sábado, 12 de novembro de 2016

Esponjas de sol - XXIII

631. O triângulo solitário como representação da Santíssima Trindade é falho. O “correto” seria um triângulo contendo, centralmente, um círculo. Na medida em que o triângulo é uno como figura total, é também trino por conter três ângulos-cantos que também se triangulam ao formar outros três triângulos -- três derivações parciais do todo, logo, três outras figuras e, por isto, três entes por si, o que é contrário à Revelação. Porém, se há ali um círculo, há o eterno sem ângulos que reúne os ângulos na placidez de sua curva infinita. Os ângulos demonstram o que é diferente na ação e a ausência de ângulos que os reúne demonstra o que é igual na propulsão. É a unidade perfeita na diversidade perfeita: é um-que-é-três.  

632. As biografias dos heróis bíblicos são sempre cheias de contradição. Via de regra, são pequenos como Davi, chorões com Jeremias, jovens idealistas como José, viúvas piedosas como Judite e tímidos gagos como Moisés aqueles que vencem os grandes como Golias, os calculistas como Joaquim, os políticos pragmáticos como os nobres egípcios, os pretensiosos como Holofernes e os tiranos espalhafatosos como Ramsés II. Portanto, se veres alguém triunfando contra todas as “possibilidades naturais”, contra todas as poderosas hostes deste mundo bruto, desconfie: talvez Deus esteja movendo os pauzinhos da História.

633. O maior elogio que se pode fazer à beleza de uma mulher é ficar encabulado, desconcertado, sem palavras (ou com elas engasgadas no ponto que divide a alma das cordas vocais) diante dela. Estagnar diante de uma filha de Eva,“como un niño frente a Dios”, incapaz sequer de balbuciar os mais simplórios adjetivos de admiração é o ápice do maravilhamento -- verdadeiro thaumazein, no dizer filosófico. Quando cessam as palavras é o ser todo que se prostra, é a unidade de espírito-alma-e-corpo que elogia.

634. The Exile Reloaded -- Senhor, estão cativos os nossos olhos da luz que não quer amanhecer: o sol está enterrado no quintal, junto com o cachorro do vovô. Para que tantos livros na estante? Para que a Velha Escritura somente? Ficam os bibelôs kitsch e os cristais! Nós guardamos o maná na geladeira, entre o camarão e o resto do manjar. Senhor, estas roupas que crescem conosco não são suaves com as sedas chinas, não são imperiais como a púrpura, não são arminho nem rico linho. Remendaremos o custoso corroído; o gratuito sempre novo, dá aos outros!

635. Não basta gostar de algo; é preciso conhecê-lo, entendê-lo e, na medida do possível, esforçar-se por compreendê-lo com certa integralidade. Então, mais do que simplesmente ter simpatia afetiva por determina coisa, ter-se-á satisfação em dominá-la a ponto de dela extrair sua amplitude-na-realidade. O grande erro dos lobos anciãos e das velhas raposas da política é que eles gostam muito de política, mas não entendem porcaria nenhuma dela. Os senhores feudais gostam a valer dos brasões, das moedas douradas, dos salamaleques dos vassalos, enfim, da “mise en scène” do poder político, porém nada discernem acerca das estruturas mesmas da política e de como elas afetam e são afetadas pelas demandas do espírito, da alma e do corpo humano. Ainda bem!  

636. Cômico: a frustração repentina e abrupta de uma lógica linear de conteúdo afetivo sério ou ordinário (ao qual se rende certa reverência comportamental) por uma “manifestação” ilógica de conteúdo afetivo extraordinariamene piegas ou hilário (propulsora da irreverência dormente ou geradora de nova irreverência).

637. As entranhas do “poder” são o poder das entranhas. Do contrário, a gente não assistiria ao triste espetáculo público dos vômitos verborrágicos, das caganeiras mentais, das cólicas de cortisol, da bílis pinga-ácido. Toda a ação dos bárbaros na luta pelo “poder” nasce do poder das suas próprias entranhas -- fétidas, pútridas, corroídas... pelo mal.

638. O ego de certos sujeitos é tão super-inflado que a gente chega a ter a opinião-diagnóstico de que eles sofrem de claustrofobia do globo terrestre.

639. A madrugada solitária, abismo entre dia e noite, expõe a luz embrionária, cálice do sábio deleite. Só beberá do amanhecer o de sincero pensamento, cantando alegre lamento ao luzido rei sombreador. Tu não conheces o todo, nem suspeitas da parte. Como escreverás à Arte se não narras teu êxodo?

640. A vida deve ser levada a sério não porque há um público de olhos atentos e caderninho de anotações em riste bisbilhotando nossos passos sobre a terra. A vida deve ser levada a sério porque temos que prestar contas a nós mesmos para que, no momento supremo, quando o corpo estiver pronto para o túmulo, prestemos contas Àquele que nos deu um “naco” do seu Fôlego -- nossa alma imortal. É a inviolabilidade da nossa consciência marchando sob a Lei de Deus que deve moldar nossas ações no Mundo, para o qual devemos virar as costas sempre que ele ousar supor que pode nos influenciar como se fôssemos poodles adestrados de picadeiro destinados às gargalhadas da arquibancada existencial. Quem vive detém soberanamente seu próprio palco e, como tal, sempre (“forever and never, hallelujah!”) dará o tom do silêncio, do pranto, do riso, da ira, do mimimi, etc, daqueles que escolheram mofar sentados na platéia. Quem leva a vida a sério torna-se a ação motriz daqueles que, mecanicamente, feito ventríloquos vitorianos, apenas reagem.  

641. O domínio da linguagem é a linguagem do domínio.

642. Nossos dias cronológicos são dominados por “dias temáticos” em termos de palavreado e de assunto para este palavreado. Dizemos e escrevemos certas coisas e, se nos auto-avaliamos neste nosso ofício humano de lançar palavras no Mundo, percebemos que certas expressões vão formando um “crescendo” logo-semântico de significados que se enraízam e se expandem no tempo ulterior. Certas palavras e expressões se repetem “inconscientemente” nestas nossas pequenas jornadas atemporais. É como se o Logos Divino frutifica-se em nós “pontos de referência” lingüísticos (verdadeiras bússolas do Verbo) para nos encaminhar o espírito à certas searas de mistério e conhecimento.

643. Deus confidencia mistérios à tardinha.

644. De lavagem das mãos em lavagem das mãos, as palmas e os dedos se descarnarão até os ossos. O hábito de Pilatos é, de longe, um dos maiores fazedores de caveiras espirituais.

645. A vocação cristã não é propriamente vocação no sentido de constituir-se num chamado específico, enfim, num chamamento à uma missão sui generis a ser desempenhada em função do ser humano para o Reino de Deus. O chamado específico existe, certamente, mas ele é a senda de homens e mulheres especialmente convocados a desempenhar ministérios e carismas “espargentes.” A vocação cristã, então, é o grandioso chamado a viver a vida que Adão e Eva deveriam ter vivido no Éden, é o chamado à existência-com-significado, é o chamado à integralidade do calendário, é o chamado ao ordinário das 24 horas, dos 365 dias, enfim, à liberdade de entrosar-se organicamente na “faixa etária” dos comuns em comunidade.

646. “Qual é a tua vocação?” Esta é a pergunta que procede ao “Conhece-te a ti mesmo” da filosofia, porque dela deriva imediatamente. A Vida nos chama a cumprir com a nossa vida um propósito que, ao mesmo tempo em que individualmente nos sacia o espírito e o enche de satisfação existencial, também afeta beneficamente o corpo social no qual nos movimentamos organicamente. E como encontrar a própria vocação e ter certeza da veracidade (e, então, da validade) dela? Recorda os teus sonhos e os teus pesadelos conscientes aos cinco anos de idade. O que tu eras essencialmente para ti mesmo, para o mundo e para Deus naquela fase inocente da vida, é o que deverás ser até a morte. Que idéia e que ideal te movimentavam o ser? Que beleza humana ou divina te fazia brilhar os olhos? Que atividade (ou hobby) desejarias perpetuar pelos séculos dos séculos? -- aquela que faz valer a Lei da Relatividade einsteiniana: 1 hora disto, é 1 minuto fugaz de grande alegria; 1 hora daquilo, é um dia todo chato e maçante. Então, a primeira coisa a fazer é despir-te das carapaças, dos “jugos” e dos “fardos” no dizer do Cristo, e, então, recomeçar com serenidade a especializar-te na tua obra, que é construtora da Obra.

647. É comum vermos/ouvirmos/lermos muitas pessoas se gabando de serem “sinceras”, atribuindo-se uma virtude que, em verdade, não lhes pertence de modo algum. Sinceridade é uma postura que exige essencial consonância com a Verdade e com o Bem, de modo que grosseria, boca-grande e língua pesada, histerismo e toda sorte de chulismo comportamental nada têm que ver com sinceridade. Trata-se apenas de má criação, de despudor, de descaramento, de desbocamento cru, nu e bruto. A Sinceridade verdadeira é aquela que expõe a Realidade de modo a construir uma Realidade intensamente melhor; para tanto, exige moderação: exige a capacidade de tratar dos assuntos mais duros e espinhosos com tato, elegância e, sobretudo, com educação. É por isso, e só por isso, que com freqüência estas pessoas “sinceríssimas” não são levadas a sério nem sequer por aqueles que lhes aplaudem. Quem grita e berra sem parar não é capaz de agremiar respeito. Sinceridade, quando dura, deve ser medida: e é esta aquela que causa tremores, temores e terrores na Realidade e angaria respeitabilidade pública e privada.

648. Nas democracias pós-modernas, a articulação do poder acontece predominantemente através da desarticulação da sociedade. “Divide et impera”, sentenciava premonitoriamente Júlio César. Portanto, não há nada que estranhar, em termos de resultados eleitorais, a vitória de Donald Trump. As esquerdas elitistas, movidas por sua hidrofobia marxista, dividem: instauram e fazem a “guerra de classes”. Nos EUA, Bill Clinton começou a cisão da sociedade americana e Obama completou-a com cerejinha no bolo e tudo o mais. Então, a direita populista reúne (não une) seus pedaços desconectados e, por eles e neles -- afinal, a democracia eleitoral representa a supremacia do número --, triunfa. Este é o terrível e entrópico mecanismo das pelejas eleitorais da década anterior e pelo menos das cinco ou seis décadas futuras, cuja astúcia ultrapassou até mesmo as previsões do canalhíssimo Nicolau Maquiavel, afinal, ele não contava com cédulas e urnas eletrônicas. It’s the realpolitik, stupid!

649. 10 mandamentos da política-de-sempre para progressistas e esquerdistas:
I.             Apenas o povo entende integralmente o povo.
II.           O povo desconfia do poder, dos políticos e dos partidos: do establishment, pois.
III.          Toda elite ideológica despreza o senso comum.
IV.         O senso comum é o motor do homem comum.
V.           O homem comum compõe majoritariamente o povo, d’oh!
VI.         O pensamento ideológico é anti-realidade, enfim, apenas idealmente pró-povo.
VII.        A realidade é anti-ideológica, logo, faticamente pró-povo.
VIII.      O povo aceita pronomes possessivos e o ritmo biológico do mundo.
IX.         Os ideólogos desprezam as bases desta mentalidade natural.
X.           Quem percebe isto, vence as eleições sob os aplausos do povo.

650. A Realidade não é aquilo que suas conexões neurais -- sua mente, pois -- produzem. Está aqui um bom ponto de partida para analisar o mundo que existe de fato e, então, não confundir torcida (fantasia ideológica) com o conjunto dos fenômenos que agem sobre este “mundão véio sem portera” desde que Adão comeu a maçã e Judas perdeu as botas.  

651. Acata a decrepitude: aceita que tombarás na cripta.

652. Não se deve implementar reforma ou reformulação com intenção permanente naquilo que é impermanente.

653. Não se deve desconfigurar, reconfigurando, aquilo que é aprioristicamente configurado.

654. A desordem torna-se organizada (não ordem) quando à ela se estabelece determinada função sistemática.

655. Utopia. Abrir no mundo as próprias veredas, caminhar confiante durante a noite fria, devastar o deserto e aguar os mares, sussurrar o que gritaria ao meio-dia, impor liberdade ao próprio arbítrio, obedecer a Lei que nutre céu e terra. Então, a estrada e o atalho serão um só caminho.

656. Interpretar a própria vida é a atividade mais perigosa existencialmente. Por isso, os fatos devem se sobrepor às idéias que se têm acerca deles. E é preciso redobrar vigilância, afinal, muitos fatos não são originários (naturais, pois), enfim, eles provêm substantivamente das idéias (artificiais aderentes, portanto). Interpretar a própria vida é enviesá-la em termos de “caminhos-de-valores” no espírito, na alma e no corpo. Uma biografia é, portanto, a unidade de retas abstratas que se traçam a partir da diversidade de curvas concretas que acontecem, ou vice-versa: é um ouroboros psicológico.

657. O mundo fica melhor quando o campo “invade” a cidade, quando o rural conservador estapeia a elite urbana esnobe, quando o camponês proprietário vence e Wall Street chora as pitangas. É de lavar a alma ver o fazendeiro com as mãos cheias de calos esmurrando eleitoralmente os cancros purpurinados de Hollywood, aqueles que desprezam qualquer um que não lhes estenda tapete vermelho. A Civilização dos rústicos interioranos venceu a “civilidade” dos blasés metropolitanos. Nem aí pro Donald Trombeta, nem aí pra Hitllary Clinton. Dont tread on me!

658. Sinais dos tempos: antes do Nacional-Socialismo, as insígnias de hierarquia militar e as ombreiras dos exércitos Alemão e Austríaco (sobretudo este) eram especialmente coloridas, adornadas com cruzes, arabescos, estrelas, folhas, flores e frutos. A guerra, cujo resultado é a morte, tinha lá seu “couleur de vie.” Com o advento do Nazismo, tornaram-se integralmente geométricas, cheias de linhas retas, de figuras angulares, de “formas puras” e matemáticas eventualmente adornadas com punhais, caveiras e ossos. Eis a estética da ética. É o que Tolkien chamaria de “Efeito Mordor.”

659. Desde Babel, Satanás não desistiu de tentar ressuscitar Ninrode e de erigir sua torre meta-nacional -- seu governo centralizadoramente mundial. Eis aí o Globalismo.

660. Primeiramente, o governo surge para ser a espada que protege a vida. É força física coletiva para proteger fraqueza física individual. Trata-se de uma relação material e concreta. A ideologia, abstrata e imaterial, surge apenas quando se pretende fundar um governo sob idéias e não sobre necessidades. 

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