para a prosperidade social.

629. O amor consiste também na suprema exaltação da amada, individualizando-a a tal ponto que a universaliza. A particular mulher que se ama torna-se a única e superior mulher entre todas as outras no mundo, torna-se Eva para um filho de Adão. Salomão dá o exemplo ao escrever no seu livro dos Cânticos -- capítulo sexto, versículos 9 e 10: “Porém uma é a minha pomba, a minha imaculada, a única de sua mãe, e a mais querida daquela que a deu à luz; viram-na as filhas e chamaram-na bem-aventurada, as rainhas e as concubinas louvaram-na. Quem é esta que aparece com a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, terrível como um exército com bandeiras?” Cantada bíblica, of course.

630. Shakespeare escreveu, no seu Macbeth, que “A vida é uma simples sombra que passa.” Poético e forte em termos de impressão no senso comum, mas errôneo como chamar biscoito de bolacha e vice e versa. A vida é simples, sem dúvida. Mas, não é uma sombra. Ela passa, mas não empurrada pelo espirro de um qualquer agente físico. “A vida é uma simples luz que permanece”, se diria com maior verdade. É luz porque foi criada pelo que habita na Luz Inacessível. E permanece não porque não transite de lugar para lugar, de ambiente para ambiente, de condição para condição. Permanece porque nunca será outra coisa e jamais terá outra essência de ser que não luz, luz que condiciona a própria sombra.

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